Uma tósse na névoa

Acordei em uma das melhores camas da vida, num albergue que cheirava a cabra no Distrito dos Lagos, Noroeste da Inglaterra. É um lugar relativamente isolado, onde você encontra pequenos vilarejos que te lembram filmes medievais, muretinhas de pedra, e lagos em meio a colinas e montanhas.

A mais alta se chama Scafell Pyke e domina o Distrito dos Lagos com seus 978 metros de altura. Pequena curiosidade, se o Pico do Cuscuzeiro em Analândia-SP tivesse na Inglaterra, ocuparia a 3a posição entre os picos mais altos do país.

Estava cheio de disposição e logo pulei da cama. Comi aquele café-da-manhã tradicional fitness com tomate, cogumelo, batata, ovo mexido, bacon, salsicha e uns feijões doidos, e fui seguindo uma estrada sem saber onde estava indo. Olhando para um lado e para o outro, decidi que iria seguir a primeira trilha que aparecesse na minha frente e parecesse ir pra um lugar legal. Se ficasse difícil ou preocupante, era só voltar. Uma trilha brotou, e fui subindo. O tempo não estava lá essas coisas.

Ignorando completamente a garoa que começou logo em seguida, continuei subindo, ouvindo música celta pra entrar no clima e deixar uma criança dentro de mim muito feliz. A trilha deu lugar a uma escada de pedra, que ia serpenteando preguiçosamente montanha acima. Uma névoa começou a se formar.

Não faço a mínima idéia de quanto tempo se passou. A escada que era larga foi ficando cada vez mais estreita e íngrime. Uma névoa macabra começou a se formar. De meias e tênis molhados, continuava subindo. Chegou num ponto que não se ouvia mais som algum, só a música e o vento. Depois de passar por um trecho com rochas pontudas e pretas que beirava à escalada, a escada se transformou numa trilha plana e o vento ficou mais forte. Assumi que estava chegando num platô ou no topo de seja lá onde estava. Mas não deveria estar muito alto de qualquer forma.

Andei mais uns 100 metros passando por gramas altas, poças de água e mais rochas pontudas.

De repente, o vento parou.

A chuva enfraqueceu.

A temperatura abaixou, e a névoa se espessou.

Pronto, é agora que aparece um dementador. Ensopado da cabeça aos pés, dei uma pausa na música discrepantemente feliz que estava tocando, e parei por alguns segundos só pra ver o que ia fazer. E dos cafundós do nevoeiro, ouço um barulho. Parecia estar distante. Não sabendo se era só coisa da minha imaginação, fiquei imóvel.

De novo. Era grave. Estava vindo de algum lugar à esquerda da trilha. Prometendo pra mim mesmo que não iria muito longe, saí do caminho e fui em direção à onde o barulho parecia estar vindo. A névoa não me deixava ver muito à frente. Comecei a ficar meio tenso, mas a curiosidade não me deixava voltar atrás.

Passaram-se alguns segundos, e ouvi de novo. Agora mais claro. E dessa vez, tinha certeza de que o que estava ouvindo era uma tosse. Mas uma tosse diferente do normal. Rouca. Mais gutural e sofrida. Alguém precisando de ajuda talvez? Ou um fotógrafo roots gripado acampando e esperando fotografar um animal incrível só encontrado naquele região naquele momento? Deixei a tensão de lado e acelerei o ritmo. Estava decidido a descobrir quem estava tossindo.

Pouco a pouco duas formas começaram a se desenhar. Uma de frente pra outra. Apressei o passo. Estava quase correndo, doido pra desvendar o mistério que a névoa tinha criado na minha mente eeee…….HA!……AH?

…Ah. Duas ovelhas. Dei de cara com duas ovelhas. Viraram a cabeça lentamente. Nos encaramos por alguns segundos. Viraram as costas na mesma velocidade que viraram a cabeça, e foram embora pulando entre os montinhos de grama. Humano tolo.

Essas daí são do dia seguinte, mas foi o mesmo olhar insolente que recebi das outras.

Não faço a mínima idéia se tinham outras pessoas nesse momento andando pelo arredores. Mas se tinham, elas devem ter ouvido uma baita de uma risada. Uma risada de alguém que nunca imaginou que ovelhas pudessem tossir. Quer dizer, olhando pra trás é óbvio que eu deveria ter considerado a possibilidade de ovelhas serem capazes de produzir algum tipo de tosse. Mas sei lá, não é um pensamento que você cultiva diariamente. É que nem bode subindo em árvore. É algo que você fica se perguntando se é possível? Não, e bode sobe em todo lugar, porque não em árvore também? Pra algumas pessoas isso é óbvio, pra outras nem tanto. E ainda tem aquela expressão, ‘’mas nem que a vaca tussa’’. Ovelhas e vacas não são parentes muito distantes, são? E se agente divide 50% do nosso DNA com uma banana, a vaca tem que ser uma prima absurdamente próxima da ovelha. Elas poderiam compartilhar a inabilidade genética de tossir, certo? A diferença entre bovinos e ovinos é só uma mísera letra poxa.

Depois desse momento de reflexão, resolvi que era hora de voltar. Fui embora pelo mesmo caminho que subi. Era só uma pessoa mais faminta e encharcada que estava regressando. Aquele trecho de quase-escalada pareceu muito menos acolhedor na descida. Me toquei que talvez, talvez, só talvez, estivesse inadequadamente equipado pro tipo de coisas que estava fazendo.

https://www.youtube.com/watch?v=BQTyozWyBgY

No final deu tudo certo e fui descendo cantarolando e falando comigo mesmo. Chegando no albergue, fui direto tomar uma ducha me esquentar, comer, e tirar uma bela soneca.

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