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No dia seguinte ele estava do outro lado da rua.

Seus olhos foram direto aos meus, que foram direto aos dele. Diante da coisa dada, entregue, diante do abismo, eu parei. Olhei a profundeza da queda e hesitei. Hesitei principalmente por medo de ser impedido, como Francisco me impedira à época em que me apaixonei. Mas aquele convite, o olhar petrificado apontado ao meu olhar não parecia hesitante. O sinal verde para minha passagem foi seus lábios se entreabrindo num sorriso. Então atravessei a rua.

Enquanto caminhava, os carros parados, o coração de repente acelerado, o calor do sol do meio dia, eu encarava o olhar dele como um ponto de chegada. “Olá”, eu disse. “Olá”, ele respondeu. E dali ele pareceu vestir-se de uma displicência que eu nunca soube se era uma tentativa de disfarçar o nervosismo, simples charme ou sua comemoração em vitória pela conquista do prêmio. Àquela mesma tarde nós almoçamos juntos e eu o acompanhei até o centro de esportes que ficava ali perto. Ele queria que eu o visse nadar.

Sentei-me na arquibancada e o vi por os óculos de natação, tirar a roupa, até seu corpo ficar coberto apenas pela sunga. Vê-lo assim me fez sentir um desejo imenso que vinha apenas do fato dele me desejar. Eu sabia de seu desejo pela forma como ele me olhou desde quando nos vimos no ponto de ônibus até o almoço, e pela forma como ele direcionava seus olhos a mim, com a cabeça um pouco inclinada para baixo, enquanto conversávamos caminhando. Falamos sobre o que éramos, o que fazíamos. Repassei tudo em pensamento enquanto via seus braços saírem e perfurarem forte a estabilidade da água, seu rosto vermelho enquanto nadava, submergindo com a boca aberta, as narinas dilatadas.

Ele terminara o Ensino Médio há um ano, e até então não pensava em entrar em nenhuma Universidade, embora quisesse alguma Engenharia quando fosse a hora. Que previsível, pensei ao mesmo tempo que relevei, como relevei todo o resto das asneiras que ele disse. Não foram muitas. Na verdade ele falava pouco. Mais ouvia e me olhava. Muito depois percebi que ele se interessava mais por falas de experiências vividas: aventuras em festas, noites nômades pela cidade — que até então eu não havia explorado além da linha que cruzava minha casa e o colégio — , rapazes, brigas. E nada eu tinha de experiência daquele tipo. Minhas experiências foram todas passadas dentro de mim. Maior parte de minha infância, quando não era com os amigos, em tempos de uma parte da adolescência que eu não identificava mais como uma fase presente, eu passava lendo livros na esquina de casa, às sombras de um Pau Brasil imenso plantado há não sei quantas décadas.

Depois de uma hora ele saiu da piscina, o peito inflado, subindo e descendo numa respiração cansada. Olhou-me, e num gesto de cabeça, chamou-me.

Estávamos no vestiário e ali começou a dança quente do acasalamento. Seu jogo de desinteresse, como quem me chamara apenas para vê-lo trocar de roupas. Lá não conversamos muito. Pensei em perguntar para onde ele iria depois dali, e se eu poderia ir junto. Mas nada perguntei. Outros rapazes entravam e saíam depois de tomarem banho. Talvez eles todos tenham percebido, como eu percebi, à medida que minha excitação aumentava, que ele estava apenas gastando tempo, esperando que ele passasse, que todos saíssem. Quase meia hora depois estávamos sozinhos no vestiário.

O S0l já banhava de dourado as coisas com sua luz, que entrava pelos basculantes e incandesciam os armários de ferro.

Então, enquanto tomava banho e eu o esperava sentado num dos bancos, ele abriu a porta do box e me chamou. Não olhei pro lado para saber se alguém estava vindo quando avistei seu pau longo, rijo e grosso, de onde a água jorrava. Lá nos beijamos pela primeira vez, faiscantes; meu pescoço era seu, meu peito era seu, minha cintura, meu corpo. Chupei-o por algum tempo, admirado, enquanto ele fazia um carinho na minha orelha que depois identifiquei como um gesto típico dele.

Ele gozou dentro de mim. Seus gemidos me lembraram um touro, seu signo, e enquanto gozava, apertava-me contra ele com seus braços, como que querendo não sei se entrar ainda mais dentro de mim, petrificado, ou querendo que eu entrasse nele, como um espírito possui um corpo.

Àquela tarde dourada selamos o nosso início. Era dez de maio. Reparo que esqueci-me de dizer seu nome. Tael . Seu nome era Tael. Luís é o meu.