Minhas Músicas de 2016 (O Ano do Hip-Hop)

Se eu fosse um personagem de David Foster Wallace e gêneros musicais fossem grandes corporações, 2016 teria sido “O Ano do Hip-Hop”. Nesse ano eu mergulhei de cabeça no gênero musical do qual, até muito recentemente, eu mantivera uma distância respeitosa. No fim do ano passado, cheguei na borda, testei a temperatura da água e vi que era agradável. Só assim perdi o medo. Tomei distância, puxei o fôlego, corri e pulei, mesmo não sabendo nadar.

Suponho que os nossos gostos vão se transformando ao longo da vida. Em momentos diferentes, a rede de afetos, desejos e razões que nos envolve é diferente, o que faz com que nos conectemos diferentemente com o mundo. Se eu voltar para as minhas músicas de 2012, 2013, e 2015 (2014 eu não fiz lista), vou encontrar mais rock e jazz mediados pelos blues nos primeiros dois anos, enquanto ano passado ouvi muita música brasileira. Assim como um poeta que lemos muito na juventude depois não nos diz muito mais que o vocabulário da nostalgia também em nossa vida ouvida as vibrações nesse caso literalmente que se modulam perpetuamente produzem encontros felizes seguidos de separações insondáveis e das quais não se pode voluntariamente retornar.

Dito isso 2016 enfim foi o ano do rap e do hip-hop, de aprender a diferença se há entre as duas coisas, de aprender o que é um MC um beatmaker um DJ, saber quem rima quem voa quem é rei. Foi ano de aprender a diferenciar A$AP Rocky de Aesop Rock; o beatmaker Oddissee do coletivo Odd Future e do rapper Future; Kool Keith de Kool Herc; Tyler the Creator de Chance the Rapper; Ghostface Killah de Killer Mike e Killer Mike de Open Mike Eagle; RZA de RZO; Ice Cube de Ice-T de Vanilla Ice (brincadeira!!!!!). Foi o ano de rezar com fervor apaixonado as contas de Ks do rosário negro da América: Kanye, Kendrick, Kamasí, Kamaiyah, King Krule, OutKast, Lil’ Kim, Raekwon, Talib Kweli

Minha exploração submarina ainda não se afastou muito da superfície. Mal comecei a ouvir os primórdios do hip-hop, salvo umas poucas exceções (como Public Enemy e Fugees) e a excelente série da Netflix sobre o nascimento do gênero: The Get Down. O que provavelmente significa que 2017 também será um Ano do Hip-Hop para mim.

ÀS MÚSICAS

Com o perdão do esquematismo tosco, vejo Kanye West e Kendrick Lamar como as duas válvulas do coração do hip-hop hoje. Enquanto um é a face do DJ-produtor, maestro de samples e sonoridades, o outro é a face do MC-poeta — e ninguém rima e canta rap como Kendrick. Eles foram os dois artistas que eu mais ouvi esse ano, de longe. Depois deles, vêm um representante do rap alternativo e um da nova geração do hip-hop pop: os estilos de Aesop Rock e Chance the Rapper — completamente diferentes um do outro — também me pegaram de jeito. Para finalizar o quinteto, um representante brasileiro: o álbum póstumo do Sabotage finalmente foi lançado, e que álbum.

O álbum da Solange também me pegou de surpresa, e é facinho um dos melhores do ano. Pra melhorar, os clipes que ela lançou de algumas músicas do disco têm uma estética fascinante, uma mistura de afro- com retro-futurismo que parecem intuir um destino ao mesmo tempo utópico e catastrófico. Outro brasileiro, que mistura rap com funk e música pop, é o paulistano Rico Dalasam, cujas músicas grudentas eu ouvi muito. Para continuar no Brasil, o álbum do Liniker finalmente foi lançado, mostrando o alcance do cantor, uma mistura de Tim Maia com Ney Matogrosso. E o disco da Elza, embora seja do ano passado, marcou muito o primeiro semestre, especialmente devido à oportunidade de ver ao vivo o fantástico show que ela está apresentando com sua banda.

No domínio dos drones, dos graves e do groove, ouvi um tanto de música eletrônica também, o que pode ou não incluir o álbum da ANOHNI, mas com certeza inclui o do igualmente nomeado em caixa alta KAYTRANADA, além do nórdico divertido Todd Terje.

Para terminar, enfim, com uma nota elegíaca: You Want It Darker, álbum e canção de Leonard Cohen, morto um mês depois do lançamento. Igualmente elegíaca foi a interpretação de Patti Smith de A Hard Rain’s A-Gonna Fall na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel, que menciono como uma espécie de síntese do ano político social espiritual que foi 2016. A ver o que o futuro nos reserva.

A LISTA

Linkadas aqui as que têm clipe. Abaixo, a lista pra ouvir todas elas.

Kanye West — Lost In The World

Kendrick Lamar — untitled 6 06.30.2014

Chance the Rapper — All Night

Aesop Rock — Blood Sandwich

Sabotage — Canão Foi Tão Bom

Solange — Don’t Touch My Hair

Rico Dalasam — Milimili

Liniker e os Caramelows — Zero

Elza Soares — A Mulher do Fim do Mundo

KAYTRANADA — LITE SPOTS

ANOHNI — 4 DEGREES

Todd Terje — Inspector Norse

Leonard Cohen — You Want It Darker

Menção honrosa: A Hard Rain’s A-Gonna Fall, cantada por Patti Smith na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel, que outorgou a Bob Dylan o de Literatura.

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