Semana 1

Este ano, quero ver o máximo possível de filmes por vias legais. A ideia me ocorreu sem planejamento e tendo visto já três filmes em 2016, dois via cine-torrent: Phoenix, do Christian Petzold, que perdi há pouco nos cinemas de São Paulo; e Coherence, que quis rever para ter certeza de que vale mesmo entrar na lista dos melhores de 2014. O problema é que vale, muito. Mas até hoje, o jeito legal mais fácil de ver essa beleza do sci-fi-de-sala-de-jantar é comprando o DVD nos sites da Amazon dos USA (US$ 22,90) ou do Reino Unido (£5,00).

Lançado comercialmente em agosto de 2014 via VOD, Coherence só chegou em algumas salas de cinema dos EUA via festivais. Mesmo seu lançamento comercial tendo sido online, o que deveria facilitar a negociação dos seus direitos de distribuição para outros mercados além do americano, o filme não está disponível no iTunes ou Google Play locais, nem na Netflix BR, única plataforma de streaming de filmes com um catálogo acima de ínfimo no Brasil. Se a ameaça passiva daquele YOU WOULDN’T STEAL A CAR produzisse o efeito desejado, até hoje não teria visto Coherence - ou teria dado um jeito de conseguir a versão de £5,00, vá lá.

O terceiro filme que vi em 2016 e primeiro cujo play vai gerar algum centavo para alguém foi Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You, EUA, 1997), via Netflix. Quando considerei tentar andar no lado da legalidade, percebi que, além dos bem abastecidos, mas caros cinemas locais, da Netflix e da minha coleção estagnada de blu-rays e DVDs, ainda não tenho outras opções para manter uma oferta de filmes realmente diversificada à mão: das mais de 10 décadas de cinema, saídos de todos os continentes, feitos pelo mais variado espectro de bípedes capazes de segurarem uma câmera.

De imediato, pensei que não passaria da noite de hoje sem recorrer ao YOU WOULDN’T STEAL A HANDBAG, mas dei uma *boa* passeada pela Netflix e, além de achar os melhores títulos da última grande década de Woody Allen — Tiros na Broadway (1994), Poderosa Afrodite (1995), Desconstruindo Harry (1997) e Poucas e Boas (1999) — topei com ao menos quatro filmes que já estavam há meses na minha lista de prioridades e mais acessíveis que as vergonhas da dona Plim-Plim, sendo que alguns nem passaram pelos cinemas daqui. Em ordem de importância:

  1. Procurando Elly (Darbareye Elly, Irã/França, 2009)

O primeiro filme do iraniano Asghar Farhadi, Procurando Elly entrou no meu radar ano passado porque só então estreou nos cinemas americanos, gerando uma enxurrada de novas críticas superlativas. A Separação e O Passado, filmes que Farhadi lançou em 2011 e 2013, são tão essenciais quanto as crias mais unânimes de Paul Thomas Anderson, e com o mesmo senso calibrado de entretenimento.

2. Results (EUA, 2015)

Primeiro filme de estúdio de Andrew Bujalski, diretor de Computer Chess, nerdêra mais gracinha do cinema americano recente. Tá verdão no Metacritic.

3. The Duke of Burgundy (Reino Unido/Hungria, 2015)

O filme anterior de Peter Strickland, Berberian Sound Studio (UK, 2012) foi bem elogiado e achei bem ruim (baita visual, mas Toby Jones já naquela competência automática e um incitação constante e entediante a algo… que está… para acontecer… mas será… SERÁ… que vai…? Ah, à merda, pfv). Mas Duke of Burgundy tem colhido uns louvores bem mais afinados e entrou com força em várias listas de melhores de 2015.

4. Rio Perdido (Lost River, EUA, 2014)

Se você forçar bem a memória, deve conseguir lembrar o tamanho da empolgação disparada pelo anúncio do primeiro filme de Ryan Gosling como diretor. No elenco: Eva Mendes, Christina Hendricks, Soirse Ronan e Ben Mendelsohn, uma reunião de street credit tão distinta quanto a entourage do Sonic Youth nos anos 1990. Daí o filme foi exibido em Cannes e hey girl, que tragédia. Até a dona do Feminist Ryan Gosling deve ter chorado de desgosto com o tom das resenhas. O consenso: Lost River é tão ruim que enfeiou seu diretor. Se um filme provoca um efeito tão extremo, já pode ser alçado a artefato indianajonesco que demanda análise minuciosa, a ser feita com a ajuda do Sr. Spliff. Só reservar umas horas na agenda e se refastelar com esse desastre alheio.

Além das opções de curto alcance do sofá, a mostra David Lean ainda segue no CCBB, com a exibição dos seguintes filmes em película nos próximos dias (aqui, a programação completa):

Quarta-feira, 06 de janeiro
 16h –Passagem para a India (A Passage to India/35mm)
 19h –A História de uma Mulher (The Passionate Friends/35mm)

Quinta-feira, 07 de janeiro
 16h30 — Madeleine (35mm)
 18h30 –Desencanto (Brief Encounter/35mm)

Sexta-feira, 08 de janeiro
 15h30 –A História de uma Mulher (The Passionate Friends/35mm)
 17h30 — A Filha de Ryan (Ryan’s Daughter/35mm)

Sábado, 09 de janeiro
 14h30 — Doutor Jivago (Doctor Zhivago/35mm)
 18h –Passagem para a India (A Passage to India/35mm)

Domingo, 10 de janeiro
 15h30 — A Ponte do Rio Kwai (The Bridge on the River Kwai/35mm)
 18h30 –Desencanto (Brief Encounter/35mm)

E tem uma penca de filmes válidos em exibição no circuito, lista que só deve aumentar nas próximas semanas por conta das estreias da temporada de premiações. Dois que devem sair de cartaz logo mais e merecem um enfrentamento de trânsito pós-expediente em horário de pico + investimento de R$ TRINTA E DEZ REAIS:

Macbeth - Ambição e Guerra (Reino Unido/França/UK, 2015) - quem coloca Michael Fassbender e Marion Cotillard para liderar a adaptação de um dos títulos mais rodados do Globe Theatre deve estar tentando esconder defeito de roteiro engessado com sexyness overload. A árvore adubada pelo cadáver de Shakespeare certamente aplaudiu a decisão.

Mia Madre (Itália/França, 2015) - o novo do sempre confiável Nanni Moretti foi eleito o melhor de 2015 pela Cahiers du Cinema, que também colocou seu filme anterior - aquele très bacana dos papas fazendo remake da partida de vôlei de Top Gun dentro do Vaticano - em 1º lugar na lista de 2011. Ver Mia Madre também deve ajudar a entender porque a Cahiers dá tanta chancela para este homem.

Tem título aí para sustentar umas três semanas de sessões satisfatórias. A ideia desse blog é aglomerar mais serviço e documentar o estado da distribuição de filmes no país - divulgação por aqui geralmente se concentra em títulos que nem precisam dessa muleta para andarem sozinhos, por isso acredito que distribuição no BR seja até decente, só não é bem anunciada - com posts ocasionais descrevendo buscas como essa. Ainda há boas, $$$ e inexploradas opções para manter a diversidade de oferta, como a plataforma Mubi, TV por assinatura e sebos. Quando $ virar $$, elas serão devidamente acionadas.