Morte e Vida Bastiana

Bastiana sorriu muito com Raimundo, seu Mundinho do coração. Raimundo homi alto, galalau de braço grosso e rude no tratar, se deitava mais Bastiana toda noite antes do altar. O padre deu a bença pro mode de bucho, que era engodo pras famílias. Avexamento danado pra não se amasiar. Obrigando os dois a casar. Porque aqui na Serra da Cabeça, mulher moça casa que é orgulho, mas se a barriga despontar… ihh aí é desapontamento familiar.

- Casa logo, de qualquer jeito. Vai casar!

Amancebados, os dois, numa casa de argila, no teco de terra que Zé Nô conseguiu financiar. Pelo dote físico de Raimundo, corria vaquejada, era ruim com os boi, puxava o rabo até estralar. Sangrava os bichos no olhar.

- Ô homi tinhoso!

Quando as senhas não lhe davam o que queria, fundos para cachaçar, chegava de cabeça baixa em casa e procurava a mulher. Pobre dela. Arrebentava a coitada, enquanto ela gritava para Nossa Senhora aliviar. A mãe dizia que era assim, que a mão dele iria calejar, que o lombo dela iria se acostumar.

- Banho de sal grosso, minha fia.

Bastiana, com seu destino traçado, corrido de dor e de marca pelo corpo. Desvendava que Raimundo a maltratava pra lascar. Ele retirava a aliança na pega de boi, chegava em casa botava no anelar e, quando a sorte não lhe convinha, descia tapa, chute e soco em Basti, que nunca foi mais do que isso para um homem tão malvado e cruel.

Aos oito meses e meio, uma surra descabida, como todas as outras, aconteceu. Bastiana já fraca, gritou o nome de Toinho.

- Quem é Toinho? Raimundo, com olhos de fogo, começou a bradar.

Bastiana fechou os olhinhos, mas ainda arfava.

Toinho era um irmão de criação, que foi pra São Paulo com uma tia, quando Basti ainda brincava de boneca. Ela rezava pra Toinho voltar, pra ele salvar ela, pra essa dor acabar.

Raimundo, que achava que Bastiana era sua posse. A arrastou pelos cabelos até a beira do São Francisco. Com peixeira fez a sujeira maior.

Pra quem leu até aqui poder continuar, pra angustia não apertar e nem fazer o olho lacrimejar, como o de quem escreve, de outra forma a cena eu vou narrar.

Deitada como lavadeira, que descansa do lavar, sobre a areia da margem do Velho Chico, num vestido branco escorrido de vermelho, cor que invade as águas que a lambem de forma voraz. Bastiana, pálida, teve cortado por raposas e carcarás o cordão que lhe ligava a Manuel, quem ela esperava com ansiedade desde antes do altar. A placenta lambida por pacas, o menino banhado pelas águas acabou sendo içado por uma rasga-mortalha até a parte alta de um umbuzeiro, que tinha uma cabra se alimentando do que a árvore dá.

O menino-novo por riba do umbuzeiro, perto da cabra, que parecia flutuar. A mãe levada pelas águas, com um vestido de folha de bananeira, costurado por agulha de mandacaru e linha de pescar. Nego d’água não a deixava afundar, Caipora tratou de ir ninar Manuelzinho, até o fumo deixou de lado, o vício não pesa mais que menino pra cuidar. Havia, no meio do mato, bicho que cuidava de gente em situação difícil, não só ria de caçador, de aventureiro, de latifundiário que só sabia tudo queimar.

Manuel, que nunca iria crescer os dentes, virou Erê de Beija-Flor, batia asa para olhar a mãezinha, que virara entidade ajudante de Oxum. Bastiana recolhia a alfazema, o mel e os presentes para a rainha de lá.

Bastiana e sua cria só podiam se olhar, nunca se abraçaram, embora em vida sofrida um esteve pegado com o outro. Mas a coisa era diferente, nesse novo mundo, desse outro lado, por causa de energia de descanso forçado, os dois só se observavam e sorriam um pro outro no tempo que dá.

Três anos após, Raimundo, que nunca fora encarcerado pelo que houve, pois ninguém nunca soube do acontecido e ele teimava em contar a história:

- A rapariga gritou por Toinho, tomou coro até desmaiar e no outro dia não vi a mulé, os pano de bunda e nem a roupa de altar. Deve de ter fugido pro quengal ou pra os braço desse fulano, a quem ela pedia socorro por ter o que merece de um marido-homi titular.

Na novena, Raimundo que melhorou na prática de derrubar boi, ganhou uma moto na primeira noite de competição. Na segunda noite, quinhentos conto pra gastar. Na terceira, quando soltaram a novilha, valendo um carro, Raimundo olhou pro bicho pra intimidar, se acercou, segurou no rabo, beliscou pra machucar… e nesse momento, viu Bastiana e Manuelzinho a flutuar, ele de asinha, ela de roupa de caatinga segurando um monte de presente para a mãe Oxum no caçuá.

Raimundo se agarrou no patuá, como se Padin Padre Cícero fosse lhe valer. Não valeu o boi, caiu Raimundo do cavalo esporado, o boi lhe passou pelo espinhaço e ele das pernas ao braço sem conseguir movimentar.

O gosto do sangue, a areia na cara, oolhos a coçar e Raimundo não poderia se mover, sentindo aquela dor e vendo os que ele matou o observar.

Mesmo que Nossa Senhora, que sempre defende os humildes, descesse pra lhe salvar, há nos que foram injustiçados uma força maior para se vingar. A mãezinha-do-céu não desceria, pois seria o manto sujar ao se aliar com alguém tão cruel.

Doutor Camilo, que era dono do cavalo, correu para acudir o animal. Zé Nô foi em disparada pra cima do filho, que só lhe falava

- Painho, ela voltou pra vingar.

Mas injustiçado não volta pra matar, vem com força, por aqueles que não pediram perdão, pra machucar.

Raimundo, até o fim da vida, engembrado numa cama, recebia visita de suas vítimas ao sonhar. A cena se repetia, da peixeira nos coitadinhos e logo em seguida o boi lhe estourava o espinhaço. A dor toda que sofria, esse penar de quem merece o que passou e o que passará. Ele sabia que, mais tarde ou mais cedo, uma volta o mundo iria dar.

Basti, com o filho no colo, em sonho, se colocava a sussurrar

- Até o fim da vida, Raimundo, até o sol deixar de raiar, o que os injustiçados lhe oferecem é a dor que sofreram, e que, em algum lugar, alguém reze por sua alma, peça a Jesus interceder, porque nem mil velas vão fazer você levantar. O inferno é na terra, meu ex-Mundinho, e alegria só tem do lado de cá