Guerra de Likes


Precisamos conversar sobre o comercial d’O Boticário feito para o dia dos namorados. Caso você ainda não tenha visto segue o vídeo, caso tenha visto veja de novo. ☺

Não pode ver o vídeo? Eu descrevo: são 8 cenas paralelas, todas mostrando um homem ou mulher sozinho com o produto da marca, ou comprando, ou indo para a casa do parceiro. As cenas seguem e aí acontece a mágica: (1) um homem bate na porta e é recebido pelo seu companheiro, (2) um casal heterossexual se encontra em um restaurante, (3) a jovem abre sua porta para a namorada e (4) uma garota encontra o namorado em uma praça.

Apenas isso, encontros. Não existem beijos nos 30 segundos de vídeo, apenas abraços e demonstrações de afeto. Porém, todavia, entretanto, o comercial já tornou-se alvo de disputa numa guerra de likes do vídeo no Youtube.

Supostas pessoas de bem argumentam que o comercial estaria deturpando valores familiares. Quais valores familiares, cara pálida? Valores de amor ao próximo e respeito?

Espalhado rapidamente em correntes de Whatsapp, um boicote foi sugerido a marca de perfumes, conclamando turbas de intolerantes, com uma capa de supostos defensores da família, a darem dislike no vídeo, como uma forma de demonstrar a insatisfação com um vídeo que mostra afeto.

“Como explicarei isso aos meus filhos?”

Alguém já deve ter falado isso, mas se você consegue explicar a novela das 21h para seus filhos, com traições, chantagens, extorsões, crimes, assassinatos e etc., explicar que duas pessoas do mesmo sexo podem se amar não deveria ser, assim, tão difícil. Além disso, já leu detalhadamente a Bíblia? Já tentou explicar a série de restrições existentes naquele livro aos seus filhos?

A sociedade se modificou e continua se modificando. Por exemplo, o conceito de família não é mais o patriarcal (Marido, esposa e filhos), mas apresenta novos arranjos: as mães solteiras, as avós e as tias que criam os netos e os sobrinhos, as crianças adotadas, os pais divorciados, os padrastos e as madrastas, os casais sem filhos e os casais homoafetivos. Até 1967 existiam leis proibindo o casamento entre negros e brancos nos Estados Unidos, hoje tal concepção de lei é inconcebível no nosso entendimento.

“Mas a Bíblia diz...”

Desculpa, mas a Bíblia diz muita coisa, dá uma olhada e me diz realmente se seguimos tudo que o livrinho sagrado nos diz..

O maior ensinamento que a Bíblia deixou foi o respeito a diversidade, ou pelo menos foi isso que aprendi nas minhas aulas de catequese. Jesus andava com os maiores “pecadores” de sua época: mendigos, beberrões e prostitutas. Ele pregava o amor e o respeito, não a intolerância gratuita aquem discordasse dele.

O comercial d’O Boticário vem nesse sentido, de mostrar que “Toda Forma de Amor” é válida. O comercial d’o Boticário só pontua uma sociedade dinâmica que já mudou e apresenta novas configurações. Além disso, ao colocar todos os tipos de casais, e lembrando que casal é a união de duas pessoas, a empresa mostra estar atenta as mudanças na sociedade.

“Se meu filho ver isso ele vai virar gay…”

Se isso fosse verdade não existiriam gays no mundo. Meus pais são heterossexuais e só tive modelos heterossexuais em minha vida, nessa lógica eu deveria ser heterossexual também, porém, não sou. :D

Mostrar um gay ou uma lésbica não fará seu filho virar homossexual, apenas mostrará que existem mais cores no mundo que apenas o rosa e o azul, e que essas cores também merecem respeito. E se, e grande ênfase nesse “e se”, um dia seu filho vier a gostar de outra cor que não o rosa, que ele possua referências de que continuará a ser amado e respeitado como qualquer outro ser humano merece ser.

O comercial d’O Boticário não é apenas uma propaganda de dia de namorados, mas um chamado ao debate a repeito da tolerância e do respeito para com o próximo. Afinal, como já dizia um certo comercial por ai: Ser diferente é normal!

obs 1: Entendo as críticas no sentido de que esse é um comercial que reforça a ideia de um casal heteronormativo (branco de classe média), porém, não posso ignorar que o comercial traz visibilidade a uma discussão que a cada dia está sendo cada vez mais censurada (só lembrarmos do boicote realizado contra a novela Babilônia que exibiu um beijo lésbico em seu primeiro capítulo).