Noite

Três,
Quatro,
Cinco,
Seis da manhã,
A minha carne sente o tempo a passar,
A fugir-me por de entre os dedos.
Expiro, sinto o sopro por de entre os lábios,
Um sopro que leva e carrega subtilmente,
Mas com elevada densidade,
Parte das inquietudes de uma alma dormente.
 
Ó noites! Para que vos quero?
Apenas para que com mais força cravarem pregos no meu peito?
Não vos quero!
Apenas para nelas lentamente remoer e erodir a razão?
Não vos quero!
É a inquietude na sua essência, 
É a maldade sem benevolência.
É a tristeza sem razão,
É tão forte a exaltação,
Que não vos quero. 
 
Não quero nada disto.
Nem leito nem sono,
Céus! — Para isto não foi feito patrono -
Para quê, se ao longe consigo ouvir 
A melodia de um novo dia a nascer.
Pois é o novo dia que nasce para os que o querem,
Dito e feito: será ele moldado por vontades,
E feita a história por meio dos capazes.
 
Pois esquecida fica a noite dos pensadores,
Que por mais que pensem e repensem 
Apenas alcançam a sua própria sombra.
Sim, esquecida. 
Feita do luar.
É pois no novo dia que aspiro fazer e acontecer,
Algo que contrarie a opulência das sombras desta noite.
 
Nada como a certeza da luz do novo dia,
E do sol nascente,
Para saborear a cura da melancolia
E despertar a força de alma latente.