#NãoAoRótulo

Hoje em dia, ao pararmos para analisar o mar de propagandas tendenciosas e ruins que nos empurram goela abaixo na TV e em outdoors, percebemos que é difícil encontrar qualquer uma que possa nos atingir positivamente. Como estudioso da linguagem, sempre reflito sobre o que é veiculado pela mídia e procuro ter o discernimento necessário para diferenciar os tipos de discurso que são propagados. Nesse sentido, tive a feliz sorte de me deparar, ontem, com uma campanha interessante da Nextel Brasil, que levantou um ponto que ainda necessita ser muito discutido na sociedade: os rótulos.

Daniella Cicarelli mostrando ao mundo que quem a define é ela mesma.

Como é possível perceber, Daniella utiliza dos rótulos que lhe foram (e são, provavelmente) empregados para mostrar que não é definida por x ou por y, mas por ela mesma. E apesar de ser uma peça publicitária, não deixa de ter um grande e importante apelo social: dizer não aos rótulos.

Dessa forma, senti-me claramente tocado pelas palavras de Daniella, que ativaram memórias imediatas em minha cabeça. Não tive como conter as lembranças da infância e tempo da escola. Lembranças tortuosas, de tempos em que não conseguia me defender e por vezes terminava machucado. Foram anos de anos de insultos e mais insultos que ocasionaram feridas que até hoje ainda anseiam por cicatrização. Eu era o “veadinho”/ “bichinha”/ “marica” que só andava com as meninas; o “CDF” graças às notas altas; o “puxa saco” por perguntar sobre o que tinha dúvidas nas aulas; o “cara torta” por ter sido acometido pela paralisia facial; o “macaco” por ser negro; a “vassoura”, por ter os cabelos crespos; o “poste”, por ser alto. Além de diversos outros rótulos que me eram atríbuidos tanto pela minha aparência quanto pela minha personalidade.

Sofri por anos. Não tenho a menor vergonha de dizer isso, pois sei que admitir esta fragilidade me torna mais forte para enfrentar o que ainda pode vir pela frente. E sei, também, que falar disso é necessário. Essencial, diria até. Milhares de crianças e adolescentes passam por isso todos os dias, suportando rotulações que as intimidam e destroem por dentro. Precisei chegar à vida adulta para repensar meus ideais e então constatar que eu precisava ser forte e me aceitar da forma como sou para começar a desconstruir tantos pensamentos equivocados sobre o que eu era ou aparentava ser.

Sentir na pele o peso de tantos rótulos me mostrou que a nossa maior arma contra tudo isso é a palavra. Falar. Discutir. Dialogar. Conversar. É necessário mostrar ao mundo, assim como fez a propaganda da Nextel, que essa questão ainda é atual e bastante presente em todas as fases da vida, da infância à velhice.

Após uma pesquisa no twitter, separo aqui alguns tweets com a hashtag #NãoAoRótulo para exemplificar, minimamente, esse câncer da rotulação que aflige a sociedade:

Percebam que não é só uma questão minha. Não foi só porque eu vivi as situações descritas anteriormente. Tem muitas outras pessoas que passaram, passam e passarão por situações nas quais um rótulo vai falar mais alto do que a pessoa realmente é. Por isso, não deixe que um estigma grite mais alto do que sua própria voz. Não deixe que um rótulo silencie a sua identidade, a sua personalidade, a sua vida.

Portanto, deixo este tweet meu, sintetizando e reforçando um ideal que carrego comigo já há um bom tempo:

Diga #NãoAoRótulo. Pelo bem de uma sociedade da qual você faz parte.

E como bem disse Cicarelli: “rótulos não vão me definir. Quem me define sou eu. E isso está nas minhas mãos”. E ponto final.

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