Vivendo repleta de mim e abarrotada de saudades suas
Como se não bastasse ter ido embora, você também levou consigo as suas predileções e eu fiquei assim, bem mais só. Não me refiro à clara ausência da sua pessoa, mas à solidão dos meus “gostares”, que encontravam nos seus um par à altura. Artes, música, literatura, lugares, pessoas…
Nossa, que falta eu sinto de gostar do Klimt com você; que tristeza eu tenho, quando escuto o Aznavour; que saudade doída me dá, quando eu leio o Mia; não sabe o aperto que fico no coração, quando vou à “nossa” praia; e quantas lembranças me consomem, quando encontro os nossos amigos!
Nós aprendíamos o amor e descobríamos o mundo, eu te ensinava o meu universo e você me mostrava a sua galáxia. Passamos a ser cultos de nós mesmos, estrelas do nosso roteiro, enquanto tudo o mais era coadjuvante.
Ainda me recordo, nitidamente, que era tão aconchegante que minhas loucuras formassem duplas com as suas, que nossas risadas dessem as mãos, que nossos olhos se divertissem juntos, que minha boca grudasse na sua e que seu abraço se encaixasse no meu. Ah, que falta me fazem essas nossas trocas!
Eu costumo dizer, e você bem sabe disso, que completa eu sempre fui, porque não existe essa coisa de metade da laranja, pois como pode alguém completar o outro se nem a si mesmo se completa? Por isso, eu repito que inteira eu sempre fui, mas como era gostoso ter a minha plenitude acompanhada da sua… Mais que isso, como era incrível além de completa, ser completamente feliz.
Bom, tudo isso começou a ter seu fim, quando aquela tempestade surgiu. O vento bateu as janelas, as luzes se apagaram, a escuridão fez suas mãos se afastarem e nossos olhares se perderem. Outras tormentas vieram e trovões foram criando abismos entre nós, até que uma última brisa, bem leve, nos separou por completo, tão frágeis estávamos.
Você colocou seu amor na mala e, finalmente, partiu, acompanhado pelos seus antigos saberes e pelos novos que construímos juntos, me deixando só, um tanto perdida e com uma pergunta meio sem resposta: E agora, meu amor, como viver sem você? É…, acho que apenas me resta seguir em frente, ainda repleta de mim, mas abarrotada de saudades suas…