Ponta Verde/ Aeroporto — 16h30 às 17h30–02/08/16

Tá quente, o trânsito tá infernal, esse é o ônibus que vai mais rápido e nem consegue romper o engarrafamento. O motorista esqueceu de parar num ponto, ele é mal pago, tá estressado, cansado, quer chegar logo em casa. A gente tá aqui apertado. Toda vez que sobe mais um, eu olho pra ver se desceu outro. A conta não bate, sobe mais do que desce. A moça ficou com a minha mochila no colo, eu agradeci. Subiu o papai com a neném no colo, a mamãe eu só vi depois, quando alguém cedeu o lugar pra ela. Antes da neném ir pro colo da mamãe, uma freada. Seguraram o papai e a neném. Todo mundo babando a neném de lacinho. A neném ficou no colo da mamãe, que tava exausta. A pessoas sorriam pra pequena. Coisa linda de se ver. Ela foi embalando no balanço do coletivo, dormiu. As pessoas davam boa tarde, pediam licença e recitavam desculpas, mas todo mundo entendia tudo e não havia briga. A gente entende o esbarrão, a gente entende a cotovelada, a gente entende, pode passar. A moça que segurou a minha mochila caiu no sono, a amiga dela tá pensando na vida. E nesse aperto eu não sabia onde acabava meu ombro ou começava o da senhora ao lado, não faz mal… a gente se apoia. Sobe o estridente pipoqueiro. Promoção… só hoje, pipoca um real!

- Buááááááááááááa

A neném se assustou e começou a chorar. Não chora, neném, fica calma. Não chora, coisa linda. Já passou, já passou. Ela para e fica fazendo bico pra mamãe. Ela vai mamar. O pipoqueiro pede perdão. O papai acena com a cabeça, faz um gesto de legal e sorri. O pipoqueiro dá um salgado pra ele, vende outro pro outro lado, passa o pacote, passa o dinheiro, volta o troco e ninguém tirou um centavo. O vendedor desce anunciando que quem não comprou, não compra mais. A gente segue na empreitada. Estudantes, trabalhadores, aposentados, desempregados, pretos, brancos, pobres, classe-média, heterossexuais, homossexuais, bissexuais. A família vai descer, todo mundo abre alas, tem espaço, pode passar, pode pisar, só não machuca a neném. Neném linda de se viver! Várias mãos nas costinhas, vários elogios. Mais curvas acentuadas, mais freadas bruscas, um sustinho aqui, uma “tá perto “ dito feito prece acolá. Chegou meu ponto, eu pedi pra amiga da moça me dar a mochila, pedi pra agradecer por mim, quando ela acordar, uma senhora sorri pra mim. Eu vou pedindo licença, vou pedindo desculpa, pedindo um pouquinho de espaço. Todo mundo ajuda. Desci do busão, cheguei na Universidade, mas antes tive uma aula de honestidade, solidariedade e de bons modos. Até pensei que lá dentro do ônibus, que tava caindo aos pedaços, a gente tá mesmo junto e realmente misturado.

- Foi lindo no ônibus, amor. Se eu não fizer um texto sobre o que vi, eu te contarei de outro jeito. Eu tô com dor de cabeça, com fome, suado, mas foi lindo.

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