A tonga da mironga do kabuletê

O show estava marcado para as dez da noite, mas cheguei cedo ao Auditório do Mar de Vigo porque nessa região da cidade — em frente ao cais do porto — é difícil estacionar. Cheguei cedo e fiquei ali observando os últimos raios de sol batendo na água e as pessoas que, como eu, esperavam. Apurei os ouvidos para detectar se havia muitos brasileiros ali, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Pareciam espanhóis mesmo. Aparentemente ia ser um show de Toquinho e Maria Creuza para gringos.
Abriram as portas do auditório, sentei, o local foi enchendo pouco a pouco até que lotou. Com meia hora de atraso, entrou Toquinho no cenário cantando “Uma tarde em Itapuã”. A intensidade das ovações que se seguiram era uma pequena demonstração do que estava por vir. Uma hora e meia de emoção em estado bruto e uma experiência de brasilidade como poucas.
Recém-chegada das férias no Brasil, ainda bulia na minha alma esse sentimento, que sempre me causa estranheza porque é muito raro em mim, de pertencer a algum lugar. Ou seja, eu era um campo fértil, preparado para viver o que Toquinho e Maria Creuza me proporcionaram ontem à noite.
Quando acabou a primeira música, ele começou a explicar, em espanhol, como tinha sido seu encontro com Vinicius de Moraes. O público gritava: “Português, português”. No início, Toquinho não entendeu muito bem, pensou que havia um problema técnico com o som. Mas as pessoas insistiam: “Português, português”.
Quando se deu conta do que se tratava, disse:
– É a primeira vez que, num show, em vez de me pedirem uma música, me pedem um idioma. Vocês querem que eu fale português?
Pela contundência da resposta, deu pra perceber que o público era maioritariamente brasileiro. Fiquei com pena dos poucos espanhóis presentes porque, a partir daí, foi um show de brasileiros para brasileiros, com direito a piadas, histórias dos bastidores da bossa nova, comentários sobre o país…
Ao meu lado, estava um casal misto. O cara, brasileiro, passou todo o tempo traduzindo para a namorada o que Toquinho e Maria Creuza diziam. Houve um momento que ele entregou os pontos e disse: “Depois te explico”. Foi quando Toquinho contou a origem da música “A tonga da mironga do kabuletê”.
Segundo o músico, um dia, no Mercado Modelo, em Salvador, ele e Vinicius ouviram um sujeito insultar o outro dessa maneira. Em vez de mandá-lo tomar naquele lugar, o que, em tempos de ditadura, poderia levar à prisão, inventou esse xingamento afro-tupiniquim.
Agora imaginem como traduzir isso. O título da música é intraduzível e a expressão “tomar naquele lugar”, em português, é pouco compreensível para um espanhol. No idioma de Cervantes, quando se quer soltar esse impropério, se diz “que te den por el…” ou simplesmente “que te den”, a versão abreviada e mais popular.
Na minha frente, estava uma mulher de cerca de 60 anos com uma mocinha que devia ser sua filha ou algo parecido. Antes de começar o show, ela parecia muito formal, com sua elegância e seus cabelos louros devidamente escovados. Mas, depois dos primeiros acordes, soltou a brasileira que levava dentro dela. Enquanto a suposta filha gravava tudo pelo celular, sem mexer um músculo sequer, ela dançou, cantou, ameaçou levantar-se algumas vezes, assobiou e até ensaiou uma reboladinha na cadeira.
Mas ela não foi a única. Toda a plateia estava rendida ao poder evocador da música. Esse fenômeno sempre me impressiona. Nos momentos que reneguei da minha nacionalidade brasileira (sim, muitas vezes fiz isso), movida pela mágoa, pelo despeito ou pela ambivalência, escutar bossa nova ou Marisa Monte ou Paulinho da Viola ou algum grupo de rock dos anos 80 me fez dobrar os joelhos e admitir minha debilidade ante algo que era mais forte do que eu.
Assim como todas as vezes que desprezei minhas origens portuguesas, movida pelos mesmos sentimentos que mencionei acima, a voz de Teresa Salgueiro, do grupo Madredeus, me colocou no meu devido lugar. Era como se ela me dissesse: “Não sejas idiota, pá. Não vês que eres portuguesa mesmo?”
A música não entende de ressentimento nem de fronteiras e crises de identidade. Ela fala diretamente ao coração (perdão pelo clichê). Imbuída dessa sensação, na volta pra casa, quis escutar um CD de bossa nova no carro, mas não tinha nenhum. O único que havia à mão era um do Bob Dylan. Preferi, então, o silêncio. E fui cantando na minha cabeça: “Você que lê e não sabe/Você que reza e não crê/Você que entra e não cabe/Você vai ter que viver/A tonga da mironga do kabuletê”.
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Originally published at tinavieirablog.wordpress.com on July 10, 2016.