Foster Wallace e Eu

O frisson em torno do nome de David Foster Wallace não torna fácil a leitura de seus textos. Já impus desafios à minha resiliência de leitura, com Proust, por exemplo, mas ler um dos volumes de Em busca do Tempo Perdido é um passeio no bosque perto da tarefa de entrar em sintonia com Graça Infinita, a maior obra de Wallace. Em cada capítulo, uma narrativa nova e estranha, com um estilo distinto do anterior, personagens desconectados uns dos outros, e situações tão excêntricas quanto verossímeis, em meio a eventos que se passam em um momento difícil de determinar — medir tempo em horas, dias, meses e anos em sequência é coisa para principiantes. A obra exige trabalho laborioso do leitor, que precisa de vários marcadores à mão para partes distintas do livro ao mesmo tempo, exigindo consultas a todo momento (a notas no final formariam talvez um outro livro — não seria ruim ter uma cópia separada à mão durante a labuta).

Por ora, não fui páreo para o desafio; não cumpri a missão, mesmo estando ansioso para mais uma tentativa (fico ansioso só de ter aquele cartapácio olhando para mim o tempo todo na estante). Quem sabe no ano que vem… Mesmo assim, sou fã de Wallace por suas crônicas e textos curtos. Não é senão com indescritível prazer que percebemos a sagacidade cínica em torno de temas banais — de feiras agrícolas a campeões de tênis. Um observador atento em captar as nuances de comportamento em homens e mulheres comuns, que ocultam um mundo de acontecimentos e esperanças atrás de seus semblantes ordinários, Wallace diagnostica o que se passa na realidade de cada indivíduo, sem recorrer a descrições pormenorizadas ou complexas.

Ordinária também era sua vida; é provável que não via muita diferença entre as histórias que contava e sua própria rotina. Talvez por isso relatava tão bem o significado de cada manifestação de alegria ou tristeza das pessoas que descrevia, relacionando-o com sua própria incapacidade de lidar com a realidade. Não é difícil entender por que o escritor parecia ter tanta proximidade com a realidade íntima de personagens tão humanos: sofrendo de depressão a maior parte de sua vida, Wallace acabou entregando-se a uma de suas crises, e se matou em 2008. Aqueles que sofreram com episódios de depressão parecem ter adquirido uma habilidade incomum de enxergar o que está por trás de cada gesto, conversa ou reação das pessoas. Eles mesmos são obrigados a esconder o desespero diariamente, enquanto tentam continuar a viver a despeito dos desafios que aparecem a todo momento.

Minha epifania com os escritos de Wallace veio com um texto, republicado pela revista brasileira Piauí alguns meses depois de sua morte. O ensaio resumia um discurso que Wallace fez para uma turma de formandos de ciências humanas do Kenyon College, no ano de 2005, à época intitulado This is Water. Na edição brasileira, tornou-se A Liberdade de Ver os Outros. Quase cirurgicamente, Wallace aponta aqui o motivo da nossa insatisfação crônica. Para ele, nascemos com uma “configuração padrão” mental difícil de ser revertida: a visão de que tudo que acontece no mundo parece dizer respeito apenas a nós. Não é egoísmo; pensar assim é tão automático que não precisamos nem decidir fazê-lo.

DFW discursando.

No momento da colação de grau, todo formando de sucesso no seu curso espera ter, ao menos, aprendido a pensar melhor; a fala de Wallace questiona essa certeza. Para ele, a real educação não é conhecimento técnico ou sapiência adquirida nos bancos da faculdade. Educar-se para a vida é ter a habilidade de estar consciente da realidade em volta do nosso dia a dia mais ordinário e mesquinho, e poder escolher o que extrair desta experiência, já que nossas ferramentas de pensamento nos iludem para um universo que parece criado em torno de nós, onde acontecimentos dizem respeito à nossa vida, sempre. Ou seja, pensar nós já sabemos como, o importante é aprender a escolher o que pensar. Prestar atenção no que acontece com os outros é libertar-se destas amarras, e quase que instantaneamente entender como a vida pode ser diferente.

No entanto, sejamos honestos. É tão automático achar que o mundo só acontece em nossa função que deixa de ser uma escolha. Aprender e refinar a habilidade de pensar diferente é fatigante. Liberdade de viver de verdade é poder escolher o que pensar — ao mesmo tempo, é assustador perceber como quase ninguém consegue, porque não viemos de fábrica com esta habilidade. Somos criaturas imobilizadas pela insegurança, implorando por atenção e reconhecimento, em meio a uma rotina de irrelevâncias estampadas no rosto daqueles que supõe saber de algo que não sabem, ou sentir algo que não sentem de verdade. Vivemos o drama de precisar fazer algo que nos distinga deste grupo incontável de pessoas que parecem já ter feito tudo que gostaríamos de fazer.

A contundência daquelas palavras fez-me desmoronar. Destaquei o texto da revista, guardei numa gaveta dentro da mesinha de cabeceira, reli sempre que me deu vontade. Sem saber se consegui compreender sua mensagem, sujeito-me diariamente à busca da liberdade indicada por ele. A depressão no mundo estaria em extinção caso fosse fácil burlar a predisposição em achar que somos a única coisa relevante, e o resto um complemento secundário para nossos propósitos. A luta interna pela liberdade é o que importa, por isso ela é muito mais difícil que qualquer outra.

Atualização (em 1/3/2017): De Janeiro até aqui, encarei o desafio e li, capa a capa, Graça Infinita, precisamente 1002 páginas. O que achei? Quem sabe em outro texto, pois ainda reflito sobre aquilo tudo.

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