Sem Título Número 1

“Às vezes eu penso em nós dois.”
“Em nós dois?”
“Nós dois, no futuro. Estamos casados”, e ela acendeu um cigarro, tragando profundamente antes de continuar.
“…Um com o outro?”, ele pergunta, reticente.
“Estamos casados” ela continua sem olhar nos olhos dele, “e você vem reclamar para mim da sua esposa. Você diz que ela não compreende suas escolhas profissionais e eu suspiro, irritada, porque você é um maldito bebê chorão que nunca cresce”.
“Isso é um pouco duro…”
“Então eu confesso que meu filho não está indo bem na escola e que eu não sei o que faço, porque eu sempre fui muito bem na escola. E aí, o que você me diz?”
“Sobre isso que você pensa de nós?”
“Sobre meu filho não ir bem na escola”
“Sobre seu filho que não existe não ir bem na escola? Bom, eu acho que você deveria sentar com ele e ver qual o problema dele com as matérias… Quantos anos ele tem?”
“Ele tem sete anos”
“Não existe ‘ir bem na escola’ quando se tem sete anos”
“É, porque ele não vai bem”
“Você acha que ele talvez esteja reagindo a problemas familiares?”
“Problemas familiares? Que tipo de problemas familiares?”
“Bom…”, ele gesticula vagamente no ar, “problemas entre ele e o pai… Talvez?”
“Eu trabalho demais. Tenho dois empregos, e enquanto o segundo é suportável, eu frequentemente me tranco no banheiro do primeiro pra chorar no meio do expediente. Não posso falar sobre isso com meu marido, pois sempre brigamos — ele não se fixa num emprego, não tem carreira e fica dizendo pra eu largar o primeiro e ficar só no segundo, eu grito que precisamos pagar o aluguel e a escola do Tommaso — nosso filho — e aí eu…”
“Por que seu filho tem um nome tão italiano?”
“…E aí eu fico cansada e confusa e vou te procurar e fico me questionando onde que a minha vida deu errado”
“Por que você casou com um babaca?”
“Eu não sei! Eu não sei, de verdade”, ela engole seco e os olhos começam a lacrimejar, vermelhos. Talvez seja só o cigarro. “Foi algo que aconteceu…”
“Talvez você devesse largar seu primeiro emprego…”
“Você também vai vir com essa?!”
“…Se está afetando sua vida matrimonial a esse ponto…!”
“Não está! O que afeta minha vida matrimonial é eu ter casado com um cara acomodado que não se importa com o futuro!”
“Pede o divórcio”
“Pra você é fácil falar. Você tem a vida perfeita com sua esposa loira enquanto eu fico amargurada sustentando uma ilusão… Eu nem sei por que eu fui me casar”
“Minha vida não é perfeita. Eu casei… Eu casei só porque ela engravidou”
“Mentira!”
“Verdade! Ela engravidou, eu me desesperei, casamos… E aí ela perdeu o bebê. Mas já tínhamos casado, o que fazer?”
“Nossa, que pesado…”
“Ela me trai e sabe do pior? Eu nem me importo, porque eu cheguei a esse status zen da minha vida: não dou mais a mínima pra nada”
“Você deveria pedir o divórcio…”
“E aí a gente casava um com o outro?”
“Não. A gente não se ama. Pelo menos não de um jeito que pede um casamento”
“Você ama o babaca acomodado?”
“Eu amei, por um momento, sim, eu vislumbrei uma vida inteira com ele, e é por isso que eu insisto tanto…”
“Você está tentando matar a fome com migalhas”
“Isso se chama ‘ser adulto’”
“E por que você fica pensando nesse tipo de coisa? Num casamento falho…?”
“Porque fica mais fácil”, apagou o cigarro no cinzeiro, tomando fôlego mais uma vez. “Fica mais fácil se eu pensar que problemas sempre estarão ao redor, e que a vida nunca será perfeita, é mais próximo do real…”
“Case comigo”
“Quando?”
“No futuro. No seu futuro imaginado, mais próximo do real”
“Não dá. Eu nunca vou te amar dessa forma”
“Você aprende”
“Não dá”
“Subverteremos o que significa ‘amor de casamento’ e cem anos depois de nossa morte o que iniciamos será o novo padrão almejado pela sociedade”
“Ser infeliz e só um pouco não-sozinho vai ser o novo padrão no século que vem?”
“A felicidade é supervalorizada. Sempre foi. No futuro — não no seu futuro, no futuro do seu futuro — nesse futuro, as pessoas aceitam a realidade e, sabendo que nunca ficarão satisfeitas, vivem melhor no presente”
“Então por que elas almejam o nosso casamento?”
“Estamos casados agora?”
“Casamos. Temos dois filhos. Um quintal pequeno demais. Às vezes eu choro escondida ao fazer o café da manhã me questionando onde que a minha vida deu errado”
“Acho que dá pra viver com essa expectativa”, e ele riu.
“Obrigada”

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