4. Hoje, Futurismo é uma profissão. Amanhã, será uma skill. E você terá que dominá-la.
*Quarto post da série ‘Cuidados para se ter com Futurismo’.

Olá. Seja bem-vindo.
Se você caiu aqui por acaso, não deve fazer ideia que este é o quarto post de uma série que aborda ‘Cuidados para se ter com Futurismo’.
Sugiro, antes de qualquer coisa, que você clique aqui, aqui e aqui. A tríade é a antessala, o preâmbulo, o couvert perfeito que você deguste com mais sabor o texto abaixo.
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“Dez Cuidados Para Se Ter Com Futurismo”
4. Hoje, Futurismo é um profissão. Amanhã, será uma skill. E você terá que dominá-la.

Fiz Vestibular em 1996.
Já são 20 anos. Mas, para mim, parece um século.
Pense comigo: naquela época, quase ninguém tinha internet em casa. Apesar de alguns provedores já oferecerem o serviço (reza a lenda que a internet comercial brasileira nasceu entre 1994 e 1995), o consenso era de que a web se prestava muito mais a fins profissionais. Eram poucos os pais que entendiam o impacto que a revolução digital teria nas nossas vidas.
Por sorte, os meus entendiam.
Graças a eles, começamos a viver um mundo ciberneticamente misterioso — onde Netscape, Cadê e mIRC ocupavam os espaços que, hoje, são de Chrome, Google e Facebook.
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Ninguém precisa ter vivido nessa época para concluir que, em 1996, o mundo era muito mais linear e cartesiano. Por isso, não é dificil de imaginar que, quando você prestava Vestibular, a expectativa dos seus pais era que você estava escolhendo uma carreira para toda a vida.
E fazia todo o sentido. Afinal de contas, assim foram educados pelos nossos avós.
“Consiga uma vaga numa empresa sólida, que lhe dê segurança. Trabalhe duro para crescer na hierarquia. Chegue no cargo mais alto possível. Tudo isso lhe garantirá uma aposentaria com muitos benefícios.”
Poucos eram os pais que entendiam que o mundo do trabalho estava prestes a se reconfigurar totalmente — muito em função da própria internet.
Por sorte, os meus entendiam.
Lembro que, quando prestei Vestibular, estava na dúvida entre administração, jornalismo e publicidade. Fui pedir conselhos ao meu pai, que foi muito feliz ao dizer:
“Tiago, escolha qualquer curso. Isso terá pouca interferência no seu futuro. A sua profissão ainda nem existe.”
De fato, não existia.
Escolas livres — com foco na indústria criativa, com abordagens mais contemporâneas, nos moldes da Perestroika — hoje são populares. Mas, na época, não existiam no Brasil.
Assim como o Futurismo. Se hoje ele é familiar a uma minoria, imagine há duas décadas. Mal engatinhava em terras brazucas.

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Costumo dizer que tive quatro encarnações profissionais.
A primeira, como comunicador.
Depois, educador.
Em seguida, assumi a atividade de empreendedor.
E agora, estou na condição de Futurista.
Para alguns, isso é estranho. É como se eu fosse um indeciso, que não gosta de nada e que pula de galho em galho em busca de novos desafios.
Para mim, é justamente o contrário. É o direito que me dou de experimentar várias paixões diferentes, sem as estratificações e departamentalizações obtusas da Revolução Industrial.
Essa encarnações, inclusive, serão natural para os nossos filhos — que acharão muito careta uma pessoa que viveu a vida inteira dentro do mesmo mercado.
Nunca pensou sobre isso? Eu ajudo.

Todos sabemos que os processos de trabalho que conhecemos hoje têm uma grande influência da Revolução Industrial.
Dentro da fábrica, cada profissional (ou grupo de profissionais) ficava responsável por uma única atividade. Uns apertavam parafusos. Uns embalavam os produtos. Uns colavam as etiquetas.
Quanto mais executasse a mesma tarefa, mais rápido seria o ganho de escala — e maior seria o sorriso do patrão.
Daí nasceu aquela ideia que você é um subproduto da sua profissão (ou melhor: se não foi aí que ela nasceu, foi aí que ela se estabeleceu como dogma no universo moderno do trabalho).
Eu sou o cara que aperta o parafuso.
Eu sou o cara que embala o produto.
Eu sou o cara que cola as etiquetas.
O que lembra bastante quando você chega numa roda de desconhecidos e vai se apresentar:
Oi, eu sou arquiteto.
Oi, eu sou médico.
Oi, eu sou engenheiro.
Até a profusão da Revolução Digital, esse cenário não teria como mudar. Porque quanto maior era estrutura industrial vigente (hardware), maior era o inscosciente coletivo industrial (software). Pensando de forma industrial (software), era natural trabalhar pela manutenção das estruturas industriais (hardware).
Basicamente, tudo isso era uma grande teoria auto-profética.
Ovo e a galinha. Uma coisa só.
Mas vivemos novos tempos. E isso nos permite contestar o atual modelo e abrir espaço para novos olhares.

Pergunto:
Será que, no futuro, quando o novo mindset (software) digital for absorvido pela maioria pessoas, a estrutura (hardware) do trabalho não será diferente também?
Será que a linha que separa as profissões de hoje vai continuar existindo?
Será que a profissão que você exercerá daqui vinte anos já existe?
Se não existe, será que ela não será resultado da fusão de várias atividades do nosso presente?
Será?

Vamos admitir (nem que seja até o final deste post) que sim: que essa hipótese faz algum sentido.
Se faz, muitas das profissões de hoje virarão skills amanhã.
Você será um pouco designer, um pouco economista e um pouco ambientalista.
Inclusive, isso me parece bem razoável — principalmente nas áreas humanas.
E não apenas a mim: mas os estudiosos que ouvi no Institute for the Future e no MIT (este, através do Prof. Thomas W. Malone, autor de Future of Work) pensam da mesma forma.

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Talvez você conteste o meu ponto de vista e diga que essa fusão seja inviável em atividades mais técnicas e reguladas — como medicina e engenharia.
Afinal, se tiver um tumor no cérebro, você provavelmente não vá querer orientações de alguém que é médico pela manhã e sushiman à noite.
Talvez.
Mas, talvez, essas profissões técnicas e de rotina sejam justamente as mais passíveis de automatização no curto e médio prazos.
Acredite: assim como existe um self-driving car para preocupar os taxistas, há muita tecnologia igualmente disruptiva que vai atingir em cheio tantos outros mercados.

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Tenho bastante convicção de que o futuro do trabalho nos reserva um cenário bem diferente do que temos hoje.
As empresas serão auto-organizadas por pessoas verdadeiramente empoderadas. A gestão será do grupo — através de lideranças rotativas e circunstanciais, de forma que todos sejam invariavelmente líderes e liderados.
Não haverá espaço para chefes e funcionários. Todos serão sócios de todas as iniciativas nas quais estiverem envolvidos.
Inclusive, essa é outra convicção que tenho: você não terá o seu passe vinculado a apenas uma organização. Você terá atividades ligadas a diversos organismos ao mesmo tempo.
Você será, literalmente, médico de manhã e sushiman à noite.
Não por acaso, pesquisas indicam que um estudante do ensino médio, hoje, terá pelo menos cinco carreiras ao longo da vida.

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Mas voltando ao ponto chave deste post: várias atividades do passado foram absorvidas por rotinas mais sofisticadas.
Só para dar um exemplo simplório, e fácil de entender: hoje, todos somos um pouco datilógrafos.
Há bem pouco tempo, a atividade de digitar textos na máquina de escrever era dedicada somente a especialistas. Entretanto, novas rotinas profissionais nos obrigaram a assumir (também) esta função.
Datilografar (digitar) é meio, não fim.
É uma skill, não uma profissão.
Porque você continua fazendo tudo o que fazia — e, além de tudo o que faz, você também digita. Entrou naturalmente no cotidiano de todos nós. Foi um processo silencioso e invisível – tanto que você nunca deve ter visto alguém exigindo dois salários por causa disso.
Quer mais um exemplo? Se você está lendo este texto num desktop ou notebook, provavelmente absorveu a atividade do antigo computador (pessoa responsável por computar — ou seja: pessoa responsável por calcular).

Eu poderia até avançar mais no assunto, mas não quero fugir do ponto principal, que é: as profissões de hoje serão skills amanhã.
E Futurismo, ao que tudo indica, será uma delas.
Uma das mais necessárias, diria eu.
Porque quanto mais complexo fica o presente, melhores decisões nós temos que tomar.
Porque quanto mais opções você tem, mais técnico tem que ser o seu olhar.
Porque quanto mais exponencial é a vida, mais sábia tem que ser a sua perspectiva.
Se tudo isso é verdadeiro, Futurismo será um luxo do qual você não poderá abrir mão.
Portanto, o cuidado que recomendo neste post é: não encare o Futurismo como algo distante.
Viva o Futurismo.
Vivê-lo é mais simples do que parece.
Você não precisa ser Futurista.
Afinal de contas: ele será uma skill, não uma profissão.
Fará parte da sua vida.
Mais cedo ou mais tarde.
Queira você ou não.
O quanto antes você mergulhar neste universo, antes poderá usá-lo.
O futuro costuma ser muito mais interessante para aqueles que decidem entendê-lo e construí-lo.
Esse é o meu convite.

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Se você acha esse papo todo de ter várias profissiões ao longo da vida muito estranho, meu convite é outro: que você reflita por cinco minutos.
(Espere cinco minutos e volte a ler este texto. Sério.)
(Se você não conseguiu esperar os cinco minutos, uma segunda reflexão: como você quer rever os seus conceitos se você não se permite refletir por cinco minutos? Mas vamos lá:)
É natural que alguém que foi educado dentro de uma perspectiva industrial ache tudo isso confuso, utópico e até lunático.
Não me surpreende, já que a maioria das pessoas que conheço tem um olhar muito tímido para o futuro.
Não por culpa delas – mas pela educação que recebemos.
As escolas, guardadas raras exceções, ainda preparam nossos alunos para o passado.
As universidades, guardadas raras exceções, ainda preparam os estudantes para profissões que ficarão obsoletas em breve.
E até as famílias, guardadas raras exceções, orientam seus filhos para um mundo que não existe mais.
Por sorte, tive pais que fugiram à regra. Inclusive, fica meu agradecimento público. Valeu, pai. Valeu, mãe. Vocês foram os verdadeiros Futuristas.
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Até o próximo post.
Beijos, abraços.
tg