A Máscara de Gás

Depois de pesquisar algumas informações sobre viajar pegando carona na Europa, resolvi que era hora de tentar. Além de ser o meio mais barato de ir de um lugar para o outro dependendo da distância, é também uma oportunidade para ter boas conversas com pessoas aleatórias.

Estava me lançando de Berlim a Amsterdam, e um pouco mais de 650 km separavam os dois. Talvez tenha sido um teco ambicioso pra uma primeira vez, mas resolvi apertar o botão do f*da-se. Li umas intruções em um site complétíssimo e inteiramente dedicado a gente que pega carona por aí para entender como, onde e quando estender o dedão, e parti.

Chegando no ponto, encontrei uma pessoa que já estava esperando. Jamais imaginei que pudesse ter algum tipo de fila nessas horas. Agente bateu um papo, e ele me contou que era alemão e que viajou por 11 meses pela Nova Zelândia só pegando carona.

Nem 10 minutos se passaram que um carro já atendeu ao pedido do poderoso dedão. Era pequeno, enferrujado, e verde. Era dirigido por um metaleiro alemão e sua namorada, que aceitaram levar agente até metade do caminho entre Berlim e Amsterdam, na entrada da cidade de Hannover. Fomos ouvindo Angra no caminho e foi irado ouvir um metaleiro gringo elogiando uma banda de metal brasileira.

Por Hannover nos separamos, e fui até outro posto de gasolina para pedir carona e chegar até Amsterdam. O sol já estava se pondo. Passaram-se 30 minutos, e nada acontecia. Saquei um guarda-chuva vermelho que tinha encontrado uns dias atrás longe daqui, e abri, pra ver se chamava mais atenção. Foi batata. Um polonês parou logo em seguida e falou que estava indo para Rotterdam. Olhei no mapa, e Rotterdam não parecia ser longe de Amsterdam. Não estava afim de passar a noite na barraca (que tinha recuperado num festival depois de alguém abandonar a coitada) e praticamente no meio do nada, então decidi aceitar a carona. Até porque minha panóplia de equipamentos pra acampar consistia em uma barraca, e só. Nem um colchãozinho mirrado eu tinha.

Conversa vai, conversa vem, ele me conta que está largando tudo na Polônia do dia pra noite para ir trabalhar na Holanda porque a situação está muito ruim por lá. E aparentemente, muita gente faz isso. Chegamos em Rotterdam quase meia noite. Desci do carro perto de onde ele ia se morar, agradeci e me despedi.

Não fazia a minima idéia de onde estava. O plano era achar uma florestinha, montar a barraca pra dormir algumas horas antes de seguir em frente. Anda pra cá, anda pra lá, avistei um mato e resolvi que era lá mesmo que ia montar o glorioso acampamento. Só precisava atravessar uma rua. E que na verdade, era uma espécie de córrego camuflado com plantinhas bonitinhas supimpas e suaves. Quase mergulhei na maior fé com mochila e tudo.

O tal córrego. De noite, isso e uma rua asfaltada da na mesma.

Dei mais algumas voltas pelo bairro, e encontrei um novo matinho. Porém, impossível de montar a barraca. Estava tudo úmido e meio molhado, inclusive a própria barraca.

Bom, devia estar uns 15ºC, ventando, de noite, numa cidade e país que não conhecia, sem ter onde dormir, nenhuma alma viva na rua, e só estava vestido com um casaco moletom por cima de camiseta, calça, tênis e cachecol. Estava com muito sono, então resolvi dormir num banco mesmo. Acordei com o frio depois de sei lá quanto tempo e resolvi que era hora de se mexer. Achei um ponto de ônibus, e chequei um mapa das linhas de transporte com horários e etc. Estava tudo fechado. Ah, não da nada, só andar até o centro da cidade e tentar achar um lugar pra ficar por lá.

Mas ô vento gélido. A cada passo essa desgraça ignorava o cachecol e entrava por debaixo do moletom congelando tudo. Nessas horas, você só tem uma prioridade e é fazer de tudo pra se esquentar. Dei uma ajeitada no cachecol, e saquei o objeto mais útil que tinha na mochila, um objeto essencial para a sobrevivência, que todos os viajantes de plantão deveriam ter. Uma máscara de gás.

Segundo o feirante que me vendeu ela em Berlim, a máscara fez parte de uma produção em massa para a Segunda Guerra Mundial. Sei não. Mas não importava. Foi a compra mais barata, compulsiva e inútil da viagem. Até agora pelo menos. Vesti a máscara, e por incrível que pareça me esquentou maravilhosamente bem! (embora tenha ficado pensando que definitivamente iria ser um calor infernal se fosse um soldado num campo de batalha). Saquei o guarda-chuva apontado pra frente pro vento não bater direto em mim, e fui andando em direção ao centro da cidade.

A cena estava super suspeita. E aí vai que aparece uns policiais, o que eu ia falar? Que não era da região, não falava holandês, não tinha endereço fixo e estava usando uma máscara de gás pra me esquentar? Resolvi tirar depois de meia hora. Mas que eu estava mais quente, isso eu estava.

Porém, o sono continuava. Alternava períodos de sonecas sentado em bancos, acordar com frio,e se esquentar andando . Ô centrinho longe. E foi assim até que do nada, durante uma soneca, brotou uma indonesiana que devia ter seus 50 anos, muito doida de drógas, álcool, ou da vida mesmo. Ela sentou do meu lado e me cutucou. Mesmo mal sabendo falar inglês direito, ela me disse que se chamava Cláudia e conversamos por volta de uma hora sobre a vida, conexões humanas, e o cigarro bizarro que ela estava fumando. E no fim das contas, ela ofereceu o sofá da casa dela para dormir porque eu lembrava o filho dela. YAY!

Quase transbordei de felicidade. Fiquei num estado de alerta leve no caminho para casa dela. Vai que, né, difícil saber as intenções das pessoas. Mas não aconteceu nada. No apartamento, ela preparou um sandwich. Não estava nada bom (acho que ela usou um molho em conserva meio vencido), mas comi até a última migalha do mesmo jeito. Dormi no quente. Estava feliz da vida.

No dia seguinte, me despedi de Cláudia, ela me deu o número de telefone dela caso precisasse de alguma coisa, dei um mega abraço, e atravessei a cidade de Rotterdam até a estação de trem central, para continuar em direção a Amsterdam.

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