Há vagas

Fez-se minimamente curioso, quando sentiu na ponta dos dedos uma superfície áspera que, ao friccionar, corroeria sua carne, ossos, vestes, pelos e moral. Permaneceu na penúria dos olhos fechados, porque, até o momento, não escutou nenhuma permissão para abri-los. Olvidou-se de quem era, do que era, dos demais. Perdido no tempo-espaço, já não se questionava e apalpava o que imaginou ser um muro. Mas, noutro instante, o próprio chão. Pode utilizar de outro sentido e percebia o odor. O cheiro incomodava, algo a se decompor debaixo de um sol impávido, que acelerava o processo químico. Apalpava e sentia cheiro, ao mesmo tempo. Não escutava, pois, os ouvidos estavam cheios de matéria fria e compactada. Não mirava, porque não recebera permissão para isso. Parou de perambular os dedos pela parte carrasquenta e tocou os próprios lábios, sentiu pingar líquido viscoso de seus dedos puídos, pelo rosto, pela fresta da boca a escorrer pelos dentes. O gosto metálico permeou as papilas gustativas.

Deixou de perceber-se e agora é instrumento de lixar superfícies.
Não fala, não enxerga, não ouve. 
Mas segue lixando, sem perceber que o movimento de esfregar também o corroerá.

Entretanto, um dia já foi aquilo que chamavam de homo sapiens.
Sapiens?

No momento que chegou apenas a homo, penduraram uma foto sua, com o logo da empresa, no muro que sempre lixaria. Não pode decifrar por sentidos o que significava uma foto sua, porque antes sofrera atrofia-perceptiva. Contudo, no fatídico dia, ensinaram-lhe a sorrir e agradecer. Aquele ser deitado, desnudo, com as carnes a decompor, fedendo, zumbificado, esfregando-se com tamanha potência contra o muro e repetindo sorrisos altivos gritando obrigados desesperados, pois não sabia o que era pedir ajuda. Morreria lixando o muro ou o muro por cima dele cederia, de tanto afetado pela fricção. O muro apoiava livros.

O avanço tecnológico, do momento, deixou de ser duas pedras lascadas. 
Quem inventou a técnica de fazer pessoas-instrumentais tem ganhado prêmios.
Um da Fiesp e outro do Banco Mundial. 
Conquistou aplausos de IL e MBL.
É uma celebridade que abrasa e não abraça.
Discursou para a televisão aberta e concluiu seu tempo a se autocitar:
Sorriam, agradeçam e lixem sem parar.