O Professor Que Impediu O Fim Do Mundo

“Hoje nós aprenderemos sobre a Síria”, disse empolgado José Carlos (25), virando-se de costas para o quadro negro após ter desenhado um quadrilátero tremido. “A Síria é um país com cerca de 180km², conforme vocês poderão constatar com uma calculadora, régua e Google Maps. Caso vocês não se recordem, a fórmula da área de um quadrado é base vezes altura…”

José Carlos é um autointitulado professor de Geografia especializado em mapas. Desde pequeno, sua grande paixão era passar horas e horas observando atlas e decifrando cada cor, cada escala. Quando descobriu sobre perspectivas diferentes de se representar o planeta arredondado numa folha plana, ficou maravilhado. Passou duas noites em claro pensando em como a África é maior do que é representada ou no tamanho real da Groenlândia. Quando descobriu a Internet, decidiu: estudaria mapas na faculdade de Geografia.

“Professor, eu gostaria de saber um pouco mais sobre a situação da Rússia e da Síria, como dizem nos jornais…” interrompeu um aluno de óculos sentado na primeira fileira após levantar a mão direita com uma certa relutância.

“Bom, vejam só. Dúvidas sempre são pertinentes! A Rússia e a Síria não ficam no mesmo continente. Além disso, a Rússia é maior do que a Síria. E ambos os países têm em comum o fato de serem localizados bem longe do Brasil”

“…Mas eu queria saber sobre as relações políticas entre os dois países…”

“Relações políticas? Isso é para a aula de Geopolítica. Eu não fiz essa matéria na faculdade. Sou um professor especializado em mapas. Aliás, vocês podem perguntar isso para a professora de História. Quando algo está acontecendo, é História. Se ela não souber responder, vocês já têm idade o suficiente para ir na banca e comprar um jornal!”

Lecionar Geografia não era o único sonho de José Carlos. Ele também mantinha guardada para si a vontade de escrever uma série de livros infantis de ficção. Acreditava ter experiência o suficiente para educar as crianças e entretê-las, oferecendo um refúgio seguro no mundo da fantasia.

“É sobre um astronauta, e como ele viaja para diferentes planetas mapeando a superfície de cada um deles”, tagarelava para quem quisesse ouvir nos corredores da escola. “Mas é tudo uma metáfora, sabe? As crianças vão aprender que cada pessoa é um planeta rodopiando num universo vasto e desconhecido, e apesar das semelhanças, você nunca pode afirmar que conhece alguém antes de mapear essa pessoa”

“Interessante… Mas de onde vem o astronauta?”.


O sinal tocou, dispersando os alunos. Conversando com suas vozes agudas e alegres, guardaram seus pertences nas mochilas, as lançaram sobre os ombros e saíram para aproveitar o dia que, para eles, enfim começava. Era a última aula de quinta-feira, e Maria Clara (11) aguardou que todos saíssem para se aproximar da mesa do professor, segurando em suas duas mãos pequenas e pálidas um pacote oval guardado em papel alumínio amassado. Seus cabelos loiros e desbotados estavam presos dos dois lados da cabeça e os grandes e redondos olhos castanhos evitaram José Carlos para se fixar num ponto da lousa atrás da cabeça do professor.

“Eu tenho um favor para te pedir, mas é confidencial e extracurricular. Será que posso confiar no senhor?”

Desembrulhou, com cuidado, o pacote, revelando uma feia pedra tosca, de uma cor acinzentada quase opaca e do tamanho da palma delicada da garota.

“Que linda pedra você tem aí!”, comentou em tom casual o professor, já guardando seus livros dentro da pasta de couro surrada.

“Não é uma pedra”, corrigiu Maria Clara. “É uma rocha espacial com propriedades jamais encontradas em nosso planeta. Eu sei disso pois pesquisei por três dias e três noites seguidos em todas as páginas da Wikipédia que pude encontrar. Só preciso de um parecer profissional. E você é o professor de Geografia dessa escola”. Enquanto a aluna falava, José Carlos mantinha uma expressão que misturava curiosidade e dúvida no olhar — a mesma que dispensava aos alunos que faziam perguntas em sua aula que não envolviam nenhum mapa do livro didático. “Quero dizer que você detém o conhecimento empírico validado por um diploma de curso superior capaz de atestar a procedência extraterrestre da minha rocha espacial”

“Você está pensando num professor de Geografia especializado em Geologia, eu sou especialista em mapas…”

“O capítulo 7 do nosso livro-texto é sobre rochas e tipos de solo”

“Que estranho, no meu livro do professor não tem esse capítulo…”, disse folheando de forma apressada seu exemplar. Maria Clara notou pelas rebarbas que mais da metade das páginas do livro haviam sido arrancadas.

“Se eu te levar no campo onde encontrei a pedra, você é capaz de atestar isso pra mim?”, indagou com um suspiro impaciente.


O professor José Carlos sempre tentava ajudar seus alunos à sua maneira, como todo bom profissional deveria fazer. Claro, passou pela sua mente que Maria Clara estivesse armando para levá-lo a um lugar afastado com o intuito de assassiná-lo com requintes de crueldade, porém tranquilizou-se ao ver-se com o dobro do tamanho da menina. Pelo que conseguia lembrar, ela era uma garota calada incapaz de se conectar com os colegas e com um vício pouco saudável em extraterrestres, como o chaveiro de metal no formato de cabeça de ET com as palavras “EU QUERIA ACREDITAR” gravadas no verso em sua mochila denunciava: o típico perfil de aluno serial killer.

Pouco mais de cinco minutos de caminhada e chegam ao descampado do bairro, cercado por cercas esburacadas de madeira velha e úmida, ocupando um quarteirão inteiro. Boatos diziam que aquele terreno costumava ser uma chácara e que seus donos morreram sem deixar herdeiros, de forma que com o avanço da cidade o lote ficou protegido e isolado.

“Sabe, aqui costumava ser uma casa de chás… Quando eu tinha sua idade, vinha com bastante frequência após as aulas. Uma das paredes era forrada com um mapa-múndi. E foi aí que eu decidi que seria um professor de Geografia especializado em mapas”, declamava José Carlos enquanto caminhavam rumo a um ponto em que o terreno estava coberto de pequenos pedregulhos.

“Você dá aulas para o sexto ano e ignora o conteúdo do livro didático para ficar falando sobre mapas”

“Bem… Isso se chama liberdade. Pra que você quer saber se essa pedra vem do espaço, aliás?”

Maria Clara parou, tirou a pedra do bolso e a observou com determinação. Parecia procurar as palavras certas para começar a se explicar.

“Eu e meu amigo precisamos entrar no Clube de Pesquisa de Ciências Espaciais do nosso colégio. Todos os alunos são do nono ano e não aceitam pessoas mais novas. Eles se reúnem nos intervalos e conversam em mensagens cifradas sobre assuntos que não fazem sentido para o ouvido comum. Mas eu desvendei o código. Eles sabem sobre o fim do mundo e como impedi-lo, mas não pretendem fazer nada. Tenho até o final desse ano, quando eles todos se formam, para entrar no Clube, aprender sobre o apocalipse e alertar a todos”.

“Esse Clube de Pesquisa não são os quatro nerds estranhos que andam pelo pátio nos intervalos com papel alumínio na cabeça?”

“Eu já elaborei um laudo. Você só precisa assinar”

José Carlos pensou por um instante e pediu para ver a pedra. Era bem menor e mais leve do que imaginava, sendo que caberiam duas delas em suas mãos. Maria Clara segurava cerca de três folhas impressas frente e verso e uma caneta esferográfica preta.

De um súbito, o professor arremessa a rocha longe, por cima da cabeça de Maria Clara, assustando a garota, que solta uma exclamação de terror. Para seus olhos infantis, o contato da rocha espacial com a atmosfera terrestre a tão baixa velocidade desintegrou os sensíveis átomos alienígenas do mineral, fazendo com que ela sumisse. Um baque distante e quase inaudível ressoou quando a pedra pousou no chão, do outro lado do terreno, nos ouvidos maduros do professor.

“Essa sua pedra é só mais uma como outra qualquer. Mesmo que corra atrás dela agora, você não conseguiria diferenciá-la das outras. Às vezes nos apegamos a uma pedra e ficamos achando que ela é especial. Que é a pedra capaz de permitir que a gente salve o mundo. Mesmo que ela tenha vindo do espaço… Se o mundo for acabar, uma pessoa como você não precisa desse tipo de crédito para impedir isso. Veja só o Astronauta. Ele viaja pelo espaço, conhece novos lugares, desvenda velhos segredos… Talvez algum dos mundos que ele deixou tenha acabado, mas ele não pode se deixar abater por isso. Ele segue fazendo seu trabalho, porque alguém precisa mapear. Alguém precisa mapear o universo. Eu acho que você nunca precisou da pedra. Talvez você deva só confiar em si mesma.”

“Confiar em mim mesma?! Isso é algum tipo de metáfora barata que você pretende enfiar goela abaixo nos seus livros?”, gritou Maria Clara revoltada, virando as costas para o professor para correr atrás de sua rocha espacial.

“Não”, respondeu José Carlos sem aumentar a voz para a garota que se distanciava. “É só tudo o que sei a respeito de pedras”

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