A falácia da ilusão da meritocracia

Uns dias atrás eu vi na Internet um cartoon destruindo a minha noção de meritocracia. Esse cartoon ficou vários dias aparecendo nas redes sociais, e fiquei um tempo incomodado, achando que o autor poderia realmente estar certo: a meritocracia é uma ilusão.

Um bom tempo depois, vi o mesmo cartoon circulando de novo, e pensei mais a respeito, e concluí que o autor está errado, redondamente enganado. Ele cometeu um erro sutil, mas suficiente para derrubar seu argumento central.

Imagine 5 garotos comuns, moradores de um bairro de periferia de uma cidadezinha qualquer do interior do Brasil, com perfil socioeconômico similar, com padrão familiar parecido, que estudam na mesma turma, na mesma escola.

O aluno 1 é esforçado. Ele vê a situação familiar, e quer um futuro diferente daquela vida de seus pais. Ele estuda para aprender, porque entendeu que o conhecimento é a sua passagem para o andar de cima. Costuma frequentar a biblioteca mesmo sem ter nenhum trabalho na agenda, e lê livros porque quer, não para ganhar nota.

O aluno 5 é o oposto. Ele vai na escola porque é obrigado. Não estuda nem o mínimo, cola em todas as provas possíveis e não é reprovado porque seus professores querem se livrar dele o quanto antes. Mata aulas, nunca lê nada, não faz esforço algum para aprender. Seu sonho é se formar logo e sair de vez da escola.

Os outros 3 alunos estão no meio desses. Alguns tiram 8, outros tiram 5, não reprovam nem se destacam. Estão sempre na média. Não são especialmente esforçados, nem decididamente preguiçosos. Não são destaque positivo nem negativo. São os alunos anônimos, que entram e saem da escola sem deixar marca.

Agora a pergunta cliché: como será o futuro desses garotos? Agora aumentaremos o escopo: não são só esses 5 alunos, mas cem mil conjuntos de alunos com essa característica. Qual seria o resultado?

É possível que o aluno 1 se mostre um fracasso. Pode ser que o 5 acabe se tornando um homem de sucesso. Claro que é possível. Mas em cem mil casos, qual seria o padrão esperado? É quase certo que aquele garoto esforçado vai se sair melhor do que os colegas, e o displicente vai se sair muito mal. Certo?

O que diferenciou o futuro deles? A mesma cidade, a mesma escola, o mesmo perfil familiar, mesma idade, mesmo país. Mas o comportamento entre eles era diferente. Um deles usava seu intelecto mais do que os demais. Usou sua força de vontade, colocou esforço próprio na sua formação, acumulou conhecimento, aprendeu o que pode e traçou um plano de vida. Não seria surpresa alguma ele se sair melhor do que seus pares.

E aqui entra o erro do autor do cartoon: generalização apressada.

Comparar um jovem de classe média-alta com um jovem pobre é uma comparação desonesta. A meritocracia não leva em conta pessoas com oportunidades tão discrepantes, mas pessoas com oportunidades próximas. A comparação do autor é tão justa como comparar o futuro de uma garota chinesa com uma cubana. Ambas são garotas, ambas vivem em países socialistas, mas as oportunidades disponíveis são completamente diferentes.

A meritocracia entra em ação em grupos similares. Na maior parte das vezes, quem se esforça mais em um determinado grupo se sai melhor do que os demais. Mesmo que um grupo seja de crianças órfãs em uma favela do Rio e o outro seja de filhos da classe média de uma escola particular qualquer.

É assim que as coisas são. Não existe igualdade de resultado sem que haja injustiça. Não existe justiça sem desigualdade, exatamente porque os indivíduos se comportam de forma diferente e o resultado será diferente.

Esforços similares em grupos similares produzem resultados similares. Esforços distintos no mesmo grupo obviamente produzem resultados distintos. Quem nega esse fato precisa trazer fatos que confirmem sua teoria.

E continuo achando que a meritocracia não é uma ilusão, e o cartoon é tendencioso.