O amor é a sorte dos desgraçados

Um desgraçado reconhece o outro. Meu dia foi horrível, eu fui demitido. Seu dia foi uma bosta, você zerou na prova. Nós dois no ponto de ônibus que não tem teto, tomando chuva e vento, você de camisa fina e eu de chinelo. A cidade é quente, mas hoje parece que se tornou a porra do Polo Sul, não duvido de passar um pinguim entre nós, também não iria duvidar caso ele começasse a nos atacar. O ônibus atrasa, meu celular descarrega e a única coisa legal era escutar música no fone. Você faz cara feia, ensaia bocejo, bate o pé enquanto cruza os braços tentando se aquecer. Tá frio. O ônibus chega com muito custo, os pneus carecas, gente até o teto, uma cadeira vaga está fora dos planos, mas eu a cederia para a primeira pessoa que visse, você também. Dou boa tarde pro motorista, ele me ignora. O cobrador te olha, você faz cara feia. A gente entra na caixinha de gente mal-humorada, nós estamos de careta, eu abaixei o braço pra olhar a hora, relei em você, pedi desculpa, você me fitou com cara de quem não quer ser incomodada. Uma hora no ônibus, uma curva, um susto, um pneu fura. Você solta um: Ahh não! As pessoas fecharam as janelas por causa da chuva, o ônibus tá quebrado, tá abafado e eu penso alto: Não entendo porque fecham as janelas. Você ri. Eu continuo sem entender as janelas e sem entender você, mas sorrio timidamente de volta. Mais uma hora parados nessa rua, há cachoeiras na calçada, o outro ônibus chega. As pessoas correm, eu consigo uma cadeira, você sobe, eu cedo a cadeira, você se oferece pra segurar a minha mochila. Você pergunta como foi meu dia, eu suspiro. Eu te pergunto como foi o seu, você responde: Também. Começamos um papo sobre transporte público, sobre Estado, sobre desmilitarização, sobre ideologia política, nós combinamos. Você quer saber o que eu estava escutando no ponto, eu respondo: Tulipa. Você diz que ela é maravilhosa e me fala de uma música dela com Jeneci. Você é maravilhosa. Pergunto se você não quer ir dormir. A gente tá cansado, acabado, cheio de dores nas costas. Você se encosta no meu peito e eu acho ótimo. Você me chuta e eu acho engraçado. O celular toca, é o teu despertador. Você tem que ir embora, a labuta te chama. A gente se entreolha e eu digo que você é linda, você coça o nariz, coça os olhos, manda eu parar de mentir. Não minto. Você é linda, sim, senhora. Mais que isso, mais uma vez: você é maravilhosa. Que palavra! A gente se abraça querendo que o mundo acabe lá fora, que Maceió neve, que exista a revolução, que algo aconteça pra que não seja possível o desabraço. Não há, você tem que ir trabalhar. É foda. Mas foi bom te reconhecer, nós já podemos não mais ser infelizes sozinhos. Que falta de sorte do jogo, nós nos conhecemos, amor.

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