A hipótese da Gênese da Divindade Obsoleta

O contrapoder morreu. O mito se esfacelou nas mãos dos seus próprios criadores. A piada pronta da imprensa como ferramenta de diálogo social vive em uma infusão mal cheirosa. A imprensa é como uma divindade: vive de um contrato social implícito baseado na crença. E ao oferecer esse ativo, é sustentada pela devolução do mesmo processo mental pelos seus seguidores, os quais chamamos de “leitores”, ou “público”.

Mas, em algum momento, nós, jornalistas, voltamos nossa atenção para as novas formas e tecnologias. Esquecemo-nos do conteúdo. Queremos experimentar novos modelos de publicação, novas ferramentas, novos meios de espetacularizar o essencial: o conteúdo. Quanto mais visual e interativo, melhor. Precisa “parecer” atraente, sem, necessariamente, “ser” atraente. E nunca renovamos nossos modelos de negócios. É o mesmo desde os primórdios da profissão.

A imprensa é como uma divindade: vive de um contrato social implícito baseado na crença. E ao oferecer esse ativo, é sustentada pela devolução do mesmo processo mental pelos seus seguidores

Então o antigo compromisso com a verdade que foi o pilar pelo qual toda a instituição “imprensa” foi erguida passou a apresentar rachaduras. Os leitores não mais acreditam no conteúdo que lhes é oferecido. O conceito do jornalista gate keeper tornou-se tão contemporâneo quanto arenas de gladiadores. Não somos mais nós, jornalistas, que decidimos quais informações são relevantes para o público. Essa equação agregou variáveis e tornou-se um processo mais íntimo e peculiar.

(..) passamos a empacotar informações guiadas por ditames editoriais de aspecto industrial, gerando uma homogeneidade de conteúdo que desdenha de nós mesmos (…) O resultado é o rompimento da capacidade de emocionar e a incapacidade do exercício (de jornalistas e leitores) do olhar humano.

E, com tudo isso, passamos a empacotar informações guiadas por ditames editoriais de aspecto industrial, gerando uma homogeneidade de conteúdo que desdenha de nós mesmos. Não há mais espaço vasto para estilo, narrativa, criatividade, investigação aprofundada, preocupação com estética de texto. O resultado é o rompimento da capacidade de emocionar e a incapacidade do exercício (de jornalistas e leitores) do olhar humano.

O jornalismo ficou sem graça. Deixou de contar histórias, bem contadas. De alimentar a tradição do storytelling que por tantos séculos reuniu a raça humana em volta de fogueiras para partilhar experiências. Com isso a crença nesta instituição definha.

Existe uma crise antiga que vem se agigantando. Mas não se engane: não é uma crise do jornalismo. É uma crise dos jornalistas. É uma crise de identidade, de temperança, de audácia, de discernimento e de combate às injustiças. De força para enfrentar o novo. De sabedoria para empreender e abraçar o erro como mais um degrau no caminho do sucesso. É uma crise de coragem que acomete muitos profissionais que vivem em um cenário com medo do desconhecido.

Os jornalistas que nascem ou desenvolvem o sentimento fugaz de descobrir e contar boas histórias querem achar uma maneira de fazer isso, mas são engolidos pelo mercado e frustram-se com a realidade apática das redações desumanizadas. Esta categoria é engraçada: parecem ter dificuldade para aceitar que seu trabalho é caro, demanda muito tempo e dinheiro. Por isso, aceitam condições impostas pelas fábricas de notícias. Ao serem desvalorizados, desvalorizam seu próprio compromisso com o seu real patrão, o leitor. E o leitor vai deixando de acreditar no que lhe é oferecido pela imprensa.

E quando o cão acuado briga com o próprio rabo, ladra mas deixa de morder, assistimos a gênese da divindade obsoleta.

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