Era dezembro, mês de natal, uma época mágica com um clima caloroso e festivo entre as pessoas, as crianças abriam os presentes enquanto os adultos comiam bastante em jantares que reuniam a família e os amigos, a alegria contagiava a todos menos a Jorge Palhares, afinal de contas Jorge Palhares era um Peru.

Enquanto para os seres humanos o natal era um período de comemoração e conciliação com os entes queridos o peru Jorge Palhares via apenas a dor, o sofrimento e a morte tanto dele quanto de seus semelhantes em uma época que era considerada pelos perus como um verdadeiro holocausto. E foi por isso que na noite anterior a véspera de Natal Jorge Palhares desarmou a tranca de seu cercado, subiu em uma árvore alta e pulou o muro da granja onde havia crescido e passara toda sua vida; enquanto batia asas para aterrissar ao chão olhou para trás tendo um último vislumbre da granja toda ornamentada com brilhantes luzes natalinas, Jorge não conteve sua emoção diante dessa visão e falou:

- Malditos Psicopatas que comem a própria cria! Que todos vocês passem fome nesse natal! Esse Ano não tem Peru!

Jorge lançou-se em uma fuga desesperada para o mais longe possível que podia daquela granja, uma fuga tão cansativa que durou dois dias inteiros, até então havia conseguido com sucesso se manter escondido a maior parte do tempo despistando seus possíveis perseguidores, escolheu um enorme e denso matagal como refúgio dentre todos os locais em que havia pensado antes pois lhe parecia ser a escolha mais correta a se fazer, “Afinal” pensou Jorge consigo “sou um animal e meus instintos de animal irão me auxiliar no meio do mato para que eu sobreviva facilmente”, mas não demorou muito para Jorge Palhares perceber que a sua escolha não foi tão sábia, pois ele era gordo, fora de forma, desajeitado e lhe faltava experiência em correr em um ambiente com vegetação, se o peru Jorge Palhares possuía algum instinto animal ele foi completamente esquecido fazia muito tempo, e tudo o que conseguiu foi ferir as suas próprias pernas em arbustos e espinheiros distribuídos pelo mato, mosquitos o atacavam a todo tempo, e ele não sabia como encontrar comida ou água; além disso, o fato de estar fugindo o deixava com insônia, paranoico, e com os nervos à flor da pele pois achava estar sendo seguido pelos homens que trabalhavam na granja a todo tempo.

Cinco dias depois da fuga o peru Jorge Palhares estava totalmente acabado, ferido, faminto e exausto; seus pés estavam inchados, seus olhos lacrimejavam e tinham grossas olheiras pretas, para matar sua sede e fome Jorge bebia lama e bicava raízes que eram amargas e difíceis de se engolir, ele precisava de comida e água depressa e qualquer coisa que não fosse uma raiz seria bem-vinda, achando que seu raciocínio havia começado a enfraquecer Jorge Palhares começou a escutar sons agudos, como cânticos, então guiado por esses sons que vinham dentre alguns arbustos ele encontrou em uma poça d’água um grilo que cantava despretensiosamente “Cri-Cri- Cri” em direção ao luar. Os olhos de Jorge brilharam, e ele aproximou-se sorrateiro o quanto pôde e dando um bote em cima do grilo e gritando:

- Renda-se! O jogo acabou! Eu vim aqui te comer. – Disse Jorge ofegante.

- Espera, o que é isso? Quem é você? – Disse o Grilo em um tom assustado.

  • Não lhe interessa quem eu seja! O que importa é que eu sou um peru faminto e vim comer você, não corre!

Jorge se aproximou do Grilo que ficou apreensivo e disse:

- Espera cara, eu perguntei isso porque eu moro aqui perto e nunca te vi antes, além disso você não precisa me comer, eu conheço uma outra maneira para você encontrar comi...!

- Não tem não! – Jorge interrompe o grilo ruidosamente bicando-o e arrancando uma de suas pernas.

- AAaaaaHhhh!!! Por que você fez isso cara?! Eu ia te contar aonde arranjar comida! Eu conheço a região!

O peru sorri dizendo:

- E daí? Não preciso que você me diga nada.

- Deixa disso cara! Você não precisa me matar! Eu já te disse que sei aonde achar a comida, não faz isso. – Diz o grilo tonto de dor.

- Dane-se! Passei minha vida inteira sendo vítima na maldita granja, eles me batiam, me ridicularizavam e me ameaçavam dizendo que eu ia morrer o tempo inteiro, mas fugi e agora viverei como um rei, chegou a minha vez de ter o poder da situação, se eu decidir te comer eu te como, ninguém mais vai mandar em mim ou me restringir.

- Olhe em volta, isso aqui não é uma granja! Você não precisa de poder sobre ninguém, muito menos matar, se é verdade o que você diz mesmo e você gastou uma vida inteira sendo uma vítima então você mais do que ninguém deveria se sentir culpado em intimidar os outros; não vê que está agindo da mesma maneira que aqueles que oprimiam você? Ouça-me, vá até o local que eu te indicar, pegue a comida, e me deixe viver!

- Cala essa boca, chega disso!

O Peru Jorge Palhares ignorou a súplica do grilo e preparou-se para dar outra bicada, o grilo inutilmente tentou fugir quando de repente eles viram um clarão de luz refletir na poça d’água, o peru se desesperou instantaneamente dizendo:

- Não! São os homens da granja! Eles vieram me pegar! Tenho que me esconder!

Em um reflexo muito rápido Jorge Palhares conseguiu se esconder em um arbusto próximo da poça d’água, o grilo resolveu não se mexer, ficou imóvel esperando pelo pior, a luz se aproximou mais e o grilo percebeu que de fato o peru estava certo, pois quatro homens surgiram de dentro da escuridão da mata com lanternas em suas mãos, sendo que um deles segurava também uma gaiola que certamente estava destinada ao peru; eles passaram pelo grilo ignorando-o completamente, e o mesmo continuou imóvel afim de evitar qualquer problema, os homens procuraram mas nada acharam e após poucos minutos de busca foram embora.

“Ufa! Graças ao bom Deus! Achei que fosse morrer hoje! Há! Há! Há! ” Disse Jorge Palhares aliviado e limpando um pouco de suor de sua testa, Jorge havia se preparado para ir embora daquele lugar quando de repente o grilo veio mancando para perto de si e parou na sua frente bloqueando seu caminho, Jorge Palhares tentou afastar o grilo do seu caminho afugentando-o com sua asa em silêncio, mas o grilo não o fez, ao invés disso olhou em seus olhos e o encarou com uma expressão dura e rancorosa.

- O que vai fazer? – Disse Jorge sussurrando em um tom assustado.

- Nada do que você não teria feito. Diz o grilo enquanto começa a cantar “Cri-Cri- Cri” em um tom muito alto.

- Não, pare! Eles vão ouvir! Pare! Me desculpe, meu deus, me desculpe! – Jorge sussurra ao mesmo tempo que tenta gritar.

- “Cri! Cri! Cri! ” – O grilo não parou sua canção, e sua cantoria foi muito alta, tão alta que faz os homens voltarem, encontrarem o exato local aonde o peru Jorge Palhares se escondia entre os arbustos, Jorge ainda tentou lutar, mas os homens ganharam, o pegaram pelas pernas e o jogaram dentro da gaiola.

E no fim, parecia que Jorge havia se enganado, naquele ano a granja não passou fome, eles comeram Peru.

Moral da História

Seja misericordioso, se você foi oprimido não tente se tornar outro opressor, aqueles que não são responsáveis pelo seu sofrimento não merecem ser vítimas dele, afinal o mundo é pequeno, e a vítima de hoje pode se tornar o vilão de amanhã.

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