Dos constantes finais e (re)começos

In a loop on 24/7, don’t want it to end
But reality’s waitin’, they say better come up for air soon
Yeah, come up for air soon
Make a change
Tove Lo — Cycles
Só porque tô parecendo (um pouco) sério.

Dezembro chegou. E com ele, a incredulidade do fim de um dos anos mais enriquecedores que já vivi. Não era pra esse texto atingir esse teor de retrospectiva, mas talvez seja necessário um recap do pré-durante 2017.

Janeiro me abraçou com uma ansiedade incontrolável de quem estava prestes a embarcar em um avião com destino a um lugar semidesconhecido, com um único objetivo em mente: cumprir o primeiro ano de mestrado. Ainda tentando me habituar com a ideia de que em um dado momento eu teria que me desfazer de tudo o que havia vivido até então para dar um passo adiante, vivi janeiro como não vivi intensamente nenhum dos doze meses anteriores. Descobri, meses mais tarde, que não precisei me desfazer de todas as minhas vivências, até porque é impossível apagar aquilo que fica na cabeça e no coração. Mas naquele momento, eu só conseguia pensar no fato de que eu não seria mais eu, mas outro.

Fevereiro me recebeu com a fúria de uma broca. Vim para Campinas com uma mala, uma mochila, muitas incertezas e garantias, porém bastante consciente de que eu estava bem porque estava exatamente onde deveria estar (questionei essa minha localidade depois, mas isso é outra história). Minha vida virou de cabeça pra baixo em meio à matrícula no mestrado, procura por lugar pra ficar e o início de um hábito que se tornou comum durante o ano: as idas pra São Paulo. Lá, fui (meio) territorializado em meio a prédios, trânsito e um céu bastante cinza, o que me fez chorar bastante ao perceber que, definitivamente, eu não estava mais em casa. Chorei calado, chorei quieto, chorei muito. Foram dias e dias tentando absorver a ideia de que eu deveria me apropriar daquele espaço por uma simples questão de sobrevivência — ou era isso, ou eu perdia. Não sei o quê, necessariamente, mas meu jogo mental me conduzia a uma realidade que só me dava essas duas crueis opções.

Em minha primeira “viagem” de metrô, tentando estabelecer conexões lógicas entre os sentidos e as estações.

Março abarcou a realidade que eu mais aguardava desde o início do ano. Com o início do semestre letivo na Unicamp, eu poderia, finalmente, parar de pensar bobagens sobre estar no lugar errado ou sobre a saudade da minha terra e do meu povo. Ledo engano. Logo de cara, enfrentei situações que não passei nem em 1% da graduação, tipo ler livros em inglês e reescrever um projeto de pesquisa. A sensação de incapacidade, outrora velha, voltou a me perturbar com tal intensidade que eu mal dormia. Eu só existia, procurando sentido pra continuar persistindo todos os dias em busca de algo que eu ainda não sabia ao certo o que era, mas que estava diretamente relacionado ao fato de eu estar 1) em uma universidade prestigiada e 2) buscando um título. Isso foi minimizado quando conheci, de verdade, minha orientadora. Que ícone, bicho. Se não fosse tamanho apoio e serenidade desta mulher em meio às obrigações, eu certamente teria sucumbido em meio a tantas pressões. Percebi de imediato que eu havia tirado a sorte grande, já que alguns colegas, que mal haviam iniciado a jornada, enfrentavam percalços com seus orientadores. Ou desorientadores, no péssimo sentido, mesmo. Além disso, a incerteza da bolsa e a dúvida sobre como eu iria dar conta dos próximos meses com tantos gastos e tantas coisas pra gerenciar me cegaram. Meu entorno estava ali, a ser desbravado, mas meus medos e receios me impedi(r)am de ir além. E assim segui, mesmo após a certeza da bolsa e uma certa estabilidade com relação às disciplinas cursadas. Eu precisava de muito mais do que a certeza de que podia me manter em Campinas. Só não sabia exatamente o quê.

Abril foi um divisor de águas em minha vida. Já familiarizado com o ambiente e tendo projetado, minimamente, uma aguardada rotina, aos poucos fui percebendo que eu precisava encarar tudo de forma mais leve. O exercício de lembrar constantemente de que eu estava na pós-graduação e poderia adoecer se não me cuidasse (em todos os sentidos) foi crucial pra uma mudança de perspectiva. Foi neste momento que eu comecei a realizar que eu já havia me aproximado de algumas pessoas e que não, eu não havia o que temer (usar esse verbo é horrível, minha nossa). Entre conceitos e conceitos, descobri que eu estava em um movimento absurdo de des(re)territorialização, o qual incluía não apenas sair de Macapá e vir pra Campinas, mas também tudo aquilo que o processo exigiria. Eu estava me apropriando de um espaço que acabou se tornando, com o tempo, meu lugar. E, com isso, surgiram relações físicas e simbólicas essenciais para que eu compreendesse que esse processo é muito, mas muito mais complexo do que eu imaginava.

MEUS BEBEZINHO

Se abril me abriu os olhos pra o que eu poderia explorar (positivamente) em meio a esse lugar, maio foi decisivo pra que eu vivesse. E nesse sentido, eu descobri que poderia questionar minhas próprias convicções de vida ao adentrar em um grande processo de desconstrução com relação a tudo. E isso não inclui andar com um chapeuzinho de aniversário de Cinderela pelo campus (talvez inclua sim, não vou mentir), mas meus movimentos de deslocamento em direção a uma (re)construção. Eu estava em um processo doloroso de reconstituição daquilo que eu havia vivido até então, sentido até então, experimentado até então e acreditado até então. Era hora de crescer. E de não sucumbir às exigências acadêmicas de fim de semestre, que emergiam cada vez mais depressa.

Tava um frio do cacete, mas celebrar meu aniversário de 23 anos nesse contexto foi sensacional ♥

Junho me deu certezas. Inesperadas certezas.
Eu amo fazer aniversário, mas esse ano em especial me deixou nervoso. Era o primeiro aniversário longe da família, longe dos amigos, longe do que me era habitual. E foi memorável receber o parabéns das pessoas mais incríveis que conheci esse ano, em uma mesa de posto, com um frio que começava a castigar e em meio a uma atmosfera que só me mostrava que eu estava, sim, no caminho certo, com as pessoas certas e vivendo as melhores experiências que eu poderia estar vivendo.
E em meio a isso tudo, descobri que ainda é possível acreditar em um semestre regular e descobri isso da pior forma possível: com os trabalhos finais. Não faço ideia de como consegui dar conta de tudo, mas de alguma forma isso aconteceu e me mostrou que, se eu consegui sobreviver a um semestre, eu conseguiria sobreviver ao resto do mestrado — continuo otimista com relação a isso, vale ressaltar.

Meu Amapá ♥

Julho foi o mês de matar as saudades de casa.
Retornei pra Macapá com o intuito de adiantar questões da pesquisa, já que meu objeto está na cidade. Mas é óbvio que aproveitei muito, mas muito mesmo. Fui a balneário, saí com meus amigos, curti com minha família, tomei açaí todo santo dia, deitei e dormi muito em rede… Estes momentos foram extremamente importantes para que eu me (re)territorializasse no lugar que me concebeu. Passados poucos meses em um não-lugar, que foi se tornando lugar, eu já estranhava questões espaciais e relacionais. Administrar tudo na cabeça (e no corpo, já que a mudança de clima também me deu de brinde uma enfermidade) foi um desafio e tanto — mas no final, deu tudo certo. Dar tchau foi doloroso de novo, mas pelo menos agora eu tinha a certeza de que voltaria para Campinas não mais para me territorializar de início, mas para realizar o mesmo movimento que realizei ao retornar pra Macapá. Agora era hora de me reterritorializar.

Agosto foi desafiador. Eu agora havia duplicado meus desafios acadêmicos.
Ainda em julho, tive a confirmação de que seria bolsista de docência em duas turmas de uma disciplina a qual minha orientadora lecionaria e me supervisionaria. Mal eu imaginava o tamanho da importância daquela ação para minha vida, pessoal e profissional. Entrar em sala de aula novamente e sentir o que eu já havia sentido em muitos outros momentos da graduação foi essencial pra que eu tivesse ainda mais certeza de continuar trabalhando com a educação e de continuar firme em meu propósito maior de, um dia, exercer a docência na vida como um todo. Já adianto que a experiência foi incrível do início ao fim — e o leve medo de não dar conta da função deu espaço a uma realização pessoal, de trabalhar diretamente com a formação de professores e de constatar que é nisso que eu construo um dos muitos possíveis motivos para seguir estudando e perseverando todos os dias.
E como eu já havia imaginado, retornar foi bem mais tranquilo do que no início do ano. As novas batalhas que aqui se iniciavam já tinham certa desvantagem, já que meu psicológico estava pronto pro combate. Ou não. Já que reorganizar minha vida foi uma demanda enorme e me fez iniciar, também em agosto, meu processo de psicoterapia — e pra falar disso, eu acho que precisaria de um texto maior ou igual a esse.

Setembro me apresentou possibilidades. Com as idas constantes pra São Paulo e uma vontade grande de ir além, fui atrás de congressos pra participar fora de Campinas. Enviei as propostas de trabalho e tive dois aceites: um pra uma conferência em Brasília e outro pra um simpósio em Curitiba. Discuti com minha orientadora sobre os eventos e a receptividade foi sensacional. O trabalho na pós continuou de uma forma tão mais tranquila que não tive maiores problemas pra lidar com tantas obrigações. Nesse mês, eu também me vi obrigado a montar uma tabela com horários para cumprir, já que eu estava com a carga horária de trabalho dobrada e precisaria me organizar. Desse planejamento, o mais frustrado foi o esporte — já que tentei me inscrever na universidade, mas não consegui. Por outro lado, consegui iniciar as caminhadas — o que me fez ter um pouco mais de disposição diária pra realizar as tarefas. Nessas caminhadas, às vezes mais metafóricas do que denotativas, pude refletir acerca do(s) meu(s) crescimento(s) por vários e vários momentos — e, provavelmente, foi aqui que comecei a constatar que eu já não era mais aquele Tiêgo de janeiro. Se pá, eu não era mais nem o de agosto…

Brasília World Tour

Outubro estava predestinado a me surpreender.
Além das já (mais do que habituais) questões acadêmicas da Unicamp, que incluíram assumir as turmas, ler um livro literário depois de anos na disciplina de pós-colonialidade e literatura africana, e gerenciar as 78506923 leituras das outras disciplinas, viajei à Brasília para uma conferência na qual apresentei minha primeira comunicação enquanto mestrando. A discussão foi extremamente proveitosa e o evento em si, apesar de meio elitizado (se não for pra problematizar eu nem me meto), foi bem construtivo. Porém, o movimento de ir até uma cidade até então desconhecida, receber o carinho e a receptividade enorme de pessoas com quem não tenho um convívio constante, reencontrar amigas do Amapá e ter um incentivo enorme pra seguir em frente foi o combo necessário pra que eu parasse com alguns pensamentos ruins que me afligiam com relação ao meu modo de viver a vida. Pesei tudo em uma balança imaginária e vi que eu não estava fazendo nada de errado — eu só estava em uma constante comparação com tudo aquilo que havia vivido até então. E nesse instante, a terapia se fez mais do que essencial pra colocar as ideias em ordem. Eu definitivamente não estava (mais) em desordem. Eu estava bem. E era isso que mais importava.

Cyritiba World Tour feat. Migos

Novembro consolidou aquilo que eu mais ansiava. Eu nunca me senti tão bem nessa configuração de vida. Isso só foi se reafirmando com o final do semestre se aproximando, com o prazer em realizar as tarefas outrora apenas obrigatórias, com as apresentações em outros dois eventos, em Campinas mesmo e em Curitiba (inclusive venero esta cidade desde 9/11/17). Ah, e viajar de carro foi uma das melhores experiências da minha vida. Não só pela companhia, mas pelo tanto de descoberta que a gente faz. Seja por uma paisagem nova, seja pelas risadas por bobagens, foi a confirmação de que eu fui muito agraciado pelas pessoas incríveis que conheci no meio do caminho, porque com elas, as coisas mais simples do mundo, como almoçar, tornavam-se ocasiões. Inesquecíveis, a propósito.
Novembro foi tão proveitoso, em todos os sentidos… Foi um mês corrido e cansativo, mas foi proveitoso. E mais que isso, foi um arremate. Ou um “arrebate”. Eu definitivamente me territorializei em um espaço no qual a probabilidade disso acontecer beirava o zero no início do ano.

Hoje, olho pra trás e mal consigo lembrar daquela figura preocupada e receosa, que iniciou o ano cheia de dúvidas e incertezas. Algumas certezas vieram, outras dúvidas surgiram no durante e o famigerado devir me instiga cada vez mais a ir além. Além do que eu mesmo acredito, do que eu conheço, do que eu experimento, do que eu vivo.
2017 me mostrou da forma mais dolorosa possível que a distância geográfica dói. Dói muito. A saudade aperta e maltrata em horas nas quais você não pode fazer nada que escape do campo semântico da tristeza. Hoje, eu reconheço que essa dor foi necessária pra que eu pudesse completar o processo de des(re)territorialização. Se é que ele se completou ou se completará um dia…
Amadurecer cientificamente falando também foi uma conquista inestimável. Entrei no mestrado cru. Eu precisava me engajar em busca de uma legitimidade acadêmica. Questiono se eu a encontrei ou se vou encontrá-la — e essa é uma das ditas dúvidas que citei ali em cima…
Eu vivi em 2017. Talvez essa seja a maior lição que eu possa tirar diante de tamanhas reviravoltas que minha vida sofreu. Os perrengues de morar sozinho, os rolês com os amigos, as descobertas de lugares novos, as leituras enriquecedoras e (des)orientadoras, as aulas, tudo contribuiu pra que eu sentisse uma real efetividade em um dos múltiplos sentidos de viver. Fui em direção a movimentos de assunção ainda maiores daquilo que sou (e/ou me tornei neste meio tempo).

E a descoberta de que ainda há muito o que territorializar nesse processo constante de amadurecimento é o que me move rumo a novos não-lugares, que tem tanto a me ensinar quanto os que desbravei neste ano. Encerro este texto lançando mão das ideias do geógrafo Rogério Haesbaert, que em sua obra Territórios Alternativos, nos sugere a construção diária do espaço em que vivemos. É este meu atual propósito: caminhar em direção a (re)conquistas frequentes de um espaço que está em um devir. Em um imprevisível e arrebatador devir.

Pôr-do-sol na Lagoa do Taquaral, em Campinas — ou uma bela metáfora sobre a busca constante de horizontes.