O São Paulo precisa cair: de divisão e na real

29 de janeiro de 1986. Um sábado de sol. O São Paulo Futebol Clube venceu o América do Rio Grande do Norte por 4 a 0, gols de Renato Pé Murcho (2), Careca e Paulo César.

Foi a primeira vez em que pisei num estádio, com 3 anos de idade. Ainda me lembro do assombro ao ver o Morumbi, aquele colosso. Como me esquecer de ser levado pelas mãos pelo meu pai para a arquibancada e ver os jogadores lá embaixo… “Cadê o Careca, pai?”, e ele apontava para mim.

Não, não foi ali que meu amor pelo São Paulo Futebol Clube nasceu. Naquele momento o amor somente se consolidou. Eu já nasci Tricolor. Não dá para explicar. Só quem torce de verdade, para qualquer time, entende.

E é com essa autoridade, de torcedor apaixonado, que digo: o São Paulo precisa cair.

Não somos, há muito tempo, os soberanos. Hoje, como já há alguns anos, frequentamos a zona da degola. Este ano, com mais afinco do que nunca.

Mas quem comanda o clube parece não se intimidar por isso. Continua com uma empáfia singular, coisa de rico que perdeu a fortuna, mas não perdeu a pose.

Hoje, o time que já foi o maior campeão das Américas, é isso: um arremedo de agremiação, uma piada pronta. Um velho trôpego em seu jaquetão puído, que olha para os “novos ricos” com cara de nojo, mas que não consegue nem frequentar os mesmos restaurantes que eles.

E para esse velho aristocrata cair na real, eu acredito, somente com um chacoalhão daqueles. Ser despejado… Nesse caso, não da residência, mas da primeira divisão.

O São Paulo precisa comer o pão que o diabo amassou, passando apuros no Municipal de Pelotas, contra o Brasil daquela cidade. Tem que viajar horas e horas para chegar em Belém e suar contra o Paysandu.

O meu amado time precisa tomar um banho de realidade. Sair da sua bolha Zona Sul (Morumbi) e Zona Oeste (Barra Funda) e ver que aí fora o bicho tá pegando e só quem é ligeiro consegue se salvar.

Os são-paulinos podem me odiar, mas vejam o que aconteceu com o Corinthians depois da queda: campeão de tudo. Igualzinho um certo time era, vinte anos atrás.

Com o rebaixamento, tudo mudou. Você pode até questionar o estádio alvinegro e sua mal contada história. Mas alguém aí ainda fala em Alberto Dualib? Aliás, se você coloca o nome dele no Google, a pesquisa sugerida é “Alberto Dualib morreu?” e isso resume tudo.

Ainda podemos nos salvar este ano? Evidente que sim. Mas para mim, uma renovação completa só vem depois do descenso. Porque aí, os oportunistas que só estão na diretoria para se beneficiar, vão acabar expurgados.

Renovação total, sem meias medidas, só virá com uma pancada violenta, ou seja: com o rebaixamento.

É difícil chegar à essa conclusão, mas a segunda divisão é um mal necessário. Se escaparmos mais uma vez, tudo continuará igual. A mesma postura ridícula de se colocar alheio ao mundo, vivendo, como no hino, de glórias do passado. Enquanto no presente tudo é patético, com soluções mirabolantes, como um técnico sem nenhuma experiência e somente um nome mitológico, por exemplo.

Não quero mais chorar de raiva, mas sim de alegria, como quando vi o quieto Mineiro deslocar o goleiro e botar a bola no fundo do gol inglês e nos fez ganhar o mundo de novo. Ou quando Muller apontou para Costacurta, mandando um belo de um “chupa!”, na final do Mundial contra um Milan espetacular.

Quero poder levar meu afilhado ao estádio, como meu pai me levou tantas vezes, e ver o São Paulo ganhar, perder e empatar. Porque assim é o jogo. Mas para ver o São Paulo de verdade, o time que dizia ser “diferente”, “modelo de gestão”. Não esse rascunho grotesco de hoje.

Um São Paulo que é realmente rico — não de dinheiro, mas de postura, de honra.

Um São Paulo renascido do inferno da segundona. Mais forte e sábio.

O mesmo São Paulo que me encantou, mesmo antes de eu pisar no Morumbi. O meu São Paulo Futebol Clube.