Colocando a cara a tapa

Ilustrador, músico, ator, entusiasta de bizarrices. Diego Medina pode ser mais conhecido por ter sido garoto-propaganda da cerveja Polar e vocalista da banda porto-alegrense Video Hits. Fama que esconde sua multiplicidade de talentos artísticos.

Diego na frente do quarto de seu apartamento onde tudo acontece.

Em seu canal pessoal no Vimeo existem quase 200 vídeos. Entre postagens recentes e digitalizações de antigas fitas VHS, conseguimos um pequeno vislumbre da vida de Diego Medina. Nas imagens, ele geralmente está em casa, gravando alguma música, compondo, falando bobagem, registrando algum momento específico; não é nada pretensioso. Registrar, dentre todas as atividades para as quais já se dedicou, é o hábito mais antigo.

Quando criança, Medina descobriu um gravador de fitas cassete, com o qual começou a gravar histórias em áudio e improvisações com os amigos. Em seguida, passou a filmar. Do ensino médio ao início da faculdade, cultivou outra brincadeira. Numa folha de caderno se escrevia a primeira frase de uma história inventada: “Estava eu na floresta de Shamazz, quando…”, ele explica com uma voz aguda. O colega ao lado desenvolvia a ideia e passava adiante. O seguinte prosseguia da mesma maneira. O texto final começava de um jeito e terminava de outro completamente diferente. De certa forma, Medina segue fazendo tudo isso ainda hoje. As brincadeiras de improviso lhe deram a desenvoltura que o levaram aos comerciais de televisão. Já o gosto por registrar e contar histórias o levaram à música e à ilustração.

“Se é bom, não sei. Mas tá aí, eu fiz. Não gostou, pode me mandar à puta que pariu.”

Em seu apartamento, subindo as escadas, as paredes exibem guitarras, quadros com ilustrações feitas por ele, pôsteres, a bandeira do País de Gales. Nas estantes, estão alguns pedais de guitarra, um videocassete, outros instrumentos. É fácil reconhecer o ambiente visto nos vídeos postados por ele na internet. No início da entrevista, ele avisa: “Vou falar muita merda. Depois tu te vira pra organizar tudo”. Sentado à frente do computador, vestindo um abrigo Adidas e bebendo uma cerveja, Diego abre o Youtube e fala sobre um clipe do músico norte-americano Ty Segall. A música é “The Hill” e o vídeo parece ter sido gravado em VHS, formato que Medina sempre gostou. “O problema é que todo mundo quer fazer vídeo assim hoje em dia”, lamenta.

Quando questionado sobre o que, afinal, ele faz da vida, Medina diz que não sabe responder. “Eu gosto de fazer música, mas não acho que isso me torna um músico. Gosto de desenhar, mas também não sei se sou ilustrador”, conta. Ele confessa que não se considera um ‘artiiista’, mas sente a necessidade de colocar suas criações para fora. E são muitas. “Se é bom, não sei. Mas tá aí, eu fiz. Não gostou, pode me mandar à puta que pariu”, afirma.

A impressão, para quem entra em contato pela primeira vez com o seu trabalho, é que ele passa o dia inteiro compondo, gravando, criando, desenhando, publicando. “Mas não é uma mente tão inquieta assim”, se defende, “também fico morgando em casa, sem fazer nada”. O que o motiva a realizar o seu trabalho é uma vontade de não estar preso à coisa alguma.


Garagem e estúdio

Seu primeiro projeto musical foi a Doiseu Mimdoisema, no início dos anos 90. Diego teve a ideia de gravar uma fita cassete de músicas próprias como presente de aniversário para um amigo. Depois de terminar as gravações, ele não quis assinar o trabalho com o próprio nome. “Qual vai ser o nome desse artista?”, recorda. “Diego Medina: ‘di’ é prefixo de ‘dois’; ‘ego’ pode ser ‘me’; ‘me’ vira ‘mim’; ‘di’ é ‘dois’ de novo; ‘na’ é ‘em+a’, ‘ema’. Doiseu Mimdoisema”, ele explica o nome complicado.

Diego conferindo a qualidade das fitas cassete.

A fita acabou chegando na antiga Felusp FM, que viria a se tornar a Rádio Pop Rock. A música ‘Epiléptico’, inesperadamente, tornou-se um hit na programação. Depois disso, a banda chamou a atenção do produtor musical Carlos Miranda, que comandava a Banguela Records (gravadora responsável por revelar os Raimundos, nos anos de 1990). Apesar de ter firmado contrato com Miranda, a Doiseu nunca gravou o disco pela Banguela. A gravadora encerrou suas atividades antes que eles pudessem ir ao estúdio.

Na Porto Alegre dos anos de 1990, Medina frequentava o bar Garagem Hermética. Neste ambiente surgiu o projeto musical de maior visibilidade, a Video Hits — que teve uma vida curta.

Chamada, inicialmente, Grupo Musical Jerusalém, a banda — que nada tinha de religiosa — mudou de nome e gravou um primeiro disco de forma independente. “Por incrível que pareça já existia um grupo com esse nome”, conta o artista. As músicas chegaram nas mãos do vocalista do Los Hermanos, Marcelo Camelo, que gostou e mostrou o material para a direção artística da gravadora Abril. Em julho de 2000, com contrato assinado, a Video Hits foi para o Rio de Janeiro gravar o álbum ‘Registro Sonoro Oficial’. “Na época da Doiseu nós tínhamos um certo apadrinhamento do Miranda. Com a Video Hits não teve porra nenhuma, conseguimos tudo nós mesmos”, revela.

Conforme Medina, todos da banda estavam muito empolgados durante as gravações. “Nos pediam um tecladinho em uma música, a gente conseguia. Bá, e uma guitarra talvez? Tá aqui a guitarra! Então foi, ah, que coisa maravilhosa”, ele conta ao lembrar da época. Durante a mixagem, todos os integrantes retornaram para Porto Alegre menos Diego e Michel Vontobel, o baterista. O resultado final, porém, não foi o que eles esperavam. “A gente não teve pau na mesa pra dizer que não tava curtindo a mixagem”, revela. Imitando a reação que teria tido ao escutar o disco pela primeira vez, Diego fica mudo e encara fixamente a parede. “Era um pop rock bobo. Mas na época, vamo lá. Maravilha, beleza”, ele continua o relato.

A primeira música de trabalho foi o hit ‘(vo)C’. O que seguiu foi um direcionamento errado por parte da gravadora que, para Medina, marcava apresentações em programas de TV “xexelentos”. “A segunda música as rádios nem queriam mais tocar. Logo a banda começou a broxar. No fim eu não gostei da experiência de trabalhar com gravadora”, lamenta. Não demorou para que a Video Hits encerrasse as atividades.

Em 2007, na garagem da casa dos pais, surgiu uma das obras que Diego garante ter mais orgulho. A ‘Zombieoper’ é uma ópera rock de 22 faixas sobre zumbis e o apodrecimento da humanidade. Gravado e composto com sua parceira de Os Massa, Desirée Marantes, o disco contou com participação do vocalista da banda galesa Super Furry Animals, Gruff Rhys. “Foi o meu verão do amor. Se alguém teve aquele ano que se drogou feito louco — ou foi pro mato, pra um sítio — eu tive a gravação da ‘Zombieoper’”, comenta. Diego fala com especial apreço sobre todo o processo de criação e finalização do álbum. “Nunca tivemos nenhuma música. Fazíamos quase tudo na hora de gravar mesmo. Depois de gravado que criamos as letras e a história da tal ópera rock”. Ele descreve as sessões de gravação como uma Disneylândia musical. “Quem sabe, ao invés de usar uma vassourinha na caixa da bateria, a gente não esfrega uma vassoura de palha num quadro negro? E gravamos aquilo pra uma música”, explica.

Gruff Rhys escrevendo a letra de “Anghenfil Y Nos” ao lado de Diego — arquivo pessoal.

A participação de Gruff Rhys foi por acaso. Ele e Diego haviam se conhecido no Rio de Janeiro e trocado e-mails. O músico do País de Gales, do qual Diego sempre foi fã, estava gravando um documentário no Rio Grande do Sul e entrou em contato com Medina. “Ele me enviou um e-mail perguntando se eu me lembrava dele. Claro que eu lembrava!”, recorda o artista gaúcho. Diego e Desirée convidaram Gruff para participar nos vocais de uma música da ‘Zombieoper’, cantando em galês. “Ele topou. Fez a letra na hora. Bá, naquele dia eu não sabia onde me meter. O cara tava na minha casa!”.

Diego nunca ganhou dinheiro com música. “Só uns gato pingado com ‘(vo)C’”, diz. Mas ressalta que não se trata de hobby, pois tenta tratar a atividade com certa seriedade e preocupação. “Precisa ter cobrança, senão tu não sai do zero”, falou o artista.


Magrões da Polar

Medina não se lembra quando começou a atuar em comerciais de televisão. Chegou a participar de duas propagandas da Skol antes de integrar a icônica dupla da cerveja Polar. “Eles tinham chamado dois magrões — bá, ‘magrões’ nem se usa mais -, dois guris pra atuar”.

Foi selecionado junto com o amigo Ricardo Kudla, um dos donos do Garagem Hermética. “O quê? Tu vai ser minha dupla?”, Diego imita com sotaque portoalegrês a reação que tiveram ao descobrirem que trabalhariam juntos. Os dois foram a dupla da Polar durante 13 anos. “A gente já era amigo e nos davam bastante espaço para improvisar. Acho que funcionou bem nos comerciais”, acredita. Dos improvisos surgiram falas como “Pega no meu espeto e diz I love you”.

“Tô grisalho. Mas tenho pique ainda.”

Produziam cerca de três filmes publicitários por ano — número que cresceu com o investimento da marca na Internet. “Chegamos a gravar cinco vídeos para a Internet em uma só tarde”, revela. Mesmo com o sucesso do formato, em 2015 não houve renovação do contrato de Diego e Ricardo. “Eu curtia demais e super toparia seguir com os comerciais. O que acho que dificulta agora é o visual. E até entendo, tô grisalho. Mas tenho pique ainda”, revela o artista e garoto-propaganda.


Papel cheio de gosma

Como artista gráfico, Medina tem um estilo bastante próprio. Suas ilustrações são repletas de elementos e algo escatológicas. “Gosto de muita informação na folha, psicodelia, formas de órgãos, gosma. Não sei se sou neurótico, mas preciso preencher tudo que é branco. Entrulhar de merda essa porra”.

Detalhe de ilustração do artista.

Ele desenha desde criança, mas foi a partir do final dos anos 1990 que a ilustração passou a ser profissão. Na época, Diego se inscreveu em um concurso que selecionaria ilustradores para a Folha de São Paulo. “Não fiquei nem entre os três melhores. Mas eles me chamaram mais tarde pra trabalhar. Claro que eu fui!”. Suas ilustrações eram publicadas principalmente no caderno de esportes. Ele possuía bastante liberdade nas suas criações. “Barraram só uma ilustração minha durante três anos!”, revela, com certo espanto.

“Preciso preencher tudo que é branco. Entrulhar de merda essa porra.”

Uma das coisas que o atraem no desenho, segundo conta, é o diálogo com o papel em branco. “Não costumo ter uma imagem pré-concebida do que vou desenhar. E o que gosto é disso mesmo; tu pode ir pra onde quiser”.



Registrando a vida

Por mais que tente negar, Medina é uma pessoa inquieta. A lista de trabalhos pessoais é bastante longa e diversa. “Meu interesse com as coisas é de lua”, ele explica, “me meto de pato a ganso”. Ele segue fazendo tudo isso porque não quer estar preso a nada, mas é evidente uma segunda motivação permeando suas criações. Quer registrar e comunicar o máximo que puder sobre o que está vivendo. “Depois de velho, o cara percebe que no fundo é tudo um registro da vida”.

Conversando sobre suas motivações, Medina diz que gosta de comunicar do jeito dele. “Se é certo, se é errado, não sei. Tô descobrindo ainda. Sigo fazendo. Meio sem medo de dar a cara pra bater”. Ele diz que quer tocar, cantar, tirar o freio de mão. E se é isso mesmo, melhor não tentar mudar. Porque, como diz um verso da ‘Zombieoper’, “Não adianta reprimir, foi assim que eu renasci. Sou zumbi, então chega mais!”.

História publicada originalmente na Revista EXP da Famecos.