Futurismo não é previsão, é construção

Ao estudar e explorar possíveis futuros, o futurista não prevê, mas ajuda a construir os cenários mais desejados a partir de diferentes perspectivas.

Quando falamos de futurismo, isto é, uma disciplina que estuda, explora, traduz e acelera as possibilidades de um futuro pós-emergente (de 5 a 10 anos), tratamos justamente do poder de seus estudiosos não preverem o futuro, mas sim ajudar a construí-lo. E, dentro dessa mesma perspectiva, também se engloba o fato de que não existe apenas um único futuro, mas vários deles.

Calma, não estamos falando sobre várias dimensões! É que cada profissional tem sua própria visão de acordo com o contexto em que está inserido. Cada um segue uma metodologia específica e tem um foco mais voltado para sua formação e pelo seu local de fala — ou seja, sua nacionalidade, etnia, experiência de vida, sua identidade como um todo.

Pense, por exemplo, no caso do gerontólogo Aubrey De Grey. Inserido em um contexto médico, sua visão de futuro está calcada na busca pela cura do envelhecimento e extensão da vida a partir de estratégias focadas na bioengenharia. Já o futurista Max More possui a empresa Alcor, que oferece serviços de criogenização para aqueles que desejam ser revividos em um futuro no qual tal tecnologia exista. Ambos estão tratando do desejo de estender a vida e de, talvez, até mesmo alcançar a imortalidade, porém de ângulos diferentes.

Ainda, outros futuristas podem ter uma abordagem mais lúdica ou mesmo artística. Depois de ter escrito o emblemático Manifesto Ciborgue em 1984, Donna Haraway hoje costura corais de crochê como uma forma de combinar ciência, arte, matemática, biologia marinha e trabalho colaborativo ao endereçar questões em torno do problema do aquecimento global e seus efeitos nos recifes de coral. Nas palavras da autora:

“O [projeto] Crochet Coral Reef é uma história sobre camas de gato, ficção científica, fantasias costuradas e fabulação especulativa. Esse hiperbólico recife é material, figurativo, colaborativo, tentacular, mundano, disperso por entre os tecidos e através das superfícies da Terra, lúdico, sério, matemático, artístico, científico, fabuloso, feminista, pós-gênero e multidisciplinar. Sua história é corajosa ao realmente unir coisas reais e imaginárias, de modo a tornar os tempos mais possíveis para o florescimento de um mundo mais diverso.”

Também temos o caso de futuristas como Ray Kurzweil, que se destacou, entre outros motivos, pela sua tendência em apontar datas para determinados acontecimentos futuros. Controverso, mas ao mesmo tempo mercadológico, esse tipo de abordagem pode ser visto com bons olhos (por exemplo, quando apontam para quase 90% de acertos em suas previsões) ou então com desconfiança, já que é virtualmente impossível de se afirmar assertivamente sobre algo que ainda não ocorreu.

Mas na ansiedade em se preparar e vivenciar esse futuro que, também na ficção científica, possui um imaginário cultural pelo qual criamos expectativas, é natural que perguntas sobre datas sejam feitas ao futurista. No entanto, o mais sincero a se dizer, nesses casos, é que um futurista está mais para um aliado, alguém que provê suporte na interpretação de sinais emergentes e que facilita o planejamento e a construção de futuros desejáveis, mas não tem a possibilidade de prevê-los.

Em vez de prever o futuro, portanto, o futurista traduz sinais do presente (comportamentos, movimentos, ideias e desejos) de modo a canalizá-los em estratégias de construção desse futuro mais positivo, diverso e ideal para todos.

Texto: Lidia Zuin* // A série 'Diálogos Com o Futuro' tem conteúdo e curadoria compartilhada. Por vezes é a Lidia Zuin, por vezes sou eu. Entretanto, apesar de nos revezarmos nas pick-ups, os posts aqui do Medium sempre terão indicação de quem foi o autor/autora.)