Xamanismo e o Resgate da Alma

Tiago da Silva
Jul 15 · 4 min read

Tenho buscado conhecimento dentro das diversas vertentes do Xamanismo, ou Xamaria.

Acho que é a minha praia.

Pelo menos hoje.

A Xamaria não se limita a um ponto no tempo-espaço. Em todas as regiões e épocas, mesmo antes da concepção de religião como temos hoje, sempre houve um homem ou mulher na tribo/comunidade que assumia para si o papel de mapear, identificar, lidar com as energias mais densas e buscar a transmutação das mesmas em energias mais sutis, limpando e curando pessoas e ambientes.

Era o xamã. O ancião. O pajé. O curandeiro. A benzedeira primitiva.

Existia nos Andes, na América do Norte, no Leste Europeu, na África, na Ásia, nas ilhasinhas do Pacífico. Por toda parte. Sempre. Desde a primeira vez em que um homem primitivo viu um familiar doente, lamentou e quis fazer algo a respeito, mesmo não tendo noções do que hoje seria a medicina ou a religião.

Uma das funções do Xamã em tradições diversas ao redor do globo foi e é o resgate da alma. Resgate da Alma. É um nome. Há outros.

Segundo essa interpretação da realidade, que vai receber diferentes nomes em diferentes tradições, experiências particularmente difíceis podem trazer perdas de “pedaços da alma”.

Sabe aquela pessoa que depois daquele acidente, daquela perda, daquele término, nunca mais foi a mesma? Parece que perdeu o brilho no olhar, a vivacidade? Pois é. Ela perdeu algo, de fato.

Mas é algo que pode ser recuperado.

Exemplo: após um episódio traumático por volta dos 5 anos, como um abuso sexual, a alma de uma determinada menina hipotética sente que precisa isolar aquela experiência horrenda para que a menina possa sobreviver a ela. Não pode lidar naquela ocasião, seria demais para ela.

Essa pedaço da alma da menina que vivenciou o abuso se descola e vai então para um lugar diferente num plano não-físico. E fica lá. A menina não está mais completa, mas consegue passar por aquela fase e chegar à vida adulta.

Incompleta, ela pode ter uma série de problemas, emocionais, psicológicos, físicos. Mas está viva, pelo menos em parte.

Procurando por um xamã, este talvez opte por adotar o procedimento de entrar em estado xamânico de consciência expandida, identificar esse pedaço que lhe falta e convencer esse pedaço da alma da, agora, mulher a voltar e reintegra-se à sua totalidade, agora que a ameaça ficou no passado.

É uma jornada complexa e demanda sensibilidade por parte do xamã, empatia e acolhimento para convencer aquele fragmento de alma a retornar.

Não é um ser, não é um espírito no sentido kardecista, mas tem um princípio senciente e inteligente presente ali, que sofre e anseia pela felicidade, como tudo que vive.

No processo, o Xamã conta com seus guias, mentores, animais e plantas de poder, ancestrais e uma série de seres e técnicas específicas para cumprir seu propósito.

Eu acho essa prática em particular uma das mais bonitas dentro do Xamanismo. E das mais corajosas. Porque não é como num centro espírita em que o médium encarnado, cercado e protegido por muitos outros médiuns encarnados e da equipe espiritual da casa, permite que uma consciência em sofrimento venha de outro plano para ser auxiliada ali. Não.

O Xamã é quem vai até lá, se expõe, se arrisca.

Porque os outros planos, como este, não são habitados apenas por seres bem intencionados ou em sofrimento. Há em toda parte quem se compraz no sofrimento do outro, e lá não é diferente.

É um risco que ele aceita correr, porque ninguém mais na tribo pode fazê-lo.

Tem um trecho de uma música linda do Sérgio Pererê, chamada A Mulher do Pajé, que diz:

“Mas ele mora em cada criança que chora como ninguém
Sofre em cada coração que sangra como ninguém
Clama cura para criatura como ninguém ama demais”

Eu vou tentar escrever mais sobre algumas práticas dentro do Xamanismo, dentro do que tenho estudado, embora não tenha certeza que o público daqui tenha particular interesse no assunto.

É o que eu tinha pra hoje.

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Tiago da Silva

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Às vezes me surpreendo com o que escrevo, porque não sabia que pensava assim.

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