Discriminação salarial entre homens e mulheres — uma análise mercadológica

A polêmica é velha, geralmente não há consenso e ultimamente tem sido um dos principais temas de debates entre os candidatos à presidência.
Inicialmente eu queria dissertar sobre o assunto baseando-me apenas nos estudos e análises do renomado economista Thomas Sowell, porém vi que muita gente já escreveu sobre assunto e já desmistificou a falácia de forma muito contundente. Recomendo a leitura dos artigos da economista Renata Barreto (aqui) e do jornalista Luciano Trigo (aqui), ambos escritos recentemente. Para quem ficou interessado em se aprofundar nas análises de Sowell recomendo a leitura dos livros “Os intelectuais e a sociedade”, “Fatos e falácias da economia” e “Ação afirmativa ao redor do mundo”.
Refletindo um pouco mais sobre a polêmica percebi que ela é também fruto do velho pensamento anticapitalista que domina o senso comum e para o qual o “sistema capitalista é malvadão” e os capitalistas só buscam o enriquecimento através da exploração dos trabalhadores. Inclui-se na problemática o machismo com algumas pesquisas que analisam os dados de forma errada e desonesta e o diagnóstico está pronto: mulheres ganham menos do que homens por pura discriminação machista.
Resumidamente o que Sowell mostra em seus trabalhos é que as pesquisas geralmente calculam uma média de homens e mulheres com escolaridades e perfis variados. Ou seja, são análises que desconsideram vários fatores individuais de carreira e profissões. É desonesto, por exemplo, fazermos uma comparação entre um homem e uma mulher que são engenheiros sem levarmos em consideração tempo de serviço, segmento de trabalho e porte das empresas nas quais trabalharam. Estas são algumas variáveis importantes e que causam grande impacto num estudo comparativo. Dois fatores importantes são o tempo de serviço e segmento de trabalho: homens geralmente fazem poucos intervalos na carreira e estão mais presentes em segmentos que exigem mais esforço físico, viagens e deslocamento para áreas remotas. Se você for numa mineradora com certeza irá encontrar mais homens do que mulheres independentemente das funções. O detalhe é que o segmento de mineração remunera melhor do que outros e este é um segmento pouco procurado por mulheres. Para fazer uma análise mais apurada basta fazer um estudo contrário: busque um certo perfil de mulheres que atuem no segmento de mineração e compare com homens que trabalham numa cidade média, ainda que na mesma função, e com certeza a média salarial das mulheres que trabalham em mineração será maior. A complexidade deste tipo de análise já prova que não podemos comprar esse discurso como verdade absoluta.
Em 2015 os economistas Guilherme Stein, Vanessa Neumann Sulzbach e Mariana Bartels, da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, fizeram um levantamento no estado gaúcho e concluíram que as mulheres têm em média mais anos de estudo e começam a trabalhar mais tarde do que homens. Entretanto, interrompem a carreira com mais frequência, têm uma jornada um pouco menor que a dos homens e tendem a se concentrar em ocupações que remuneram menos. Na época a divulgação deste estudo deixou feministas enfurecidas a ponto de pedirem até a demissão dos economistas. Veja o nível de “sororidade” das feministas para com as economistas envolvidas na pesquisa! Clique aqui e veja o estudo.
Uma análise mercadológica
É consenso que homens são diferentes de mulheres em vários sentidos, tanto física quanto psicologicamente. Tais diferenças impactam diretamente a produtividade de cada um. Além disso, vale lembrar todo o contexto sociocultural dos papeis do homem e da mulher muito antes da revolução industrial. Desde sempre as tarefas mais pesadas e de maior esforço físico foram executadas pelos homens, enquanto as mulheres se responsabilizavam por atividades domésticas ou outras que exigissem menos esforço físico. É muito fácil ainda hoje constatar essa diferença indo numa construção civil ou numa estivagem.
Com a revolução industrial e a evolução da economia de mercado, as condições de trabalho foram melhorando e ampliando a participação tanto de homens quanto de mulheres no mercado de trabalho. Ainda que critiquemos — com razão — que no início da revolução industrial as empresas submetiam homens, mulheres e crianças a condições de trabalho desumanas, é importante lembrar que antes das máquinas as condições de trabalho também já eram precárias nas grandes lavouras e foi só com a evolução tecnológica e industrial (aliado ao crescimento da competitividade entre as empresas) que as condições de trabalho foram melhorando. Chegamos então na era digital, na qual é o consumidor que determina o que quer consumir e não simplesmente uma indústria fabrica algo para vender. A mão invisível do mercado nunca esteve tão visível quanto na era em que estamos vivendo. Hoje enquanto folheio um livro interessante numa livraria posso usar o smartphone e pesquisar o mesmo livro na internet e comprá-lo mais barato. É o que o guru do marketing, Philip Kotler, chama de comportamento de consumo na economia digital.
Por que trazer o tema para uma discussão mercadológica?
Porque acho que precisamos evoluir. No Brasil se forjou uma cultura que sempre tenta colocar o mercado como um vilão. Empresários são sempre ruins e os trabalhadores sempre explorados. Empreender é quase um pecado. Enriquecer, de maneira lícita, é quase uma desonra. Os jovens brasileiros são mais estimulados a estudar para passar num concurso público do que para empreender ou desenvolver uma carreira de sucesso na iniciativa privada. Nas universidades a maioria dos professores falam sobre o mercado como se estivéssemos no mercantilismo da Idade Média. Não é à toa que enquanto temos milhões de desempregados existem muitas vagas em aberto por falta de mão de obra qualificada. No meio desse caos, nas escolas, universidades e grande mídia os intelectuais falam mal do mercado por puro engajamento ideológico sem saber fazer sequer um cálculo de custo operacional de uma pequena empresa que ver seus lucros indo embora só pagando impostos e encargos para um Estado ineficiente e corrupto. A narrativa do “nós” contra “eles” só tem prejudicado o ambiente de negócios no Brasil.
Competitividade e os profissionais
Numa economia de mercado — o que os marxistas chamam pejorativamente de capitalismo — o processo de troca de bens, oferta e procura de produtos não depende da cor de sua pele ou mesmo se você é homem ou mulher. Se você for especialista em alguma coisa que tenha valor para o demandante o sucesso será garantido. Isso, aliás, é a constatação diária que refuta a teoria marxista da “mais-valia”. O valor de um bem não está relacionado ao trabalho que deu para ser feito, mas ao valor que o demandante está disposto a pagar por ele. Por isso um zelador, que faz muito mais esforço físico que um auxiliar administrativo, ganha menos. O valor do trabalho é inerente ao valor do produto para o consumidor. No exemplo citado, o valor do trabalho do auxiliar administrativo para uma empresa é maior do que o do zelador.
Se houver demanda haverá oferta. Ninguém gasta tempo e dinheiro produzindo algo que não possui demanda. São as demandas que geram a competitividade entre as empresas. A razão de existir das empresas são as demandas dos clientes. Toda empresa quer satisfazer seus clientes. E toda empresa não quer o cliente apenas uma vez, ela quer que ele volte. Em marketing chamamos isso de fidelização. Há, portanto, uma busca constante de superação de expectativas do cliente.
Agora pare para pensar: nos desafios diários de uma empresa para atingir suas metas e alcançar lucros para se manter viva, você acha mesmo que os patrões estão preocupados em pagar menos para uma mulher do que para um homem ou encontrar um funcionário, seja homem ou mulher, que desenvolva suas atividades de forma a manter a empresa competitiva?
Num mercado onde a competitividade só cresce, quanto melhor for um funcionário mais valorizado ele será. Aliás, eu sempre digo que profissionais também são produtos no mercado. Se tiver demanda terá oferta e a oferta será maior para aquele que provar ser um produto valioso para o demandante, neste caso o empregador. Qualquer empresa que queira ser competitiva sabe que um dos seus maiores ativos para isso são os funcionários, seja homem ou mulher.
“Mas nem toda empresa age de forma competitiva”, você poderá dizer. Ao que eu respondo: elas morrerão! A razão do fracasso de muitas empresas é justamente por não serem competitivas. O mercado mesmo faz com que elas morram. E a evolução tecnológica tem acelerado esse processo. Há 3 anos eu comprava CDs para ouvir música; hoje pago Spotify. Há 3 anos eu locava filmes; hoje pago Netflix. Há 3 anos eu andava de táxi; hoje uso Uber.. Enfim, as mudanças tecnológicas e a evolução do mercado não extinguem apenas profissões, mas também matam e criam novas empresas e estas novas empresas não perdem tempo escolhendo mulheres para pagar menos, pois se assim fosse só contratariam mulheres, pois além de serem maioria, no Brasil as mulheres também possuem maior nível de instrução do que os homens.
A crescente participação das mulheres no mercado de trabalho se dá porque, além da mudança cultural de as famílias terem menos filhos, o que dá mais tempo à mulher, novos postos de trabalho têm surgido e as mulheres estão se qualificando para atendê-los. E isso não depende de nenhuma lei feminista. O mercado tem demandado e elas estão se preparando para atender as demandas. Necessidade do mercado, mérito delas.
