Um sopro de carnaval, caetés, nagôs e o soco da vida.

Pulou a catraca, vestido de fada. E encontrou com os seus. As viaturas se aproximam do ônibus lotado, as luzes do giroflex, o som da sirene e o pedido para o motorista encostar. Os moleques escapam pela janela, apenas os passageiros notaram. Vão cantando, gargalhando e pulando pelas ruas históricas. Ladrilho, portas largas, meia-luz dos postes queimados e o antigo se fazendo presente nas construções com tinta descascada, paredes manchadas de chuva, fuligem e lodo verde. Eles, sem-eira e nem-beira, irresponsáveis de teoria, cheiram loló, enquanto desembocam no cortejo da Tia Marcelina. Afrocaeté. E os meninos sorriem, escondendo a garrafinha, cada qual em reverência ao seu santo de cabeça. Sorrateiramente uma carteira, um bolo de notas, um relógio e um colar. Um trago, os olhos vermelhos e viagem de ácido. Estão carnavalizados, com beijos trocados, no escurinho. As mãos, o suor, o gliter e o cheiro de álcool. Carnaval dos excessos. Sem responsabilidade alguma, uns dizem que eles não entendem. Ah, a ousadia despretensiosa do malandro. Os meninos tentam entrar numa casa de shows, os seguranças impedem. Uma meia-lua, dois murros, uma bença. Eles entram.

- Ei, garotão!

Cervejas pagas pelo estranho assustado. Ganharam o que tinham que ganhar ali. Entre a multidão, encontrando espaços, vão perdidos e achados para o Filhos da Pauta, que crescem na praça, entre a Barão de Jaraguá e a Desembargador Paulo de Rocha. O Frevo. O Maracatu. Em frente à Rosa, eles sentam. Cansados. Provocam, olham e sorriem dos demais fantasiados. Entre olhares tortos, rápidos sustos, as pessoas se afastam. A cor, o jeito de andar e a fala revela de onde são. E isso assusta algumas pessoas.

- Ai, ai, ai!
Um dos moleques é pego pelo cangote e toma tapas na cabeça.

- Se correr eu atiro.
Disse o PM.

Não dá pra correr. Ninguém aprendeu a virar Mungangá. Os policiais sacolejam o grupo e encontram os flagrantes. O Sargento pediu a identidade, mas sabe que não vai vê-la. Dá um soco na boca do menor. E pergunta:

- Qual o teu nome, resto-de-aborto?

O menino, de sangue Caeté e Nagô, com sangue na boca, que escorre e pinga nos paralelepípedos eternamente manchados pelo mesmo líquido de seus antepassados, responde:

- Macunaíma Da Silva.

E deu de ombros, enquanto passava o antebraço na face ferida,
pois adiantaram, por AI-5 das ruas, a quarta-feira de cinzas.

Os sete estampidos secos por trás do antigo armazém.

Sorri e acostuma,
A vida não é porra nenhuma.