360 °

Ou sobre as voltas intermináveis que a vida realiza.

Fonte.

São 29 de abril de 2017. Quase 30 de abril, já que o relógio marca, exatamente, 22h33. O termômetro do celular indica 18°C. E minha mente trabalha em frenesi. A todo instante, mil pensamentos martelam minha cabeça e não consigo ordená-los. Talvez por culpa do frio, talvez por não ter conseguido fazer todos os afazeres acadêmicos que gostaria de ter feito — ou talvez (esse com mais força, admito) por ter me dado conta de que já me encaminho para o terceiro mês de uma vida completamente diferente da que eu estava habituado.

Mudei para Campinas idealizando inúmeras realidades bem diferentes da que eu me encontro. Viajante nato, achei, por tabela, que seria tranquilo sair do meu Amapá para outro lugar dentro do Brasil. Só que não foi nada tranquilo, galera. Foi bem pior do que eu imaginava. Eu não estava preparado para o intenso choque que me foi descarregado no exato momento em que pisei em terras sudestinas. Poderia elencar fácil os inúmeros aspectos que me fizeram sentir um desespero, um descontrole que não me é comum: o clima, a comida, as dimensões territoriais, até a forma de falar totalmente distinta da que me foi ensinada e que tomei como minha. Foi baque atrás de baque. Mas esses impactos todos tiveram um lado positivo imensurável: nunca me senti tão adulto em todos esses 22 anos de vida. E eu não falo apenas de fazer supermercado sozinho e de ter um canto pra chamar de casa, não.

Iniciei o mestrado, pra variar, levando mais uns murros. E aí o Tiêgo mexe no projeto de dissertação, aprende a ler livro de 200 páginas da noite pro dia, reaprende a ler no papel já que tá sem computador, vive a incerteza da bolsa, descobre a infinidade de possibilidades da universidade, encanta e desencanta com as realidades do local, conhece pessoas incríveis e que estão fazendo dessa caminhada muito menos complicada do que quando foi iniciada, ressignifica o conceito de estudar. É, amigos, foi muita coisa em apenas dois meses. E até hoje ainda tento compreender um pouco da noção de fazer mestrado em uma das instituições mais renomadas do país — e, de quebra, tento entender as implicações que isso tá acarretando em minha trajetória.

A cabeça buga, gente. Tem horas que ela não aguenta tanta pressão. E aí as lágrimas traduzem aquilo que não consigo externalizar. Chorei, chorei muitas vezes, choro agora, inclusive, por estar com dor de garganta e com gripe e sem os paparicos da minha mãe que sabia exatamente o que fazer pra que eu ficasse bem em dois tempos. Dói, não vou mentir. Esse processo de desterritorialização é tão mais complexo do que sair de um local e chegar a outro…

Engraçado, essa é a primeira vez que escrevo tudo de uma vez. As ideias vão vindo e eu estou escrevendo. Acho que psicografar deve ser parecido com isso, mas não sei bem ao certo porque fiz essa comparação. Só sei que colocar pra fora tudo isso vai me fazer dormir melhor e acordar com aquela pontinha de motivação a mais pra seguir em frente e acreditar que, se eu já aguentei quase três meses, aguento esse processo inteiro. A certeza da bolsa veio, o computador provisório foi conseguido, portas se abriram e parece que a maré (que infelizmente não é a do rio Amazonas) deixou de ir contra mim e passou a (me) favorecer.

Tento, todos os dias, lidar com a saudade de casa, dos meus amigos, da minha família, de açaí com galeto no almoço, do vento na orla de Macapá e do gramado verdinho da Floriano. Enquanto não posso ter nada disso, vou voltar pra leitura do texto sobre diferença e ensino de língua estrangeira, comendo um cachorro-quente (com purê de batatas!) e acreditando que amanhã é um outro dia. Um novo dia.