Oportunidade, resistência, resiliência: enegrecendo a tecnologia

Por Biamichelle Miranda

Em abril, a ThoughtWorks Brasil realizará um Recrutamento Expresso em busca de pessoas desenvolvedoras de software negras — como resposta ao seu cotidiano impactado pelo racismo ainda velado no mercado de trabalho.

Para mim, uma mulher preta tecnologista, ver um evento como esse acontecendo é muito impactante. Estamos dando oportunidade a pessoas negras, que representam 54% da população brasileira, mas que não estão representadas com justiça na área da tecnologia. Porque sim, se você quer enegrecer a empresa, você precisa dar oportunidade! Não é mi mi mi, é o certo a se fazer. É reparar um dano histórico causado por quase 400 anos de escravidão que persistem em nos empurrar para as margens.

Mas o problema não acaba quando a oportunidade é dada. Nós, pessoas negras, precisamos ter muita resistência e resiliência para mostrar que estamos onde deveríamos estar. Porque quando você é maioria fora do escritório, mas minoria dentro, você tem que provar, diariamente, que seu lugar é ali. Você tem que manter o nível sempre alto, porque se você falhar, a culpa recai sobre sua raça. É por isso que dar oportunidade é o primeiro passo, mas não basta. É preciso criar um ambiente saudável para receber pessoas negras, criar bases para que elas se sintam realmente parte do negócio — e não que estão ali para a empresa vender uma irreal diversidade.

Digo isso porque eu sinto na pele quanto isso é importante e essencial para nos desenvolvermos como profissionais. Me formei em sistema de informações na Universidade Federal Rural da Amazônia, mas desde aquela época sentia que meu lugar não era trabalhando como programadora — não porque eu não quisesse, mas porque até mesmo os professores focavam a atenção nos alunos homens.

Já que eu não podia trabalhar na tecnologia, decidi fazer mestrado para virar professora na área. Passei na USP e vim para São Paulo estudar, mas o custo de vida é muito alto e tive que me desdobrar para me manter: fui caixa, ajudante de Papai Noel, atendente de telemarketing. Como eu gostava muito da área e estudava isso, sempre continuei perto da comunidade tecnológica, e foi no Fórum Internacional do Software Livre (Fisl) de 2015 que conheci a Daniela Andrade, desenvolvedora da ThoughtWorks. Ela falou para eu enviar meu currículo e eu enviei — depois de tantos nãos que eu já tinha ouvido, a esperança era quase zero. Mas a empresa me chamou para participar do processo seletivo e passei. E foi na ThoughtWorks que encontrei um espaço saudável para desenvolver minhas habilidades técnicas, para aliar militância com trabalho, para advogar apaixonadamente por justiça econômica e social e buscar, cada dia mais, construir um ambiente onde todas as pessoas se sintam representadas e bem-vindas.

Porque dar oportunidade para pessoas negras é garantir o acesso de milhões de pessoas a aspectos essenciais da vida. Me permitiu, por exemplo, cuidar melhor da minha saúde, dos meus dentes, de mim mesma — em todos os sentidos. Sabemos que existe um abismo enorme e ele precisa ser reparado, a questão negra não pode sair da pauta. A luta por oportunidades e consequentes conquistas não é moda, é um fato e uma necessidade, é real. E ela precisa perdurar até que exista uma equidade — e nós não vamos parar até que isso aconteça, até chegarmos lá!

Para enegrecer e transformar a realidade da tecnologia, a ThoughtWorks vai realizar o Enegrecer Recrutamento Expresso, uma iniciativa construída por pessoas negras da empresa. Como eu disse, sabemos que isto não resolve a disparidade racial da área: queremos construir cada vez mais ações de oportunidade e desenvolvimento que construam caminhos para enegrecer a tecnologia.


Quer construir a diversidade racial da ThoughtWorks com a gente? Saiba mais sobre a campanha Enegrecer a Tecnologia e inscreva-se no nosso Recrutamento Expresso: https://www.thoughtworks.com/enegrecer