Ainda bem que não sou mais criança.

Metrô. Dois homens reclamam do alto custo de vida e da violência no Rio de Janeiro. Trajam roupas leves, chinelam e cada um carrega sua mochila.

Adentraram a composição na estação Pavuna, em direção ao terminal Botafogo. Durante a viagem, dividem um saco de pipoca doce industrializada enquanto zombam de um gringo e da locução automática no metrô. Em meio a conversa sobre a violência na cidade, um deles expressa sua opinião: “Devia ter outra chacina, igual a da Candelária. Esses menor tão sem controle! A Rosângela diz isso também. Por ela, passava o rodo nessas sementinha do mal toda”. O outro, dá coro.

Vila da Penha, Zona Norte. O filho de um comerciante local expressa opinião similar sobre o assunto na internet. Um garoto culto, estudado. Sua realidade porém, não condiz com a da região. O pai, português dono de uma rede de lojas de mobília, sempre lhe deu boas condições de vida. Pagou os melhores colégios da região. Andam em carro de luxo e moram em uma casa que foge ao padrão do bairro. Tinham condições de viver em uma região mais nobre, porém prefere ficar perto de seu trabalho.

Laranjeiras, Zona Sul, minha mesa de trabalho. Eu, depois de ouvir a conversa no metrô, fico com o assunto martelando a cabeça. Pouco após o almoço, vejo no feed de notícias do Facebook o mesmo discurso. Opinião, todos temos e devemos respeitar a do próximo, não importa o quão distinta. Mas não consigo acreditar o quão comum é esse pensamento que, ao meu julgamento, é tão baixo e severo.

Todo mundo quer matar crianças.



Eu só quero bater minha cabeça no teclado.