Dedé de Iansã

Dia desses, Débora ia, de busão, com a mochila no colo. Pensou como a vida seria, caso acertasse uns seis números. Achou bobeira. Cansada, virada, querendo não cochilar, pra não ter que passar perrengue. Porque, na rua, cochilou o cachimbo cai mesmo. Tinha acabado de completar dois meses no trampo de garçonete. Madrugada trabalhando, manhã dormindo e durante a tarde faculdade. Nem todo mundo aguenta. Mas lá não chamam de garçonete, é bartender.

Porra… lá vem esses zé ruela querer mudar as coisas de nome, pra gente não entender o que é e achar que o salário é maior.

Não caia nessa. Recebe mal e trabalha muito. Canseira danada da Dedé. A saúde tava pedindo atenção, mas a Eletrobras e a Casal também. Viver pra trabalhar vira a única opção de quem subvive.

Um cochilo, um sacolejo, um grito, passa o maloqueiro. Moleque, 12 anos, camisa encardida até o joelho, garrafinha de plástico com três dedos de cola.

Bye, celular.

- Filho da puta.

Dedé jogou a mochila, o menor caiu, ela segurou. O motorista freando, o cobrador pulando a catraca. Ora… vejam só. Veio chutar a cabeça do menino magrinho. Aboletados no chão, Dedé e Tadeu, ele querendo fugir e ela querendo o que era seu. Sem maldade dela. Sem maldade dele.

A vida. 
É isso aí.

Débora levantou, segurando Tata pelo braço fino e batendo na garrafa com cola. Ele azoretado, no momento e na vida, porque… mãe viciada, vítima do padrasto, que batia em tudo, menos nas portas. Porque porta, meus caros, não chora.

Bye, casa.

- Filho da Puta.

E o menor partiu. Se virando no mundo da maneira que desse. Fome. Ah… a fome.

- Maconheiro! Maloqueiro! Malandro! Merdinha!

Entre outros xingamentos iniciados pela letra M.

Maconheiro… mal sabe que maconha dá fome. Cola enche. Passa o vazio. Os olhos marejados, a alma assustada, quase pedindo um abraço. Apertado.
Abraços salvarão o mundo.

Dedé toma o celular de volta, não deixa ninguém bater em Tata. Até que os zumbis do Datena se revoltam e decidem bater nela.

-Safada! Sem vergonha! Só sendo puta mesmo!

Não só com S.

Um tapa. O rosto quente. Doeu. O pivete agarrado na cintura dela, teve dó. Uma ventania

- Moça, cê tá bem?

E a porta de trás estoura. Iansã, com chicote, segura o braço do policial de férias. Sorri pra Dedé, passa a mão na cabeça de Tata.

- Erêzinho que tem fome. Toma e come.

Mungunzá.

As pessoas, que faziam coro de linchamento, pararam. Agarrou o braço de Dedé, que ainda sentia a face ardida, e gritou:

-Sororidade!

E desceram. Tata furou os pneus.

- É que a revolta é muita, tia santinha.

Ela entende. Tudo. Bem.
Um beijo no rosto de Dedé. Uma brisa de fechar os olhos.

No ventinho passando pelo ouvido, deu pra escutar:

Convoque seu Buda, o clima tá tenso.

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