Semana 32 — buscando o equilíbrio de gênero por vias legais, parte I

Antes do bonde do zeitgeist fazer uma parada de décadas de atraso na discussão de equilíbrio de gênero no cinema, eu conseguia citar de cabeça alguns poucos nomes de diretoras, menos ainda de diretoras entre artistas favoritos, como Claire Denis, Sofia Coppola, Kathryn Bigelow, Jane Campion, Amy Heckerling, Susanna White, Michelle MacLaren e mais algumas poucas alcunhas.
À medida que tal discussão foi se impondo como uma correção que precisa ser feita com urgência, percebi a necessidade de fazer um esforço extra para localizar, assistir e divulgar o que é feito pelo gênero com menor representatividade, seguindo sempre o norte da qualidade, e não da cota, o que demanda um trabalho extra (afinal, tem Nancy Meyers todo dia na tv aberta), mas bem mais prazeroso. Difícil foi tentar honrar a prerrogativa de não apelar para downloads ilegais: se tenho conseguido manter uma boa e diversificada média de filmes feitos por homens vistos via cinema, home video e plataformas de streaming, o mesmo vai acontecer com os que são feitos por mulheres, certo?
FAZ TEU NOME, SAD TROMBONE!
Só 18 dos 72 filmes que assisti até hoje ao longo de 2016 foram dirigidos ou co-dirigidos por mulheres; 6 desses, assisti via torrents. A proporção despenca ao contar os filmes dirigidos/co-dirigidos por homens: dos 56, apenas 4 por vias ilegais. Só consegui aumentar a média de filmes feitos por elas apelando para a ilegalidade com mais constância.
Como a ideia é achar qualidade robusta e equiparada, tive que ir mais vezes além do sistema legal de distribuição para fortalecer o lado delas, me embolando num catch-22 enquanto brasileiro desempregado: é possível que esses filmes não tenham sido distribuídos no Brasil por causa de dúvidas sobre alcance comercial já em seus países de origem. Baixando-os ilegalmente, não coloquei dinheiro nas mãos das poucas pessoas jurídicas que apostaram em algum retorno financeiro disponibilizando-os em DVD, por exemplo, enfraquecendo mais ainda o injusto ciclo de financiamento de obras feitas por mulheres. Mas fica aqui a promessa de gastar dinheiros no que vi e gostei via torrents assim que riscarem mais uma folhinha da minha CLT.
Nessa busca, a crítica é a bússola mais acurada. Usei duas fontes constantes de pesquisa para achar a maioria de alguns nomes até então inéditos para mim: Essa lista do blog The Playlist, que enumera as 20 melhores estreias de mulheres na direção; e artigos da edição The Female Gaze da revista Sight & Sound, de outubro de 2015. Como a publicação só é comercializada na Inglaterra e não disponibilizam o conteúdo online, uma boa alma do Letterbox subiu em seu perfil uma lista bem importante publicada nessa edição: a de 100 filmes subestimados feitos por mulheres.
Vou listar todos os filmes que vi com mulheres no comando/co-comando, mais país de origem, classificação e breves notas sobre os que devem ser vistos com urgência, para aumentar a qualidade da oferta elevando o grito da demanda. Neste post, coloco os 6 que vi até hoje por meio de downloads. Publico posteriormente sobre os que assisti via streaming e cinema, falando mais de quem merece mais atenção.
The Forest for the Trees (2003)***** — Maren Ade — Alemanha

Filmes sobre professores tímidos tentando domar crianças já ganham em empatia sem se afastar muito da linha de saída. Mas a estreia de Ade estende essa necessidade de se impor diante de quem lhe ignora também para a vida social de sua protagonista, e ainda expõe a narrativa em primeira pessoa, provocando uma tensão entre constrangimento e ternura alheios tão inédita que é impossível não explodir de compaixão por quem perde o tato social de quando em vez, ainda mais com esse Grandaddy musicando um final que tira um merecido e melancólico descanso do realismo do filme. Ade também tem um senso de espaço absurdamente eficiente: a posição dos personagens nos cenários/locações mira o mesmo efeito dramático de um Kurosawa e acerta na maioria das vezes.
Everyone Else (2009) *** — Maren Ade — Alemanha
A alemã Maren Ade estreou na última edição de Cannes o filme mais elogiado do festival, Toni Erdmann. Seus dois filmes anteriores nunca foram distribuidos comercialmente no Brasil, mesmo colhendo elogios mais vendáveis que 90% do que o Reserva Cultural exibiu em 2016. Ade escreve sozinha tudo o que dirige, além de ser produtora workaholic (co-produziu todos os longas do cineasta português Miguel Gomes, responsável por Tabu, #3 na minha lista de favoritos de 2013). Ela não só bate o Bingo Auteur Bazin como é uma businesslady importante no cinema europeu.
Mas distribuidores BR continuam ignorando-a: Toni Erdmann segue sem data de estreia e distribuidora por aqui, enquanto o natimorto Julieta, que mal teve tempo de se recuperar das resenhas negativas que recebeu em Cannes, segue no circuito. Como porteiros culturais, as distribuidoras precisam parar de tratar cineastas como marcas que atraem público independente de qualidade, sob risco de se igualar ao cinema que se dizem uma ótima alternativa contra: o da Marvel. Pior: o da Marvel pós-Avengers 2. Almodóvar virou a Tok & Stok do circuito de arte: a estética ainda é ok, mas o resto é puro truque. Se não há disposição em apostar em vozes novas e atraentes como a da Ade, a queda desses dinossauros caleijados vai deixar muita poeira atrapalhando a percepção de alternativas melhores.
The Ascent (1976)***** — Larisa Shepitko — União Soviética

Raro filme dirigido por uma mulher sobre a Segunda Guerra Mundial, The Ascent também escolheu um lugar pouco explorado pelo cinema para retratar o período — ocupação nazista em território bielorruso — e mostrar como dois homens de índoles distintas se comportam sob a pressão de serem capturados pelo inimigo. Shepitko aproveita o cenário coberto de neve para criar espaços negativos acachapantes, muito para amortecer com estética o peso dramático da história. Ela mostra uma linguagem própria de cinema ao filmar cenas ordinárias em filmes de guerra do tipo: suas sequências de captura e de interrogatório focam tanto no suspense esperado dessas situações como ainda traduzem visualmente o fluxo de consciência dos protagonistas. Como um Dostoiévski em seus momentos mais pândegos, Shepitko ainda tem as manhas de jogar piadas inesperadas em momentos trágicos, fortalecendo ainda mais o impacto desses extremos emotivos.
Ao contrário dos do seu amigo Tarkovsky, os filmes de Shepitko não existem no Brasil. Parte da razão pela qual a posteridade tem sido injusta com ela é, ironicamente, o que costuma atrair ainda mais atenção para um artista: sua morte prematura, aos 41 anos, num acidente de carro.

Depois que a Criterion lançou, em 2008, 50% de sua filmografia nesse box, mais pessoas vêm engrossando o coro de que suas contribuições para o cinema soviético foram tão importantes quanto as de seu amigo mais famoso. Dois artigos para saber mais sobre esse gênio: esse perfil no Guardian, que foca mais em sua vida pessoal; e essa resenha do box da Criterion publicada pelo NY Times, que analisa seus filmes no contexto da história do cinema soviético.
Girlfriends (1978)**** — Claudia Weill — EUA

O filme de estreia de Claudia Weill é a mãe conceitual de Frances Ha, Girls e Broad City, e ainda exibe a mesma firmeza, simpatia, humor e coragem da prole. Em entrevista publicada em 1980, Stanley Kubrick, ao responder se estava interessado nos novos caminhos do cinema hollywoodiano apontados por cineastas como Scorsese, Spielberg e Coppola, ignorou todos os nomes citados pelo entrevistador e gastou umas boas linhas falando do quanto tinha gostado da estreia de Weill. Lena Dunham e Greta Gerwig dão os devidos créditos a ela sempre que possível. Ainda assim, o filme só existe num DVD insosso da Warner Archives. Mas deve ter alguém agora no porão da Criterion preparando-o para a glória que merece.
Eden (2014)*** — Mia Hansen-Løve — França
Impressionante como esse acerta muito bem o que é difícil de captar em filme — o porquê de uma pista pegando fogo ser o melhor lugar do mundo em tal momento — mas faz mal um tipo de drama juvenil que não demanda muito esforço para ser bem construído. O problema é a teimosia da diretora Mia Hansen-Løve e seu irmão Sven Hansen-Løve — co-roteirista cujas experiências pessoais foram transferidas para o protagonista — em contar com algum drama o que deveria ser uma baita comédia sobre os perrengues de frequentar assiduamente o by night.
Half Baked (1998)*** — Tamra Davis — EUA

Boa comédia com a melhor revirada de olhos do cinema.