Sobre cotas e meritocracia


A (longa) história de como eu mudei de opinião por causa de um punhado de regras de três.



Faz bastante tempo que eu quero falar sobre cotas em universidades públicas, mas não tinha como publicar nada perto das eleições sem provocar uma guerra com amigos, colegas e familiares. Por isso mesmo, vou postar aqui minha opinião e vou ignorar/apagar comentários cujos argumentos envolvam PT, PSDB, Dilma e Aécio, ok? Isso não é uma discussão sobre a disputa eleitoral. E me reservo o direito de apagar também qualquer coisa que eu julgar que não deve estar aqui. Sem mimimi, por favor. E se você sentir vontade de me xingar, volta pro feed do Facebook que deve ter algum cachorrinho ou bebê na sua timeline pra te impedir de passar um papelão em público. Bom senso, por favor.

Acho que é a Winston Churchill que se atribui a frase: “Quem nunca foi comunista até os 20 anos, não tem coração, quem continua até depois os 30 anos, não tem cérebro”.

Pois bem.

Lá na adolescência eu tinha vários amigos punks. Ser punk na época, embora pra uns e outros até envolvesse conhecer as intenções políticas por trás das letras de músicas e das bandas de que a gente gostava, era muito mais uma questão de ondinha mesmo. E eu não estou criticando, é tão natural quanto a ondinha dos emos, dos coloridos, dos pimps, da cultura geek, do rolezinho. Uma ondinha traz mais conteúdo ou discussões produtivas que a outra, mas sempre tá rolando alguma. O fato é que, por mais que tenha simpatizado com os ideais comunistas, socialistas ou anarquistas, sempre achei que esse negócio só podia “dar ruim”.

Afinal, qual é o incentivo à evolução sem meritocracia? Eu sempre enchi a boca pra falar de como achava justo que, determinadas as “regras do jogo”, cada um era responsável pela seu caminho. E isso porque eu tinha em casa o maior exemplo de esforço bem sucedido que eu já conheci na vida. Meu pai nasceu numa cidade no sertão da Bahia e, assim como quase todos os seus muitos irmãos, veio pra São Paulo sem concluir o ensino fundamental para tentar uma condição melhor de vida. E meu pai deu absurdamente certo. Construiu uma carreira exemplar a base de muito suor e concluiu os seus estudos já pai de 5 filhos. E como eu sou o mais velho, sou o que mais assistiu dessa história. Eu nasci numa casa humilde na Penha e aos 18, morava na Granja Viana. Eu sempre estudei nos melhores colégios a que tínhamos acesso, entrei com 17 anos na Unicamp, depois estudei na UFSC, na Udesc e na USP, todas públicas.

A grande chave da história toda — é longa, eu sei, mas eu estou chegando lá — é que o principal motivo pelo qual eu defendia a meritocracia com um fervor que beirava o ódio demonstrado nessas últimas campanhas era o ambiente em que eu vivia. Convivendo com a ponta da pirâmide social, eu via boa parte dos meus colegas sem o mínimo de noção de trabalho e esforço. E vi boa parte desses mesmos colegas se tornarem adolescentes e adultos extremamente recompensados com bens, cargos e patrimônios provenientes exclusivamente de suas conexões familiares. Que mérito tinham aqueles imprestáveis sugadores de herança que não trabalhariam na vida inteira o que meu pai trabalhava em um ano? E note que eu nunca tive essa nóia de vergonha de ser "filhinho de papai". Eu sempre tive muito orgulho pela trajetória dos meus pais e gratidão pela formação e conforto que eles me proporcionaram. Era tudo muito mais uma raiva de gente que não faz nada, sabe? Vagabundo mesmo, manja? Tem em todos os círculos, mas os bem nascidos tendem a se dar melhor.

E foi com a boca cheia dos princípios da tal da meritocracia que eu me tornei um ferrenho crítico das cotas sociais e raciais até 2006, ano em que eu assumi minha primeira turma como professor, em um cursinho comunitário dentro da UFSC. A universidade fervia com a discussão sobre cotas e foi marcada uma discussão com professores, alunos e convidados sobre o assunto (a UFSC foi uma das primeiras a adotar o sistema de cotas, em 2008, se não me falha a memória).

Eu nunca vou esquecer o quão confuso eu voltei pra casa aquele dia. E eu prometi pra mim mesmo que nunca mais iria fazer uma crítica a uma política voltada para minorias ou população de baixa renda a não ser que eu realmente pudesse apontar uma opção melhor que não fosse utópica.

Vamos aos fatos.

  1. Sabemos que a proporção entre brancos e negros entre a população do Brasil inteiro não é nem de perto ilustrada no "porcento" (1%) mais ricos do país. A elite intelectual e financeira do país tem uma “fatia” de negros muito menor, proporcionalmente, do que a “fatia” de negros da população total. Por isso, podemos concluir que a elite do país é desproporcionalmente branca, se comparada à população total.
  2. Sabemos que não temos vagas suficientes nas universidades públicas, então as vagas são majoritariamente ocupadas por estudantes provenientes da educação básica de elite.
  3. A educação básica de elite no país, salvo raríssimas exceções, não está ao alcance das classes D e E (desproporcionalmente negros), enquanto os pais das classes A e B (desproporcionalmente brancos) escolhem sempre entre as melhores escolas para seus filhos.

Ora, seria muita loucura pensar que num país igual para todos, desses em que se tem orgulho de viver, tivéssemos a mesma proporção racial entre pobres e ricos? Ou, num sonho ainda mais louco, variações com mais negros ou mais brancos de tempos em tempos, mas sem um desequilíbrio que gerasse desigualdade de condições. Imagina que absurdo? Um momento em que fosse natural assistirmos a uma notícia em que, no último biênio pela primeira vez há uma proporção maior de negros entre as classes A e B do que na população total. O grande lance é que, se pensarmos bem friamente à luz dos meus queridos números, isso tudo faz todo sentido probabilístico, numa situação de condição iguais para negros e brancos.

Vamos seguir essa linha de raciocínio.

  • O acesso ao topo da pirâmide social está relacionado a uma formação intelectual de elite.
  • A formação intelectual de elite é concluída nas melhores universidades do país.
  • As melhores universidades do país são frequentadas pelos estudantes da melhores escolas do país.
  • As melhores escolas do país são acessíveis, salvo raras excessões, apenas para o topo da pirâmide social.
  • O topo da pirâmide social é desproporcionalmente branco.

Entende onde quero chegar?

Antes que entre em discussão o argumento de que o certo seria investir na educação básica gratuita, para que a população de baixa renda (deproporcionalmente negra, por conclusão) tivesse condições justas de disputar por uma vaga nas melhores universidades. Isso é óbvio. Mas de quem seria a responsabilidade de promover isso tudo? Da população desproporcionalmente negra ou da população desproporcionalmente branca que integra majoritariamente a elite intelectual do país? E está dando certo?

Cadê a meritocracia quando me comparamos com mesmo peso com um jovem negro da classe D que trabalhava enquanto estudava em uma escola pública sem estrutura e passando por greves? Se um jovem negro desses ficou a poucos pontos de ser aprovado e eu fui o última da lista em algum dos meus vestibulares, eu sinto vergonha de lhe ter tirado a vaga. Ele com certeza merecia mais do que eu. Questão de meritocracia mesmo.

Não me parece tão louco assim que o estado intervenha para tentar tornar a elite intelectual do Brasil um retrato mais fiel das distribuições raciais do país. Mesmo que isso não seja a solução, pelo menos vai ser o sucesso ou fracasso de um grupo proporcionalmente justo entre as tais "raças" envolvidas.

http://youtu.be/8mSooDgAD-4

Pra ser bem didático, vou convidar você, que usa o discurso da "assistência a vagabundo" justificado pelos casos disseminados em redes sociais de pessoas que se aproveitam de recursos do bolsa-família para não trabalhar, a fazer mais um exercício envolvendo ordens de grandeza e proporcionalidade.

  1. Pense em quantas pessoas são beneficiadas pelo bolsa-família.
  2. Agora pense em quantos casos você ouviu falar (tudo bem, pode até pôr os boatos, os vídeos que parecem fake, soma tudo aí).
  3. Se dividirmos o número do segundo passo pelo número do primeiro passo, temos a proporção de vagabundos por beneficiados do bolsa-família.
  4. Pense agora em quantas pessoas você conhece das classes média alta pra cima. Pode ser só conhecido mesmo.
  5. Pense em quantos desses são vagabundos. Quantos vivem apoiados no dinheiro dos pais ou dos cônjuges. Quantos estão encostados em cargos fictícios de empresas familiares (quando não no governo, em alguns casos família e governo se confundem um pouco). Quantos herdeiros que nunca trabalharam e nunca vão trabalhar.
  6. Dividindo o número do quinto passo pelo número do quarto passo, temos a proporção de vagabundos por ricos.

Vamos fazer uma análise baseada nesse exercício. Qual dos casos (beneficiados do bolsa família e ricos) tem uma proporção maior de vagabundos? De repente você até tem um cunhado na família desse tipo, não tem? Agora pense no tamanho do estrago que cada um dos dois tipos de vagabundos pode causar. Qual tipo dá mais prejuízo? E pense também no tamanho da recompensa não merecida que cada tipo de vagabundo ganha. Precisamos do trabalho de quantas famílias para sustentar o herdeiro que nunca vai trabalhar? E, só depois disso, defenda que é mais urgente — pensando no bem da maioria dos cidadãos do Brasil — acabar com o bolsa família do que diminuir a diferença entre as rendas médias do "porcento" superior da pirâmide social para os outros 99%.

Penso agora mais uma vez na frase do Churchill. Eu, liberalista na adolescência e convicto da necessidade da ação/regulação do estado nas vésperas dos meus 30. Com o comunismo nunca tive mais que um flerte. No fim das contas, concluo que nasci sem coração, mas devo ter colocado um pedaço do cérebro no lugar, em algum momento entre os 20 e os 30.