a morte da mãe

Quando recebi a notícia da morte de minha mãe, era manhã e eu estava sentado a tomar café. Mesmo que ela estivesse muito doente, a morte não era ainda uma possibilidade tão próxima, embora fosse um medo que se instalara como uma coisa escondida na sombra por detrás da porta. Tinha medo de sair da presença de minha mãe no hospital, fechar a porta e essa coisa, a morte, sair da sombra e beijá-la. Por uns instantes, após o chão se desfazer, e o teto da casa voar para os ares com a notícia, eu quase caí num abismo muito barulhento e por isso caótico: mas então, após encerrar a ligação de minha irmã, eu olhei através da janela, a manhã ainda bem nova, e um sol dourado e macio demais como um bebê a tocar luminescente o meu peito, eu lembrei que era outono. E pensei a respeito da morte de minha mãe: que dia lindo. Pensei sem exclamações, embora com uma leve surpresa pela coisa se apresentar logo àquele instante. A vida era mesmo um acontecimento, estava além das subjetivações, e se concretizava ali, naquela manhã que eu, vivo, estava sentindo. Eu estava me equilibrando sobre uma corda da qual, à queda, eu seria jogado no sentimento honesto, mas fraco, de pena por minha mãe não estar lá comigo para ver aquela manhã. Pensei então que ela não estava mais ao meu lado para ver o nascer do dia, mas sua existência imaterial se tornara parte daquilo que fazia aquela manhã uma manhã como aquela: embora de repente insossa, tornara-se uma manhã incontestavelmente linda. O sol irradiava uma luz muito macia. A morte soprava no vento que balançava bem de leve as folhas da árvore que eu via da janela da minha casa. Minha mãe morrera, eu pensei fatídico.

Antes do telefone tocar com a notícia de sua morte, eu estava derramando café na xícara de leite. O líquido branco a se movimentar com o café preto descendo ao fundo do leite e transformando tudo naquela cor café-com-leite, que não sei o nome. Talvez seja marrom ocreado. Minutos depois, após a notícia, após a diluição do chão e do teto seguido da beleza do dia, eu olhei de novo para a xícara silenciosa de café com leite sobre a mesa. O marrom ocreado que não era mais leite e não era mais café, mais uma coisa nova depois de acontecer a mistura dos dois. Bebi aquele líquido não mais como quem toma um café, mas como quem não é mais o que eu era e se tornara como que de uma nova cor, marrom ocreada. Era preciso levantar-se para ir ao hospital encontrar meus irmãos.

O dia explodia em buzinas e gente fora de minha casa. Enquanto eu estava no táxi, o motorista não puxou assunto e eu agradeci por isso. Só ao por os pés no hospital foi que senti meu coração acelerar. Eu enfrentaria agora os fatos, olhando-os. Olhar os fatos seria o corpo morto de minha mãe que até então ainda era inimaginável para mim, e os choro de meus irmãos. Primeiro eu os encontrei. Minha irmã, enquanto vinha me abraçar em silêncio, parecia ter dado uma trégua às lágrimas que logo voltaram ao me ver, o rosto começando a se contorcer em uma careta de choro enquanto seus passos vinham em minha direção. Meu irmão permanecera sentado na cadeira, os olhos baixos, perdidos. Quando me abraçou, senti o corpo de minha irmã menor que o meu sobre meu peito, sua cabeça e seus cabelos muito macios encostar no meu pescoço. Chorei por sua dor mais do que por qualquer outra coisa. Meu irmão veio quando chamei seu nome. Senti meu corpo abraçado pelo corpo dele, maior que o meu. E então, enquanto ele soluçava, afastei-me um pouco dos dois para vê-los inteiros, parados de forma tão vulnerável, braços jogados ao lado do tronco, olhando-me como quem pede por favor ou desculpa ou como quem suplica algo. Lembrei-me então mais uma vez da manhã dourada e de quando eu levava os dois ainda muito bebês para passearem no carrinho para tomar banho de sol. Meu irmão nascera um ano e meio antes de minha irmã. Sou mais dez anos mais velho que os dois. Como são novos, eu pensei, sentindo uma imensa pena e uma vontade de protegê-los. Então os abracei.

Fui eu a reconhecer o corpo. Não era minha mãe ali, eu pensava, enquanto via aquele corpo que fora dela. À iminência recente da morte, eu ainda a via como se ela estivesse apenas dormindo. Não fosse o tronco estático e a frieza cruel de sua pele eu suporia que tinham se enganado. Como ela parecia em paz! Tive só então uma sensação de alívio que me iluminava com um feixe de luz ao fundo de toda a confusão que o dia fizera daqueles momentos: a morte acontecida era um fato pacífico para o morto, e o que nos restava era entender a outra realidade à qual o falecimento jogava as pessoas. Antes de virar completamente as costas, tornei a olhar minha mãe: uma sensação de saudade então emergiu com violência, e de um repleto nada surgiu um soluço de choro. O único. Eu estava sentindo a saudade de alguém que, embora estivesse diante de mim a poucos centímetros, transportara-se para uma distância para sempre inalcançável. Não havia muito como conceber a lógica daquelas ideias, pois não eram ideias, mas sensações, e das incontroláveis, como o soluço que emergira violentamente junto das lágrimas.

Os instantes do funeral foi a prova de ferro. Um funeral é estar diante por algumas horas daquele fato estranho: a aproximação infinitamente distanciada da pessoa perdida. Lá vi minhas tias e tios. Meus irmãos, assim como eu, recebiam os abraços. Pareciam estar encaminhando bem os pesos que deviam estar sentindo àquelas horas. Percebi que duas vezes apenas tiveram coragem de olhar para o caixão. Entendi, pois de repente tornara-se um tormento sustentar o olhar sobre o corpo de nossa mãe. Pessoas faziam comentários entre si sobre como ela era, as anedotas começavam a brotar, alguns tios ainda conseguiam sorrir a uma boa lembrança. Mas tudo se contrastava à aspereza do cadáver no centro da sala funérea.

Ao fim da tarde, durante o sepultamento, o céu mais uma vez estava dourado. O gosto insosso na boca ainda permanecia, embora trocasse de lugar algumas vezes com a contemplação divina do vento na copa das árvores, dos pássaros, das cores de azul no céu. Uma vez apenas, e por um átimo de instantes, foi que senti inveja por ver algumas pessoas vivas ali enquanto minha mãe estava morta. A vida, durante aquele brevíssimo instante, pareceu-me um insulto à morte de minha mãe. Mas logo passou. Voltei a contemplar o céu enquanto encaminhávamos-nos para a cova.

É o sepultamento, descobri, o momento mais difícil.

A imagem da descida do caixão à terra é o decreto do para sempre e do nunca mais. De repente a corda à qual eu estivera me equilibrando se quebrou, e um conjunto confuso de sensações me espetaram todo o corpo. Não há o que dizer sobre o que senti senão descrever como os sentimentos conduziram meu corpo: as mãos tremendo e o rio salgado de lágrimas brotando dos meus olhos que ficavam mais e mais fundos. Meus joelhos foram ao chão, entre alguns soluços que explodiram ao redor, e eu fui à beira da cova onde estava descendo minha mãe. Lembro-me que a noite já começava a se formar, e um grande medo do escuro do céu se abateu sobre mim: ao olhar para cima havia a escuridão noturna, e para baixo minha mãe debaixo da terra, submergindo na escuridão da cova. Lembro-me também que mais uma vez senti de súbito a emergência de uma coisa que subia desde meus pulmões até a boca: um grito, a matéria de todo o meu sofrimento, de toda a falta que eu estava sentindo do que eu não pudera nunca ouvir a despedida, e então os braços de meus irmãos me agarraram, gotículas de escuridão me preencheram até a noite parecer entrar completamente dentro de meus olhos e eu não sentir mais meu corpo.