Disforia
Sentada no banco macio do Uber, minha calça curta demais não é capaz de esconder os pelos da minha perna. Não que fizesse qualquer diferença, no final das contas. Meu rosto, minha voz, minhas mãos, meu maxilar, meu jeito de andar, minha falta de seios, o que tenho entre as pernas, nada disso me deixa mentir, e não me permitem ser nada além do que me designaram.
A disforia vem me visitar sem aviso, e entra sem bater. Ela vem de maneira tão intensa que não consigo ouvir meus próprios pensamentos. Mais do que querer rasgar o que vejo no espelho: nem ao menos consigo olhar o que ele reflete. E a certeza de que jamais alcançarei a passabilidade que tanto busco se solidifica.
Se eu morresse hoje, morreria como alguém que nem ao menos conheço. O obituário me eternizaria com um outro nome.
Morrer Tiago. Acho que esse é meu maior medo.
