O poder da palavra

Um psicanalista e professor que eu conheço — amante da natureza e de uma boa conversa — costuma dizer que ele, humildemente, só aspira a ser um semeador. Nada de títulos, honras, dinheiro ou reconhecimento. Segundo ele, a única coisa que justifica a sua existência é dedicar-se a jogar sementes pelo mundo afora, sem distinção de público, hora ou lugar. E pensar que filósofos, teólogos e psicólogos de botequim discutem há anos sobre qual seria o sentido da vida… Não existe uma resposta única, que possa dar conta de uma questão como essa. Cada um encontra — ou não — sua própria teoria. Já ouvi muitas, eu mesma tentei desenvolver algumas, mas a que mais me seduz é a do semeador.

As sementes desse psicanalista têm forma de palavras. É preciso usá-las para curar feridas, ajudar a entender, iluminar, esclarecer, dar outra versão dos fatos, levar a uma mudança de perspectiva, forçar uma toma de consciência, fazer sonhar, gerar compaixão, provocar pensamentos nunca antes pensados… O problema é que, como no caso das sementes biológicas, nunca sabemos quais vão vingar ou não. É quase como se fosse um jogo, uma roleta russa. Você joga as sementes, mas pouco pode fazer para controlar fatores externos, como o clima, a qualidade da terra, o vento, a ação dos pássaros, a sombra das árvores…

Mas isso não importa. O verdadeiro semeador não espera reconhecimento, atua por convicção interna. Na maioria das vezes, nem chega a saber se suas sementes foram fecundas. Num primeiro momento, o mais provável é que as palavras caiam em saco vazio. A médio ou longo prazo, no entanto, podem ganhar força, ser recordadas, ainda que o nome do seu autor não venha à memória.

As palavras são pequenos presentes que o semeador distribui, sem saber quais serão aproveitadas ou entendidas. Ele semeia com generosidade, na esperança de que, um dia, elas brotem do inconsciente e provoquem um momento, ainda que fugaz, de compreensão. Quando isso aconteça, o que semeou talvez já não esteja ali, estará arando outras paisagens, mas seu “trabalho” adquiriu um sentido que ele próprio nunca conhecerá o alcance.

Como o esquilo que se dedica a enterrar frutos e grãos, guardando-os para o inverno, época de escassez de alimentos. Mas enterra tantos, em diferentes lugares, que depois, na hora de comê-los, não sabe onde estão. Uma parte acaba dando origem às árvores que vemos no bosque. Mas ele, como bom semeador, ignora seu poder.

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