E Então Ele Foi Embora

Eu tinha sete anos quando me contaram sobre ETs pela primeira vez. Sentado imóvel no gira-gira do playground do prédio, uma criança pálida que nunca havia visto antes aconchegou-se defronte, e então começamos a rodar.
“Ei, você sabia? ETs existem”, ele me disse com uma voz sem emoção.
“E-eu não sabia”, respondi com sinceridade.

Era uma madrugada fria de julho ou quente de dezembro, os detalhes escapam da minha memória. Eu estava insone e de repente tive a forte sensação de estar sendo observado através da janela do quarto. Seria algo comum eu não morasse no 15º andar do prédio — não há muitos seres vivos conhecidos que possam casualmente planar na janela com olhos grandes e brilhantes na escuridão noturna. A sensação era crescente e, desesperado, fiz um apelo sem palavras: “não me machuque, eu faço qualquer coisa”. Entretanto, como minha mente sempre inquieta não consegue parar de pensar em problemas (sejam reais ou imaginários), me vi contando sobre minha vida à la “1001 Noites”.

“Me conta mais uma vez daquela chuva de quando você tinha 14 anos”, e de frente um para o outro começávamos a rodar no gira-gira, eu compartilhando minhas histórias e ele curioso, indagando nos pontos confusos, esclarecendo obscuridades e desfazendo silêncios na narrativa.

“Mas não é muito justo se só eu falar”, eu que sou obcecado com balanças vivia repetindo. “Me fala de você. O Universo é vasto demais para não render pelo menos umas duas ou três às vezes até quatro histórias para me contar”.

Os dias foram passando como se fosse natural. Às vezes ele demorava dias para aparecer sorrateiro na minha janela de madrugada. Outras, surgia de supetão numa manhã de faculdade, me obrigando a reconsiderar minha rotina. Nossas vozes dentro de nossas cabeças se misturavam até parecer uma só, confundindo os relatos contados. Eu comecei a pensar “talvez eu exista para fazer essa ponte entre a minha humanidade e a extraterrestrealidade dele” ou algo do tipo.

E então ele foi embora.

De início pensei que fosse mais uma de suas aventuras passageiras; logo ele voltaria, curioso para saber o que havia se passado comigo e com duas ou três histórias novas para me contar. Inconveniente, pois a cada dia me acostumava mais com sua presença constante, mas a vida é isso: tentar dirimir a arte do desencontro. O primeiro dia passou e o segundo dia veio sem que nada de estranho acontecesse: havia chegado a um ponto em que eu me recusava a viver minha rotina se não pudesse compartilhá-la com ele logo que acontecesse. O terceiro dia veio e eu decidi manter um low-profile, fui acumulando e quando dei por mim empilhava três semanas e algumas horas de ausência.

Talvez ele esteja ocupado querendo me entreter com coisas novas?, eu pensei. Como a vida ficou impossível não ser vivida, passei a guardar cada acontecimento digno de nota em uma pequena cápsula; logo teria uma baú cheio e poderia entregar para ele assim que retornasse. Ele me daria um baú igual, só que mais bonito, e de costas um para o outro reviveríamos a vida um do outro nesse período de separação. Só que ele permanece não retornando, dia após dia.

Talvez eu devesse me lançar ao espaço? Acho que diriam “ele só foi atrás do ET”, enquanto a verdade é que… Eu preciso ir atrás dele, mas também quero conhecer o ambiente que me cerca. Eu olho pro vazio escuro toda noite pensando no que encontraria lá fora. A modernidade e a poluição impossibilitaram que a luz das estrelas chegassem até aqui, mas elas devem continuar ali, distantes alguns poucos anos-luz, agonizando em supernovas. Eu olho pro vazio e penso, talvez eu devesse me lançar ao espaço. Talvez se eu girar no gira-gira com força o suficiente eu saia espiralando pelo ar. Talvez eu até o encontre de novo.

câmbio. aqui sou Eu. será que Você consegue me ouvir? as condições continuam favoráveis. a vida não tem muitas mudanças. câmbio. Você consegue me ouvir? Eu estou sempre pronto pra partir, só preciso de um sinal ou algum tipo de aviso. mesmo que estejamos distantes, Eu permaneço orbitando a sua existência. câmbio. desligo.

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