2. A Singularity não é a única escola de Futurismo do mundo.

(*Segundo post da série: ‘Cuidados para se ter com Futurismo’.)

Katheryn Myronuk: um nome fundamental no crescimento da SU.

Se você está chegando agora, bem-vindo.

Este é a segunda publicação de uma série de dez que vão abordar Cuidados para se ter com Futurismo.

Minha sugestão é que você comece lendo o primeiro texto. Lá, é possível entender o porquê decidi compartilhar essas ideias e o porquê acho que devemos ter alguns cuidados com o tema.

Sem falar que, do ponto de vista didático, me parece muito mais fácil absorver o conteúdo na ordem crescente.

Agora: se você quiser começar por aqui, e terminar lá, não tem muito problema. A ordem dos fatores não interfere tanto assim no resultado.

Mas vamos ao que interessa:

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‘Cuidados para se ter com Futurismo’

2. Não ter uma única visão de Futurismo. (Ou: a Singularity não é a única escola de Futurismo do mundo).

Se você mora no Brasil e ouviu falar de Futurismo, é muito provável que também tenha ouvido falar da Singularity University.

Mas se você não faz ideia do que seja a SU, não se preocupe. A gente ajuda.

Num tweet: Singularity é uma escola de Futurismo que nasceu da parceria da Nasa e do Google.

Mas entender a Singularity através desse tweet é um perigo.

Como tudo na vida: se você só sabe o quê, e não entende o porquê, você corre o sério risco de ficar apenas com a informação e abrir mão do conhecimento.

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Antes de qualquer coisa: deixem-me registrar minha profunda admiração e extrema gratidão à SU.

Ela me deu oportunidades que, do fundo do coração: eu nunca achei que teria aos meus 32 anos. Como: receber elogios da Forbes pelo meu discurso de formatura. Ou: voar em gravidade zero como prêmio pela minha apresentação sobre tecnologias exponenciais.

Foi através da SU que conheci algumas das mentes mais brilhantes do planeta.

Foi através da SU que abandonei meu pensamento linear e absorvi, definitivamente, o mindset exponencial.

E foi só graças aos três meses na SU que nós, como empresa, começamos um movimento real de internacionalização. Ou melhor: graças ao feedback (surreal, diga-se de passagem) que recebemos de Peter Suma: venture capitalist canadense que, por muito tempo, administrou um fundo de investimentos de centenas de milhões de dólares.

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Agora, como disse antes: entender por que a Singularity nasceu nos faz entender como ela é. E ao entender este como, descobrimos o que ela é:

Apenas uma dentre muitas escolas de Futurismo do mundo.

Competente, relevante e merecedora de todos os elogios feitos até agora? Sem dúvida.

Mas apenas mais uma.

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Uma vez que a Singularity é a grande referência de Futurismo no Brasil, entender o porquê, o como e o quê também nos ajuda a perceber de que forma este assunto é visto, processado e disseminado no País.

Eu tenho contato com pelos menos três visões de Futurismo: a americana, a israelense e a brasileira. E posso garantir para você que as ideias que ouço nos eventos nacionais são muito diferentes das que tenho contato quando vou ao exterior.

Se você quer levar Futurismo a sério, você precisa desse parâmetro de comparação.

Por isso, vamos lá.

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Peter Diamandis e sua antológica palestra sobre abundância no TED.

A Singularity não existira sem Peter Diamandis.

Empreendedor visionário, Peter queria montar a escola de Futurismo mais avançada do mundo. E, para isso, estipulou três parceiros-chave.

De um lado, queria o endosso de Ray Kurzweil — considerado por muitos o maior Futurista do planeta. Ray seria muito mais do que um co-fundador: seria o patrono da instituição. Suas ideias — especialmente as reunidas no livro The Singularity is Near — seriam a pedra fundamental, o arcabouço teórico, a premissa base da SU.

De outro lado, Peter queria a NASA. E não qualquer NASA — mas a NASA Ames Research Center: centro de pesquisa que fica no coração do Vale do Silício. Lá, dentro do parque científico, ficariam as instalações da Singularity, as salas de aula, o laboratório de tecnologia e a incubadora para ex-alunos, batizada de SU Labs.

O antigo Hangar do NASA Ames (hoje desativado) é a edificação mais marcante do parque.

Por fim, no terceiro vértice, estaria o Google — que entraria com prestígio, conexões, discurso do Larry Page na aula inaugural.

Mas, principalmente, com grana.

E não é que deu certo?

A partir daí, mais figurões e mais empresas se somaram ao projeto. Convenhamos: depois de ter Kurzweil, NASA e Google juntos, você tem praticamente quem quiser.

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Ray Kurzweil e a sua obra-prima: ‘quando os humanos transcendem a biologia’.

Faltava, agora, a outra metade.

Sim: porque o plano só daria certo se ele tivesse, além de bons mentores, um time de estudantes de dar inveja a Harvard, Stanford e MIT.

E aí, Peter brilhou de novo.

Ele estipulou, como critério de seleção, a capacidade de impactar positivamente um bilhão de pessoas em até dez anos. Para isso, os participantes teriam que enfrentar um crivo rigoroso — e que deveria contar, no final, com aprovação unânime do board da SU.

Isso garantiria um grupo heterogêneo (tecnólogos, cientistas, artistas, filósofos, empreendedores, changemakers em geral) com pelo menos três coisas em comum.

O interesse por Futurismo.

O interesse por impacto positivo.

E a capacidade de fazer.

Cerimônia de formatura da minha turma, em 2012: estou bem no alto, mais para a direita, representando o rock’n’roll.

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Então, como você já deve ter percebido, a Singularity nasceu para oferecer um programa de três meses, o GSP (Graduate Studies Program — que, mais tarde, foi rebatizado de Global Solutions Program).

O GSP teria dez semanas divididas em três grandes blocos.

No primeiro, os participantes absorveriam os conhecimentos dos maiores nomes do Futurismo mundial. Teriam contato com o que há de mais avançado em tecnologias exponenciais, como inteligência artificial, robótica, nanotecnologia, biotecnologia, engenharia espacial e muito mais.

Então, munidos desse conhecimento de ponta, eles partiriam para a segunda etapa: uma imersão com especialistas e estudiosos dos doze maiores desafios globais (na minha época, em apenas oito, como vicê pode ver pela imagem abaixo). Na então visão da Singularity: fome, água, pobreza, energia, segurança, saúde, educação e meio ambiente.

No final, o grupo seria convidado a desenvolver uma start-up que juntasse o melhor dos dois mundos: usasse tecnologias exponenciais para impactar positivamente um bilhão de pessoas em até dez anos.

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Inclusive, este era o business model da escola: terminado o curso, os participantes poderiam continuar seus projetos dentro da SU Labs (incubadora da Singularity). Receberiam ajuda de mentores e especialistas do Vale do Silício. E, em troca, dariam uma fatia das ações.

E se este era o modelo, Peter estava muito menos interessado em cobrar um fee dos alunos — isso seria uma barreira para muita gente — e muito mais preocupado em reunir um time de potenciais empreendedores.

Prova disso é que, nos primeiros anos, praticamente todos os participantes se privilegiaram de bolsas integrais ou parciais.

Eu fui um desses privilegiados: apliquei e levei 60% de bolsa.

Made in Space: empresa de Space 3D Printing incubada na SU Labs, que recém fechou acordo de 20 milhões com a NASA.

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O plano foi extremamente bem sucedido. E, em 2009, a primeira turma do GSP estreou.

A edição, segundo a própria Singularity, tinha um caráter beta.

Mas foi um belo beta.

Tanto que, no ano seguinte, eles decidiram dobrar a turma — agora com oitenta participantes.

Larry Page, no discurso de abertura de 2010.

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Mas, acredite: nem mesmo Kurzweil, NASA, Google e todos os maiores nomes do Vale do Silício foram capazes de tornar o negócio verdadeiramente lucrativo nos primeiros anos.

Eu, que tenho escola há quase uma década, posso dizer: a maioria das pessoas não faz ideia do quanto custa a diária de uma operação educacional.

E esse era o Calcanhar de Aquiles da Singularity.

Quando fiz SU, em 2012, a cifra que circulava nos bastidores era de que a operação dos três meses de GSP custava dois milhões de dólares — e isso que os palestrantes não cobravam cachê.

Talvez fosse menos (talvez mais?). Mas o certo é que era caro. Os resultados estavam abaixo do potencial que Peter sabia que a SU tinha.

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Por mais nobre que fosse a missão da Singularity, ainda assim: ela não tinha vocação para se manter eternamente como ONG (lembre-se, estamos falando de Vale do Silício).

Esse desconforto começou a formar uma pequena onda de pessimismo e ceticismo com relação ao futuro da SU.

Foi quando as lideranças da escola tiveram um Eureka Moment que mudaria a história da instituição para sempre.

Nascia o Executive Program.

Rob Nail, CEO da Singularity: jeito de surfista, cabeça high tech.

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Pense comigo: os altos executivos das grandes corporações são constantemente cobrados por novidades. Precisam estar sempre um passo à frente da concorrência.

É ou não é a demanda latente perfeita para um curso que fala do que vem por aí?

Melhor: esses profissionais poderiam (ou por conta, ou pela própria empresa) arcar com um valor significativo.

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Claro: para atender a esse público, seriam necessários ajustes.

O primeiro seria mexer na duração. Executivos não têm como assumir um compromisso de três meses. O ponto de equilíbrio seria uma semana — tempo mínimo para explicar as ideias de Kurzweil e tempo máximo que um executivo consegue se ausentar do dia-a-dia.

Segundo, seria adaptar o programa. Foi feito o óbvio: priorizou-se o que realmente interessava a esses executivos. Com isso, condensou-se o Módulo 1 (tecnologias exponenciais) para caber em uma semana. Já os outros dois (Impacto Positivo e Projeto) perderam espaço — aparições tão tímidas que raramente são lembradas.

Terceiro, seria adaptar os critérios de seleção. A Singularity queria, claramente, manter a sua aura de exclusividade. Mas se o objetivo era ajudar o fluxo de caixa, não fazia sentido manter a mesma seleção do GSP. Impôs-se, então, uma barreira financeira: 14 mil dólares pela imersão de semana* (esse valor já mudou muitas vezes – e já desisti de atualizá-lo).

Assim, Peter finalmente dormiu em paz.

Divulgação do EP: focada nos benefícios dos executivos — e sem muito espaço para Impacto Positivo.

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Já vi aulas do EP, mas nunca acompanhei o programa do início ao fim. Então, fica muito difícil compará-lo ao GSP.

Entretanto, já ouvi relatos de vários amigos que elogiaram o programa e voltaram encantados com o que ouviram.

Gente de alta performance, com pensamento contemporâneo e com consciência empreendedora.

O que me leva a crer que a imersão de uma semana é realmente ótima.

A sala da SU: no EP, encontramos um público mais sênior e com maior interesse no módulo ‘tecnologias exponenciais’.

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Entretanto, há um aspecto importante que, pelo menos na minha opinião, pesa muito em favor do GSP.

O tempo.

Porque os três meses permitem que você ouça as teorias da SU num ritmo muito mais próximo do saudável.

Você participa das aulas, pensa sobre o que ouviu, conversa com os colegas, reflete sozinho, reflete em grupo, pensa mais uma vez. E, lá pela décima semana, consegue não apenas entender bem do que se trata. Mas, principalmente, criar a sua visão crítica com relação à própria Singularity.

Você sai de lá com o seu olhar.

No EP, há menos espaço para processar todo esse conteúdo. E muito menos tempo para você pensar se concorda ou não com tudo isso.

Imagine: numa segunda-feira, você está na NASA. Na outra segunda, está de volta ao seu escritório.

Para mim, essa é a diferença que vejo entre participantes do GSP e do EP. O espaço para a visão crítica.

Sem visão crítica, você corre o sério risco de ser colonizado por outra mente. Seja na Singularity, seja onde for.

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Mas, ainda assim: tanto GSP quanto EP são subprodutos de uma mesma filosofia.

E este é o alerta que eu gostaria de fazer (desculpa a introdução longa).

Minha grande dica é: converse sobre Futurismo com gente que estudou na Singularity. Mas converse, também, com quem estudou em outras escolas que não a Singularity.

Afinal:

a Singularity é apenas uma dentre muitas escolas de Futurismo do mundo.

Competente, relevante e merecedora de todos os elogios feitos até agora? Sem dúvida.

Mas apenas mais uma.

Federico Pistono, autor de ‘Robots Will Steal Your Job — But That’s OK’: um dos grandes amigos que fiz na SU.

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Você só entende que a Singularity University é apenas mais uma escola de Futurismo quando você estuda em outras.

Porque a SU tem um aspecto que é, ao mesmo tempo, sua maior vantagem e sua maior fraqueza.

O aspecto profético.

Explico. E explico com prazer.

Ray Kurzweil, e a Singularity em si, acreditam que tanto a evolução biológica quanto a computacional vêm crescendo dentro um padrão matemático. E que ambas convergem numa curva exponencial.

Ao acreditar nisso, a SU encara o futuro como algo extremamente previsível. E dá pouca margem para cenários diferentes daqueles que eles preconizam.

Isso é, ao mesmo tempo, fascinante e perigoso.

Fascinante porque, se eles estão de fato certos, se este é o futuro que nos está reservado, nós estaremos vivos para ver a transcendência da espécie humana.

O transhumanismo é uma das disciplinas mais interessantes e desconfortáveis do Futurismo.

Perigoso porque muita gente séria e respeitada no mundo do Futurismo acha que Kurzweil está per-di-do. Kevin Kelly, co-fundador da Wired, é um deles:

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No dia em que terminei meu último curso de Futurismo, no Institute for the Future, em Palo Alto, abri um Periscope para compartilhar minha empolgação.

Estava feliz em ver uma outra escola, tão — ou mais — respeitada que a SU, trazer uma perspectiva de futuro completamente diferente.

No Brasil, me incomoda um pouco que um assunto tão diverso perca a sua diversidade. Me incomoda esse samba de uma nota só.

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Inclusive, compartilhei no próprio Periscope um insight: os profissionais que estão ditando as regras do Futurismo mundial costumam ser homens, brancos, da América do Norte e com formação científico-racional.

Uma monocultura que pode dar ao Futurismo um único sabor.

Enquanto isso, no Brasil, quase que simultaneamente, a Dianna Assenato publicava este ótimo post com ideias muito semelhantes.

Fiquei feliz ao ver o assunto (construção plural) nascendo justamente de uma construção plural. E ainda mais feliz pela convergência de ideias.

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Um dia antes desse Periscope, eu conversava com Nikola Danaylov, alumni da SU, e autor do vídeo mais crítico que existe com relação aos adeptos de Kurzweil.

O título já é um bom spoiler: O Imperador está nu — Sócrates desconstroi a Singularity University.

Se você quer se aprofundar em Futurismo, sem uma visão monoteísta, eu recomendo fortemente que você o assista com muita atenção.

Não concordo com todas ideias de Nikola — mas acho que a sua postura crítica é mais importante do que a crítica em si.

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Eu sou uma pessoa que imergi em pelo menos cinco Escolas de Futurismo diferentes (falaremos disso no próximo post). Isso sem falar dos meus estudos individuais, das descobertas na prática e das teorias próprias (que constam timidamente em bibliografia, mas que estão documentadas em palestras e entrevistas).

Por isso, você nunca vai me ver defender a Singularity, ou qualquer outra escola de Futurismo, sem um olhar crítico.

Porque a postura crítica, em alguns casos, é tão importante quanto a crítica em si.

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Se você concorda com este ponto de vista multidisciplinar, sugiro pesquisar essa lista de escolas de Futurismo.

O Brasil, como você pode ver, é ainda muito carente de programas sérios.

O Friends of Tomorrow, nosso curso que soma as inteligências da Aerolito e da Perestroika, é um dos poucos que aborda o assunto. E sempre reforçamos a nossa visão multidisciplinar. Atualmente, organizamos nosso conteúdo a partir do que chamamos "as cinco grandes lentes", sendo a SU apenas uma delas.

A aula final do Friends of Tomorrow (antigamente chamado de Tomorrow) na SuperUber, no Rio de Janeiro.

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Moral da história.

Esta série de posts é sobre Cuidados para se ter com Futurismo.

Este, especificamente, sugere não ter uma única visão de Futurismo.

Ou: reforçar que a Singularity não é a única escola de Futurismo do mundo.

Ela é apenas uma dentre muitas escolas de Futurismo do mundo.

Uma ótima escola. Portanto, minha sugestão é que você conheça as suas ideias.

Sempre tenha em mente que alguém que fez o GSP e alguém que fez o EP podem ter abordagens bastante distintas.

Nunca, em hipótese alguma, esqueça o pensamento crítica. Ou você está sendo colonizado.

Continuo a me perguntar: o que seria um profeta digital?

Por fim: cuidado com os profetas.

Eles são igualmente fascinantes e perigosos.

Beijos, abraços.

Tiago.

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