Um desenho terrivelmente executado que nada faz jus à figura de Seu Tom.

Velhice, solidão e florestas urbanas

Para o Seu Tom, que nem deve se lembrar de mim. Ou talvez já esteja morto.

Nós caminhávamos pelo centro de Pelotas em meio aos prédios antigos quando chegamos ao nosso destino: uma casa em um bairro residencial. Havia um letreiro pintado no poste em frente ao imóvel. “Jardim Túnel do Tempo”. A tinta do escrito estava desbotada — talvez há vários anos. Era uma casa de dois andares, branca e com as paredes gastas. As poucas janelas eram marrons e quase sem tinta. A porta, que dava direto para a calçada, era de ferro cinza e possuía uma janela na parte superior. Tudo enferrujado, caindo aos pedaços.

— É aqui — disse Alex.

Nós não levávamos muita fé naquilo. Na verdade queríamos mesmo era desistir e ir embora. “Vocês vão adorar esse lugar”, insistia o Alex. Insistiu tanto que tivemos que dar o braço a torcer.

— Seu Tom! — chamou Alex.

— Ele não vai responder — previu Gabriela.

Seu Tom, segundo o Alex, era um homem de oitenta e poucos anos. Devia ter algum problema de audição. Esperamos uns cinco minutos até ele aparecer na janela do segundo andar. Fez um gesto com a mão que dizia: vou descer e não demoro. Esperamos outros dez minutos até ele abrir a janela da porta de entrada. Mal o velho apareceu e o Alex já emendou uma apresentação:

— Oi, Seu Tom. Lembra de mim? Eu sou membro do If Clube Rosa Azul, Alex.

— Alex… claro! Coloquei seu nome no meu livro, “Nuvens Inquietas”, ontem à noite.

Seu Tom falava como se tivesse vinte anos. Um rapagão num corpo magro e barrigudo de quase noventa. Convidou-nos para entrar como se fôssemos vizinhos de longa data. A casa possuía um chão totalmente irregular e coberto por retalhos de carpete. As paredes do hall de entrada estavam tapadas por recortes de jornal plastificados e cartazes de eventos e festas que aconteceram no Jardim Túnel do Tempo. Os corredores eram extremamente apertados, mas a casa era enorme e labiríntica. No fim do primeiro corredor havia uma escada caracol de metal para o segundo andar. O teto era de madeira e rangia — eu tinha medo de que desabasse sobre a minha cabeça.

Após as devidas apresentações, Seu Tom desatou a falar. Contou-nos toda a sua vida. Ascendência, If Clube Rosa Azul, Jardim Túnel do Tempo, filha, filhos, mãe, revistas, eventos, o livro Nuvens Inquietas. Seu Tom parecia não ter companhia há anos. De uma hora para outra três pessoas surgiram diante dele demonstrando óbvia curiosidade e interesse na vida do velho; penso que o tempo deve ter lhe parecido curto para falar tudo o que queria. As coisas das quais ele falava também estavam penduradas pelas paredes da casa. Tive a impressão de que, com o intuito de não esquecer nada, Tom lotou as paredes de memórias. Era encarado por sua vida em cada cômodo da residência.

— Meu livro não está acabado ainda. Escrevi umas quatrocentas páginas; meu sobrinho digita tudo — ele contava.

Enquanto falava começou a tirar folhas impressas de uma maleta que estava atirada num sofá rasgado e mofado. Trocentas páginas, muitas repetidas, todas mal-organizadas. Até hoje não entendi sobre o que se tratava o livro. Alex pegou uma das páginas.

— Tá aqui!

Me indicou uma foto no topo do papel: um matagal quase tropical e um grupo de pessoas sorrindo para o retrato.

— Que raios é isso? — perguntei.

— Esse é o Jardim Túnel do Tempo — explicou Seu Tom. — Levo vocês pra lá agora. Olhem essa página! É a minha filha quando foi Miss 82 do If Club Rosa Azul. Esta mesma foto foi capa de uma revista editada por mim. Tudo isso está no livro. Vocês querem conhecer o Jardim? Acho que foi por isso que vieram, não? Vou levar vocês até lá, mas não posso ir muito longe, operei meu joelho ano passado…

Balbuciando constantemente, ele nos guiou por um corredor ainda mais baixo e mais apertado da casa. Parecia um pequeno túnel subterrâneo com fiações elétricas perigosamente à mostra. Mais fotos e cartazes e recortes de jornal plastificados. Quando chegamos no outro lado eu não pude acreditar. Era uma floresta. Alex não segurou um sorrisinho ao ver nossas caras de espanto. Uma floresta enorme e cheia de árvores. Seu Tom nos indicou um caminho estreito por entre a mata urbana nos fundos de sua casa. Dava pra construir um prédio ou dois naquele espaço (admito que essa lógica de guri da cidade me deixa meio deprê). Cada árvore tinha uma placa velha pendurada. Em cada placa um nome escrito; nome de gente. Aquilo estava me atordoando profundamente.

— Podem ir visitando. Me chamem quando terminarem — avisou o Seu Tom.

Ficamos quase uma hora explorando o lugar. Cada canto daquela floresta tinha um nome: Copacabana, Bahia, Guarujá. Haviam algumas cadeiras de praia enferrujadas, placas com citações (“Este lugar é guardado pelos espíritos das ciências”), fotos de encontros no Jardim, uma pequena pirâmide de vidro no meio das folhas caídas. Tudo aquilo no centro da cidade. Era espantoso.

— Costumava vir aqui bastante. Acho que somente umas 200 pessoas sabem que esse lugar existe — vangloriou-se Alex.

Não tenho outra memória daquele ambiente que não gire ao redor do espanto, da inquietude, de uma ligeira sensação de pertencimento à algo maior e de uma incompreensível tristeza que aquela floresta provocou em mim. Na verdade, não tenho muitas lembranças desse momento.

Quando voltamos para a casa, Seu Tom parecia estar mais velho. Nosso retorno do Jardim anunciava que iríamos embora. O velho cuspiu todos os fatos que tinha esquecido de contar sobre sua vida, a título de nos atrasar. Convidou-nos para visitar o segundo andar. Mostrou-nos o quarto que alugava para estudantes e que, a julgar pela poeira, não era visitado há séculos. O peso dos nossos corpos sobre o piso superior aumentou consideravelmente o meu temor de que este desabasse sob os nossos pés. O velho nos levou à cozinha. Entregou-nos CDs com versões inacabadas do Nuvens Inquietas e também páginas A4 soltas do livro (já não tenho mais nenhum dos presentes de Seu Tom — perdidos entre uma mudança e outra). Folheamos algumas revistas. E conversamos. Da conversa compreendi que o Jardim Túnel do tempo costumava ser local de encontro de uma pequena parcela da juventude pelotense. O atrativo, para alguns, estava em surpeender algum amigo desavisado com aquele lugar inesperado. O papo foi ficando melancólico e eu ainda mais inquieto. Ele começou a falar sobre filhos, esposa, genros e uma série de familiares. Não havia ninguém ali, contudo. Seu Tom vivia só.

Tenho a esperança de que, como vinho, eu tenha vindo melhorando — e siga ainda melhorando — com a idade e o tempo. Mas em paralelo a esta disposição de espírito otimista, tenho medo da inescapável obsolência, do resoluto esquecimento e da carga de revezes que estes trazem de carreto. Além disso, em oposição à esperança supracitada, tenho a parasitária certeza de que, chegando o último respiro, a somatória final dos feitos da minha vida não valha mais que o pacote de bala de goma que comi essa semana. Ainda não me decidi se Tom foi tomado pelo esquecimento e obsolência ou se o conjunto da obra de sua vida constitua de fato um corpus digno de nota.

Nós tentávamos ir embora, mas ele prontamente emendava um outro assunto. Depois de uma hora e meia, nos guiou até a saída. A casa seguia parecendo um labirinto; possuía escadas nos lugares mais improváveis. O velho despediu-se demoradamente, decorou nossos nomes, prometeu-nos um espaço no seu livro e desapareceu atrás da porta.


Entramos no carro e a Gabriela desandou a chorar. Algo na solidão da velhice a incomodava, eu já havia notado. A mim também, mas eu era jovem demais pra chorar por conta daquilo. Isso aconteceu há cerca de sete anos. Praticamente nunca mais falei com o Alex ou com a Gabriela.

O tal If Clube Rosa Azul eu nunca entendi do que se tratava, mas todo o trabalho da vida do Seu Tom girava em torno dele. Não encontro nada na internet (existe uma Floricultura Rosa Azul em Pelotas, no máximo). Torço pra que tenha existido de fato.


Em uma analogia bastante rasa, podemos comparar o processo de resolução dos problemas da vida (E que fique claro que estou tratando neste momento, desavergonhadamente, dos problemas que afligem, invariavelmente, o ser humano médio de classe média entre a adolescência e o início dos trinta anos. Em sua maioria, não são problemas agudos a ponto de se tornarem impeditivos ou limitadores de nossas funções biológicas e sociais básicas — comer, beber, dormir, morar, se relacionar, transar e tentar não morrer.) com o processo de cura de determinada doença através da administração de um medicamento eficiente, porém amargo ou de múltiplos efeitos colaterais ou física/mentalmente debilitante. Meu remédio para lidar com a memória do Jardim Túnel do Tempo é terminar esse texto que, há sete ou oito anos, está sentado nos meus arquivos. Abandonei a ideia cerca de 20 vezes — por preguiça, indisposição e vergonha. Seu Tom não tem (ou teve) remédio pra lidar com a memória do Jardim.

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