Ele era um canário da terra que nunca aprendeu a voar.

Pássaro tímido, medroso. Só cantava quando não tinha ninguém por perto, escondido entre os bateres da máquina de lavar roupas.

Mas do jeito dele, com seu biquinho e com um pio pela metade, se comunicava com quem quer que o visitasse.

Nomeei-o Pi. Não por causa da matemática, e sim porque era este o som que fazia quando nos ouvia na cozinha tomando café e queria fazer parte da conversa, ou quando minha mãe lhe falava bom dia. Ele sempre respondia.

Mas quem é o tirano que prende um pássaro, que nasceu para voar…?

Era apenas uma bolinha amarela escondida embaixo do vaso na garagem. Devagar, me aproximei: “o que será?”. Logo ele já estava escalando a parede de pedra, assustadíssimo, as asas batiam mas não surtiam efeito. Agimos rápido, entendendo que deixá-lo ali, sem saber voar e sem ter como se esconder, era o mesmo que dar um banquete fácil a algum gato da vizinhança.

Minha mãe o pegou nas mãos. O coraçãozinho saltitante, as bicadas que a faziam dar gritinhos de dor. Busquei correndo uma tigelinha com água e trancamos o bichinho dentro do lavabo. Nossa casa não tinha nenhuma estrutura para comportar qualquer tipo de animal, mas era uníssono o sentimento de que precisávamos cuidar de criaturinha tão frágil.

Compramos uma gaiola. Parecia a coisa certa a se fazer, visto que obviamente ele não conseguiria voar por algum tempo, e não podíamos deixá-lo trancado em um banheiro pra sempre. Na gaiola ele estaria seguro: pelo menos teria tempo para se recuperar.

Alpiste. Algum tipo de ração específica para canários da terra, com vitaminas — recomendação de um tio, que “entendia dessas coisas”. Segundo ele, a asa estava boa e após muitos exames afirmou que era uma fêmea. Efemeridades. Nunca nos importamos com isso. Era o pássaro Pi. Era o Canário Pi. Era nosso amor, Pi.

Minha mãe um dia achou que ele pudesse gostar de “tomar um ar fresco”. Colocou sua gaiola no meio de uma laranjeira que tínhamos no quintal e largou a portinhola da gaiola aberta. Já fazia um tempo que ele estava conosco, talvez ele quisesse voar… Escondeu-se nos vãos do fundo da gaiola e, se pudesse, gritaria por socorro. Minha mãe logo notou que ele estava apavorado e trouxe-o de volta, são e salvo, para dentro de casa. Nunca mais o levamos para o banho de sol.

E quem diz que pássaro não tem memória, ou não sabe do que fala ou não conheceu nosso Pi. Minha avó paterna deu à minha mãe um casaco de pele, com uma gola muito “peluda”. Lavou-se o casaco e foi posto pra secar perto de sua gaiola. Ele ficou muito mais tempo do que deveria, numa mistura de luta e terror, se debatendo dentro da gaiola. Lembro de brincarmos: “Esse pássaro tá precisando de um Rivotril! O que tá acontecendo?”. Foram horas até alguém entender que tudo aquilo era ele enxergando o “casaco peludo” como um potencial inimigo. Tinha o mesmo comportamento quando via minha irmã: seus cabelos muito negros também deveriam trazer alguma memória desagradável. E só descobrimos quando ela clareou os cabelos e sua mudança de comportamento foi notória.

Seu pio, às vezes quase inaudível, nos alegrava cada vez que visitávamos o cômodo onde morava. Ele batia o bico, fazia um gracejo ou outro. Tinhamos dó de acender a luz à noite e atrapalhar seu sono. Muitas vezes andamos no escuro, tateando as coisas em busca de algo, para não o acordar.

Mas cantava a plenos pulmões quando a máquina de lavar roupa começava a centrifugar. E uns anos atrás arrumou um coleguinha de canturia, que vinha até a janela e faziam duetos: isso quando ele achava que não tinha ninguém por perto ouvindo, óbvio. Se notava uma presença, já soltava seu característico “Pi”. Nunca ninguém teve a honra de vê-lo cantar. Mas ouvíamos com o coração cheio de felicidade e orgulho, e uma pontinha de “Pilantrinha! Canta tão bem, mas na nossa frente é só esse “pi” xumbrega!”

Minha irmã acordou chorando. Sonhou que o tinha encontrado morto. Era uma preocupação que passou a nos rodear: 11 anos de convivência… Quantos anos vivem um pássaro? Ele já havia passado da média. Queríamos acreditar que ele era como o rato do filme, imortal. Mas poucas semanas depois o sonho da minha irmã se tornou realidade.

O silêncio era ensurdecedor.

De repente os cafés da manhã eram recheados de lágrimas. Ainda mantínhamos a luz apagada à noite. Sua gaiola vazia, a falta de coragem em aceitar que ele havia de fato ido embora.

Por ironia do destino, o varal que colocamos na área de serviço, onde ele ficava, faz o exato barulho de seu pio.

Algumas vezes mexo no varal de propósito, relembrando nossas conversas. Aquela dor que só se sente quando se amou de verdade.

Ele era um canário da terra que nunca aprendeu a voar.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.