Neste escuro quarto não há nada para dizer. Falta coesão entre os meus neurónios criativos para fazer surgir algo. Posso criar uma história? Posso. Posso fazer uma pergunta e dar imediatamente a seguir a resposta? Também posso.
Naquela fria noite fria, ecoava ao longe agudos berros de desespero.
Gostaram daquele “fria noite fria”? Usar aquela característica curiosa (e, até, bonita) da língua portuguesa (e se calhar de todas, não estou suficientemente informado acerca disso) que subjetiva o adjetivo se este surgir antes do nome e o objetifica se este surgir depois do mesmo. É legítimo e correto dizer fria noite fria. Tenho lá culpa que a noite estivesse a registar três graus celsius e que, simultaneamente, estivesse triste, apática, insensível. Devia ter usado outro adjetivo? Eu gosto de fria. Nenhum outro adjetivo caracteriza tão bem essa noite. Insensível, triste e apático ficam aquém da expressividade que quero transmitir e também, não vou mentir, quis ser artista e explorar a estética das palavras. Mas se calhar fiquei e ficarei sempre pelo querer. Não tive a segurança artística (ou artística segurança?) de manter a minha opção sem discorrer sobre ela num parágrafo chato. O que faz do artista, artista é, no meu ponto de vista pouco artístico é algo que vai muito além do talento, da criatividade, do dom, do trabalho. Artista é o que se desamarra das cordas da sociedade e vive livre sem, como eu fiz, justificar constantemente a sua fuga dando até a aparência de que vive num masoquismo cruel de querer voltar aonde estivera preso. Muitos (os que nunca foram artistas) voltam. Cederam. Quiseram sofrer e sofreram. Não optaram pelo sofrimento, não quero que se vos sintais atacados. Optaram pelo conforto de estar preso, esquecendo-se sempre que nem sempre conforto significa paz. Agora sofrem. Com os seus poemas esquecidos num qualquer caderno antigo, com as suas telas roídas por ratos famintos num recanto qualquer do sótão da casa onde cresceram, os seus pianos encostados na sala de um homem a quem, um dia, venderam por uma ninharia de dinheiro que não ocupa o vazio de não ter um piano na sala de quem quis ser artista.
No dia seguinte, um homem fora encontrado morto, enforcado, pendurado numa árvore. Consigo uma nota que dizia:
“Quem desiste de ser artista, volta sempre à corda de onde quis fugir
