réquiem de uma existência encapsulada

Hoje novamente nós brigamos. Mas não existe em mim nem mesmo força para afirmar que houve briga. O que houve foi uma sucessão de amarguras e reclamações e escusas. Uma forte vontade de vomitar bile negra. A falta de esperança acima de tudo. Representarei a desesperança como uma figura alta, magra e com justa roupa negra cadavérica e gélida. Essa figura me conduz pela mão, através de longuíssimos corredores de um mausoléu, estamos procurando uma gaveta para que eu possa passar a noite. Ou talvez o resto de meu tempo enquanto ainda existo! Está frio! Tanto lá fora quanto aqui dentro. Mas existe um conforto em ser conduzido pela desesperança. Existe uma oportunidade de mudança!
Sinceramente não sei. Vejo-me completamente perdido. Completamente. Por que simplesmente não tenho para onde ir, não tenho opções, soluções. Não podemos se separar agora, você sabe disso! A casa nem ficou pronta! Não quero planejar seu destino antes de ao menos ter ido ali viver! É claro que não tenho a mínima expectativa a respeito dessa nova fase. Não acho que uma casa irá trazer grandes diferenças para um relacionamento que já está assumidamente cáustico, deteriorado e violentíssimo. E sabe, cada vez que a violência toma forma (um objeto arremessado em mim, observado pela nossa filha, no seu colo), tanto meu olhar quanto o dela não compreendem seu ato. Mas o meu olhar acusa algo mais. Acusa um ferimento, uma promessa quebrada. Uma dor aguda no coração.
Podia sugerir de vivermos separados na mesma casa, mas agora com a possibilidade de dois andares para isso. Um fica em baixo o outro em cima. Que tal? Não né. Não sei. No momento nem mesmo isso soa bem. A única solução fora o fim da existência, seria eu receber uma grandessíssima quantia de dinheiro. Daquele dinheiro lá. Mas teria que ser mais de cem mil reais limpos. Pelo menos duzentos mil reais. Duzentos mil limpos na minha mão, e eu juro. Eu saia amanhã de casa, com fraternidade no coração e esperança de que nossa filha poderá ter uma infância menos horrenda. 
Só que isso é ilusão não é mesmo, minha esposa? Afinal, não tenho duzentos mil. Tudo que tenho é uma dívida de 10 anos. Novecentos reais por dez anos. No que fui me meter!? Quão longe vai o anseio do homem não é mesmo, esposa? Conforme ando nesse longo corredor iluminado por poucas velas e tochas, percebo o chão arenoso, gelado, as gavetas seladas por um concreto antigo, medieval. Os passos da desesperança são silenciosos, ela vez ou outra olha para mim, pelo ombro esquerdo. Seu rosto inexpressivo e mortificado me faz lembrar de quando eu ainda tinha medo da vida, das coisas da vida. Hoje em dia padeço de falta de emoções. A única emoção que nunca para, que é forte. É a dor do mundo. A dor do mundo é constante, séria e sincera. E eu só não choro essa dor por que seria injusto, diante de estar vivendo em um sincero inferno pessoal relacional, eu apenas chorar a dor do mundo, e não a dor do Thomas. Por isso, me calo e não choro nenhuma das dores. Espero que o banho dessa noite me ajude um pouco. Por que não sei aonde irei parar com tamanha dor.