Da crase à crise

Este texto não é sobre regras gramaticais ou ortográficas. Não é meu objetivo dissertar sobre o uso correto da língua portuguesa, colocar as crases nos as ou sequer pôr os pingos nos is. Este texto é sobre pequenas coisas que podem ser reflexo de algo muito maior.

Dentre as várias regrinhas de nosso idioma, existe uma que tem assombrado grande parte das pessoas há muito tempo. O uso da crase, apesar de não chegar nem perto de ser um dos mais complexos da língua portuguesa, ganhou status de bicho-papão, amedrontando estudantes ao longo de todas as suas vidas acadêmicas, assombrando notas atribuídas a redações Brasil afora e plantando dúvidas na cabeças até de profissionais no mercado de trabalho.

Ao pensar sobre isso, um questionamento me veio à mente:

Será que as pessoas que usam crase regularmente são vistas como mais inteligentes pelas pessoas que não têm de forma muito clara em sua cabeça quais são as regras para tal?

Eu realmente não ficaria surpreso se a resposta for sim, e digo o porquê: não é difícil esbarrar por aí (ainda mais agora que textões estão em alta nas redes sociais) em sentenças com um problema que eu chamo de TOCC (Transtorno Obsessivo Compulsivo por Crase). São frases que, sem necessidade alguma, são acentuadas com o famigerado sinal. Pode ser que algum estudo ou pesquisa venha a me contrariar, mas o que me leva a ter uma certa inclinação a acreditar que a resposta para a minha pergunta é “sim”, é que reparo que o TOCC é muito mais comum que a crasemnésia, condição que leva a pessoa a esquecer a crase.

Isso explicaria portanto, um comportamento que prioriza o uso dela: na dúvida, um indivíduo que sofre de TOCC usa o acento, pois acredita que seu texto vai soar mais bonito, ou mais culto, já que ele demonstra saber empregar um elemento tão sombrio do vernáculo luso-brasileiro (acabei de fazer algo parecido ao enfeitar esta frase).

Por falar em lusos, está aí outro fator que eu acredito influenciar a questão. Como todos sabemos, a língua portuguesa não é daqui. Ela foi trazida de Portugal na época da colonização e blá, blá, blá. Pois bem, existe um aspecto bem evidente com relação à diferença com a qual os brasileiros e os portugueses tratam a língua portuguesa: nossos amigos lusitanos têm muito mais esmero pelo idioma. Acredito que isso se deva ao fato de que, para eles, a língua seja um fator muito importante que compõe a identidade coletiva do país, os portugueses são superprotecionistas em relação a ela (tanto que torcem o nariz para escrever conforme a reforma ortográfica, como acabei de fazer). Um exemplo disso é a preferência por parte dos portugueses (até por meio de legislações) a dar nomes de origem nacional a seus recém-nascidos, por isso tantos Manoéis, Joões e Ricardos por lá. Isso mantém uma identidade. Já o Brasil, esta terra composta pela mistura de tantos povos, não possui todo este apego a uma só identidade, já que nem a língua que falamos é de fato nossa, daí tantos Wellingtons, Washingtons e Maicons. Essa falta de apego do brasileiro médio pelo idioma se reflete por aqui também no uso da crase.

Arrisco dizer que tudo isso levou a uma elitização da crase no Brasil. Você a usa, automaticamente parece mais culto, o que sugere que você teve acesso a educação de mais qualidade, o que subentende que você tem mais dinheiro do que a maioria. E é agora que chego na crise. Não a crise econômica atual pela qual passamos, mas a crise social que há tempos se instalou aqui: a da desigualdade.

Então vamos lá: o brasilleiro não tem tanto apego à língua portuguesa, o que tem como consequência o fato de que mesmo quem tem melhores condições financeiras e acesso ao ensino particular possa não saber como usar uma simples crase. As classes mais baixas veem o exemplo e o copiam, afinal, pessoas tão estudadas devem estar certas. O ciclo se repete.

Ou seja, é algo tão profundo que a simples colocação de uma crase sobre uma letra pode ser símbolo de domínio e de poder. Calma, calma, revolucionários de plantão. Não estou dizendo que quem usa umas crases a mais é burguês opressor capitalista e que isto é o tipo de coisa que corrói a sociedade. Estou dizendo que as pessoas fazem esse tipo de coisa inconscientemente, sem nem parar para refletir, e aí quem está mais embaixo olha o exemplo de cima e replica, porque, claro, quem está embaixo, quer subir.

Não quero chegar a nenhuma verdade absoluta com essa argumentação, apenas quero vasculhar debaixo de algumas pedras, perturbar algumas cabeças, provocar novas reflexões. É o que eu disse lá em cima, um efeito borboleta reverso: pequenas coisas podem ser resultado de algo muito maior.