A MELHOR RECEITA É UMA BOA HISTÓRIA.

O México sempre me fascinou.
E nada tem a ver com El Chavo Del 8.
Embora confesse, sou fã declarado.
Aliás, tenho pouca confiança em quem não moldou seu caráter vendo o menino do barril tomar cascudos.
Mas o ponto aqui é outro.
O México tem cores, músicas, sombreiros e ponchos, e aquelas igrejas pequenininhas — bem no meio do nada — que só poderiam existir lá.
Ninguém farreia como o mexicano. A música é sempre animada, el tequila sempre abundante (sim, é “o tequila” e não “a tequila”) e a comida é sempre quente.
O México sempre me fascinou. Principalmente pela comida.
Uma paixão que levou à outra.
Foi meio que por aí que conheci minha namorada.
Não teve novela mexicana. Nem drama, nem teatro.
Mas sempre teve comida. E a do México, é a nossa favorita.
Então a gente decidiu: vamos fazer um curso. Daqueles com chef de cozinha bacanudo, que manje das paradas e tenha uma barriga de respeito.
A gente não confia em quem cozinha e não tem barriga.
Conhecemos o Eduardo Ogro. Que de Ogro não tem nada.
Mas é um monstro de cozinheiro.
Aprendemos sobre pimentas, ingredientes, emulsão e, principalmente, história.
Eu não sabia, por exemplo, que o burrito foi um prato criado para ser levado no bolso de operários mexicanos, que precisavam passar dias na estrada até chegar à fronteira do Texas e tentar um trampo por lá.
Por isso, o nome Tex-Mex. “Mas nunca repita isso. Os mexicanos se ofendem. É pejorativo”. Palavras do Eduardo. Falei que não era Ogro?
Na América a comida é cara, o trabalho era pouco e a conta não fechava.
Por isso, os trabalhadores mexicanos pegavam o feijão, o arroz, um pouco de carne, pico de gallo (um tipo de vinagrete apimentado), enrolavam em uma tortilla de trigo, metiam no bolso, montavam no burrinho e caiam no mundo.
Daí o nome burrito.
Talvez, se eu não conhecesse a história, não teria entendido a mecânica de como montar um burrito.
Tem que ficar bem firme, se não os ingredientes não se amarram e o prato desmonta.
No meu trabalho, sempre que um cliente novo aparece, preciso e procuro saber tudo a respeito dele. Geralmente, a solução do problema, está no próprio problema.
O processo criativo não existe sem o processo perceptivo.
Portanto, se você quiser desenvolver algo para o futuro, mudar a fórmula, ou como dizem na cozinha, fazer uma bela emulsão. Bem, antes de tudo, conheça e domine a história do seu produto.
E aqui vou eu, dia após dia, juntando os ingredientes, montando o meu burrito.
Ou talvez eu seja o burro.
