Se vira nos 30

Não teve jeito.

A terceira década da minha existência aproxima-se e, considerando que eu não morri até hoje, posso dizer que foi inevitável.

E, se tudo der certo, essa idade emblemática também vai chegar pra você. Se é que ainda não chegou!

Hoje, há alguns dias de completar esse ciclo, olho pra trás e vejo que ao mesmo tempo em que sou a mesma pessoa, tudo mudou. E isso é estranho pra caralho! Sobretudo por que na minha cabeça eu tenho algo entre 14 e 25 anos.

Eu, na minha cabeça.

Pense na sensação de você se tornando alguém diferente de quem sempre achou que é. Pensou? É mais ou menos essa a sensação de envelhecer (pelo menos até os 30 anos).

Você olha no espelho e vê que alguma coisa mudou, mas não sabe bem o que é.

Os amigos mudam, pois com o passar do tempo nem todo mundo é prioridade na nossa vida. Perdemos contato com muita gente, algumas por simples distanciamento e outras por que realmente não queremos por perto. E tem ainda aquelas que você vai eventualmente cortar relações propositalmente, simplesmente por que é melhor assim.

E embora algumas pessoas tenham ficado pra trás, isso não significa necessariamente que caíram no fosso do esquecimento. Elas estão na memória, mesmo que talvez a convivência de antes nunca mais seja restabelecida.

É curioso que isso ao mesmo tempo significa muita coisa e é, de certa forma, irrelevante, por que uma coisa é regra: a vida segue.

Jeito pirata.

Eu percebo que estou a cada dia ficando mais parecido com meu pai. E percebo também que a minha rotina está ficando cada dia mais parecida com a dele. Começo a notar que meu pai está a cada dia mais parecido com a lembrança que tenho do meu avô e que se eu tivesse um filho hoje, ele seria o que eu fui um dia.

Vejo que dos 25 anos pra cá, a minha vida tomou rumos absolutamente inesperados, e que, de alguma forma, ela chegou onde eu sempre quis. Mas tenho certeza absoluta que daqui pra frente nada mais vai ser obra do acaso.

Eu não imaginava me formar em Direito, não imaginava trabalhar onde eu trabalho, não imaginava que um dia fosse conhecer outros países. Mas de alguma forma, sempre soube que a vida seria alguma coisa parecida com isso.

Aliás, é interessante olhar pra trás. Um pouco aterrorizante também. Eu olho pra trás, penso no que tem pela frente e vejo que ainda há tempo pra tudo (mas não vou mentir, a sensação de “putamerda fodi a minha vida” é frequente, mas acho que isso é normal). Pensa comigo, daqui até os meus 60, idade que nem meu pai tem, faltam 30 anos! É tempo suficiente pra ficar rico!

TRINTA FUCKING ANOS!

Na vida a passeio [riso forçado]

Às vezes vem à tona a dura realidade. Eu sinto que estou envelhecendo do jeito mais simples e concreto: as pessoas famosas hoje são mais novas que eu.

Atores e atrizes, artistas pop, Rockstars, jogadores de futebol e apresentadores do telejornal: antes eles eram os adultos do meu ponto de vista. Hoje na maior parte das vezes eu sou mais velho que eles. O que me faz lembrar que envelhecer é complicado, pois pressupõe que você sincronize as idades cronológica e psicológica, as quais, eu tenho quase certeza, no meu caso estão bem desajustadas.

Mas nada é melhor pra me fazer por os dois pés no chão do que alguns adolescentes me chamando de “tio”.

Adolescentes. É curioso como a gente vai se desconectando deles.

Mesmo que na minha cabeça eu ainda seja o mesmo de 15 anos atrás, eu noto facilmente que a paciência não é mais a mesma e o que é interessante pra “molecada de hoje em dia”, além de não me despertar qualquer curiosidade, ainda me faz olhar com um certo desdém. É justamente essa indiferença que cresce dentro da gente que parece nos colocar em um planeta completamente diferente de qualquer pessoa com 5 anos a menos que nós.

Essas olheiras não estavam aí. Nem os óculos que foram propositalmente deixados de fora nessa foto.

Tenho a impressão de estou me tornando o “tio do pavê”, aquele que sempre acha graça das piadas mais retardadas (não no bom sentido), e involuntariamente acaba enchendo o saco ou invés de manter o bom humor em qualquer conversa.

Às vezes eu ainda paro pra pensar que na minha idade meus pais já tinham dois filhos de uns 9 anos de idade (algo impensável pra mim hoje) e estavam se virando.

E eu? Eu não sei.