1. Dez cuidados para se ter com Futurismo

(*O primeiro de uma série de dez posts.)

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Seriado ‘Black Mirror’: reflexões interessantes sobre o comportamento humano num Futuro Emergente.

A virada de ano está aí. E, com ela, chegam as previsões para 2016.

Economistas fazem previsões sobre o dólar. Cientistas políticos fazem previsões sobre o impeachment. Ambientalistas fazem previsões sobre o aquecimento global. Comentaristas fazem previsões sobre a Libertadores.

E por aí vai.

Aproveitando tanta previsão, achei que este poderia ser um bom momento para falar de Futurismo.

Explico.

Back to the Future II e o fatídico dia 21 de outubro de 2015.

O Futurismo, campo de estudo que até pouco tempo era privilégio de uma minoria, está cada vez mais popular. Ganhou as redes sociais e já nem causa tanta estranheza. Além disso, é possível perceber as universidades se mexendo para lançar suas iniciativas já em 2017.

Só falta virar matéria no Fantástico.

Particularmente, eu acho tudo isso ótimo. Já pensou, um assunto tão importante ficar restrito a meia dúzia de pensadores?

Nos EUA, a disseminação do Futurismo em larga escala já é uma conversa madura. Na minha última viagem ao Vale do Silício, agora em dezembro, conversei com uma liderança universitária que comentou:

“Futurismo — pela sua importância — deveria ser uma disciplina transversal — e obrigatória — em todos os cursos de graduação nos Estados Unidos. Estamos trabalhando nisso”.

Eu adoro a ideia da popularização do Futurismo. Se você me conhece, sabe que sou extremamente engajado em fazer a disseminação desses conceitos (e, se você me conhece bem, sabe que tem muita coisa legal reservada para 2016).

Torço para que o Futurismo seja mais Orkut e menos Pinterest.

Singularity University: um dos maiores vetores de popularização do Futurismo no mundo.

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Porém, como era de se esperar, a popularização também está trazendo algum grau de confusão.

Natural: numa área tão nova, especialmente em terras brasileiras, é compreensível que se misturem maçãs e laranjas.

Por isso, achei que este final de ano — o momento em que pipocam previsões de todos os lados — poderia ser um bom pano de fundo para compartilhar algumas ideias que tenho a respeito do assunto.

Mas já antecipo: não quero ser o dono da verdade. Acho que essa é uma visão, das muitas visões possíveis.

E a minha própria visão muda. Evolui. E (por que não?) pode vir a se contradizer ali na frente. Não estranhe se esse post ganhar edições de tempos em tempos.

Fachada do Institute for the Future, em Palo Alto.
“Dez cuidados para se ter com Futurismo.”
  1. Parece prudente que, antes de falar de Futurismo, se tenha pelo menos um conceito sobre o assunto.

Justamente por ser um campo muito abrangente e incipiente, congregando estudiosos de diferentes áreas, o Futurismo não tem — até hoje — uma definição universal.

Esse limbo foi mal interpretado por alguns, que partiram do pressuposto que qualquer coisa sobre futuro é Futurismo. E começaram a usar o termo sem muito cuidado e investigação.

Não é bem por aí.

Porque, se de um lado não existe um único conceito, de outro há algum consenso entre o que não é Futurismo.

Por isso, cuidado. Na dúvida, não ultrapasse.

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Eu bebi de muitas fontes para formar o conceito com o qual trabalho. E não veio da noite para o dia: demorei algumas milhares de horas de estudos (falaremos disso nos próximos posts) até ter algo mais concreto para dividir:

Futurismo é a disciplina que investiga, explora, traduz e acelera as possibilidades de um futuro pós-emergente. A ideia é observar como as evidências encontradas na ciência, na tecnologia e no empreendedorismo/mundo dos negócios podem afetar a cultura, os novos comportamentos e as novas estruturas da sociedade – aumentando nossa consciência e, assim, nos ajudando a tomar melhores decisões para gerar impacto positivo no mundo de hoje e de amanhã.”

Mas, até bem pouco tempo, eu usava essa definição aqui:

Futurismo é a disciplina que se propõe a imaginar cenários futuros, num tempo pós-emergente, sob forte influência do pensamento científico (e recolhendo evidências na própria ciência, tecnologia e empreendedorismo/mundo dos negócios) com três grandes intenções: explorar possibilidades distantes da nossa realidade, traduzir estas abstrações para o grande público de maneira empática – ajudando, assim, a sociedade a tomar melhores decisões no presente.

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Ou seja: só explicar o que é Futurismo já dá um belo trabalho. Imagina falar sobre Futurismo.

Pois é. Bem-vindo ao meu mundo.

E neste mundo, eu sugiro irmos por partes e analisarmos algumas palavras que surgiram acima:

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*Imaginar: imaginar é trazer à mente algo que nunca foi captado pelos sentidos. Se você nunca viu um cavalo azul, e consegue conceber essa imagem na sua cabeça, pronto: estamos falando de imaginação.

Imaginação não é criatividade — é uma das matérias-primas da criatividade. Criatividade é conectar pontos da nossa imaginação e repertório para resolver um problema de forma viável e inusitada.

Agora que você viu, não é mais imaginação: é repertório.

O trabalho do Futurista, portanto, não é adivinhar o futuro. Quem gosta de adivinhar o futuro é profeta.

(Por sinal, há muito futurista famoso que se perdeu nessa curva — falaremos disso nos próximos posts).

O que seria um profeta digital?

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*Tempo pós-emergente

No Futurismo, nós costumamos trabalhar com pelo menos cinco grandes segmentos de tempo (imaginando um tempo linear, no caso).

Passado, Presente, Futuro Emergente, Futuri Pós-Emergente e Futuro (ou Futuro-Futuro).

Passado é o que aconteceu. Presente é o que está acontecendo. Futuro Emergente é o que virá no curto prazo (próximos cinco anos). Pós-emergente é entre cinco e dez anos. E Futuro é o que virá lá na frente (dez anos ou mais).

Há muitas disciplinas importantes que trabalham orientadas para o Futuro Emergente (falaremos disso nos próximos posts). O próprio Futurismo, vez por outra, navega por esses mares.

Mas, em geral, os Futuristas tentam criar cenários de uma década. Não é regra, mas é um praxe.

Claro: quando você exercita um mundo daqui dez anos, necessariamente passa pelo Futuro Emergente. Então, existe uma área comum onde todas essas disciplinas convergem e conversam.

Os carros autônomos, como o do Google, são muito mais Futuro Emergente do que Pós-emergente.

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*Sob forte influência do pensamento científico.

O método científico é o que orienta os Futuristas. Mas isso não significa que o Futurismo seja frio, asséptico e desumano.

Pelo contrário.

Quando falamos isso, estamos dizendo que existe um parte do trabalho do Futurista que leva em conta dados e fatos, modelos matemáticos e matrizes mais objetivas.

feeling? Há, claro. Há subjetividade? Sem dúvida. Mas os processos envolvidos no Futurismo tentam diminuir esses achismos, especialmente os borrões sem base em evidências.

Além disso, o Futurismo aceita a sua total ignorância e maleabilidade (como o método científico também o faz). Essa é a melhor explicação que temos para isso AGORA. Mas se tivermos uma definição melhor amanhã, é com ela que vamos.

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*Recolhendo evidências na própria ciência, tecnologia e empreendedorismo/mundo dos negócios

Os Futuristas olham para todos as grandes campos do comportamento humano, como a sociologia, a antropologia, a psicologia e a economia.

Mas quem mais inspira essa galerinha costumam ser esses três campos. Até porque, dependendo do olhar, elas podem ser transversais a todas as outras disciplinas — são causa e efeito desses movimentos.

Uma espécie de paradoxo: as novas tecnologias, as descobertas científicas e as empresas são o motivo — e o resultado — de novos valores sociológicos, antropológicos, psicológicos e econômicos da sociedade.

Então, em vez de ficar andando em círculos, para decidir se o ovo veio antes da galinha ou se a galinha veio antes do ovo, os Futuristas decidiram fincar o pé — e focar num lugar só.

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Agora, vale um parênteses para o termo tecnologia.

Talvez, de todos os itens da minha definição, esse chega o com maior grau de licença poética. O conceito do termo tecnologia é amplo e passível de infinitas contestações.

Eu mesmo, fiz uma apresentação na Singularity defendendo que o abraço era uma tecnologia.

Portanto: não sejamos cartesianos. Como gosto de dizer: os Futuristas usam as novas tecnologias como um guia — não como um cão-guia, não de forma cega.

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*Explorar possibilidades: como foi comentado acima, o Futurismo é mais exploratório do que premonitório*.

E essa exploração acontece num mundo distante da nossa realidade.

Este é um limitador. Seja pela falta de ferramentas, seja pela dificuldade de ampliar a zona de conforto, seja pela incapacidade imaginativa — ou seja por simples desinteresse.

Os motivos são muitos. Mas o fato é que poucos querem, e pouquíssimos querem e conseguem explorar essa névoa de incertezas.

Interstellar: Nolan traduz para o grande público os princípios básicos do espaço-tempo de Einstein.

(*Agora, cá pra nós: apesar de não ser o objetivo, é muito legal quando a gente explora um cenário futuro e ele vira presente. Dá uma sensação de dever cumprido.)

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*Traduzir estas abstrações: parte do trabalho de Futurista é captar sinais. Parte é deixar que esses sinais nos catapultem a cenários futuros. E parte é tangibilizar esses cenários num discurso amigável.

Ou seja: é tarefa do Futurista saber conduzir as pessoas às realidades que, até então, só ele imaginou.

É por isso que alguns dos maiores autores de ficção científica são venerados pelos grandes Futuristas. Porque eles são grandes Futuristas.

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*De maneira empática: este pequeno capítulo talvez merecesse um post inteiro, tamanha a recorrência.

Pois então: um comportamento comum entre alguns palestrantes é querer chocar. Mais do que transmitir uma ideia, um conceito, uma possibilidade, eles querem mostrar uma coisa que deixe o público mal da cabeça.

Do que adianta chocar, se o papel do Futurista não é este?

Eu já cansei de ver gente subir ao palco, apresentar um monte de tecnologias disruptivas e criar um pânico no auditório. Depois vão lá, pegam o cachê, vão embora — e deixam o público órfão, com a granada na mão.

Eu não acho que essa seja a postura de um Futurista. Pelo menos, não de um bom Futurista.

Os Futuristas que admiro sempre, sem exceção, souberam conduzir o fluxo de informação com início, meio e fim.

Sempre os vi iniciando com uma introdução convidativa, para deixar todo mundo na mesma página.

Só depois desse preparo é que eles começaram a compartilhar o novo. Muitas vezes, esse novo até choca — mas sempre está a serviço de um conceito maior.

E nunca, nunca terminaram sem oferecer possibilidades e ferramentas para quem se sentiu desconfortável.

Futurismo sem empatia mais atrapalha do que ajuda.

Jason Silva: um dos melhores tradutores de Futurismo que existem atualmente.

Se você já participou dos nossos cursos de Futurismo, sabe do cuidado que eu tenho em criar um storytelling inclusivo e não exclusivo.

Isso, para mim, é respeito.

Certa vez, ouvi: Respect is Re-spect. It means ‘to look again’.

Essa é minha dica: quando você tiver em mãos um conteúdo com poder de chocar o público, tenha respeito. Olhe de novo. Traduza melhor.

Você já tinha pensado sobre isso?

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*Tomar melhores decisões no presente.

Uma das perguntas que mais ouço é: Tiago, se a vida é agora, por que pensar tanto no futuro?

Para elas, eu tenho sempre a mesma resposta: Philip Zimbardo.

Zimbardo é considerado por muitos o maior psicólogo do mundo. Ganhou fama internacional ao realizar o experimento conhecido como Prisão de Stanford, em que ele simulou o funcionamento de uma penitenciária — com voluntários que agiam como guardas e prisioneiros. A treta foi grande.

Apesar de polêmico, o experimento deu repercussão mundial a Zimbardo.

Zimbardo também é autor do livro Time Paradox, em que ele explica as diferenças de orientação temporal das pessoas.

Meu objetivo aqui não é fazer uma resenha do livro, mas a saber: para Zimbardo, o segredo da felicidade é encontrar o equilíbrio entre um passado extremamente otimista, um presente levemente hedonista e uma noção de futuro altamente responsável. Por responsável, entenda-se: a capacidade de fazer investimentos hoje para ter ganhos amanhã.

O Futurismo nada mais é do que uma ferramenta para entendermos essas questões.

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Como comentei no início do texto: este é o primeiro de uma série de dez posts que pretendo publicar nos próximos dias.

Torço para que não tenha ficado muito professoral. Nem muito autoritário.

Apesar de ter passado por cursos e imersões em Futurismo, não me considero um Futurista formado.

Sei que tenho muito chão pela frente.

Portanto, se você discorda, seu feedback será muito bem-vindo.

É do diálogo que nascem as grandes ideias.

Beijos, abraços.

Tiago.

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