O que somos, o somos não por nós, mas por Ele

Todo pensar é uma manifestação do homem interior. Nem todo ato manifesta o homem interior, mas, o ato feito é do homem e fruto do que ele é. Nem tudo que o homem é interiormente o manifesta exteriormente, mas, tudo que é exteriormente o é interiormente. A vida do homem segue além de suas próprias resoluções e não dependem absolutamente de sua vontade como senhora do destino. Se houvesse uma interdeterminação por parte do homem sobre o que ele quer e é este fato demonstraria a inerente capacidade do homem em ser senhor de si, pelo fato de caber a ele todas as determinações relacionadas a todas as esferas da vida e de seu futuro e seu presente. Esse fato remete e pontua o que devemos saber sobre o homem. De fato o saber sobre o homem tem uma perspectiva dupla, Calvino diz em suas Institutas que não sabe ao certo se é o conhecimento do homem que o faz conhecer então a Deus ou o contrário. O ponto aqui é que, de forma alguma Calvino está defendendo a autonomia da razão ou da vontade. O fato é que por quais vias esse conhecimento é alcançado, por qualquer que seja, fato é que a origem deste conhecimento não é no próprio coração do homem, mas, em Deus.

Isso é interessante para uma reflexão ainda que esparsa e nem tanto cabível para se chamar de antropologia filosófica. De fato o que somos o somos primeiro para Deus e não para outro (Gn 1.26), mas, antes de sermos para o outro, somos para nós mesmos, e antes de sermos para nós mesmos e acima de nós mesmos e mais profundamente do que nossa análise de nós mesmos, somos aquilo que Deus vê em nós. Logo, o que somos, somos de fato. Ainda que não tenhamos verdadeiramente uma consciência redimida pelo Filho de Deus, o somos ainda sim. A redenção nos mostra claramente o que somos e nossa necessidade, a redenção desvenda para nós o que o espelho natural não mostra. O Filho nos mostra ao salvar-nos e remir-nos quem nós somos e aí está nossa conversão feita por Ele. Ele nos move em outra direção e quando seguimos nesta, já não somos mais como éramos, ou seja, somos o que éramos, mas não da mesma forma que éramos, porque por sabermos quem nós somos agora, não em nós mesmos, mas, no Filho, somos outros, somos filhos adotivos, somos salvos.

Isso nos mostra que somos o que éramos, porque ainda somos pecadores, mas, não somos o que éramos porque dantes, pecadores perdidos, não somos mais, agora pecadores remidos.

Então o que somos em Cristo, o somos, não por nós, mas, por Cristo. O fato de Cristo ser para nós quem é, nos torna um com Ele. Como seu corpo, nossa união mística. Nessa união, temos a mente de Cristo (1 Co 2.6), somos, agora, ovelhas do seu pastoreio, família de Deus e filhos de Deus (Jo 1.12), isso dado aos que creem no seu Nome.

O que somos como filhos somos pelo Filho, que sendo Filho eternamente e na eterna aliança da redenção nos fez filhos antes da fundação do mundo.

A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém.

1 Pedro 5:11