Quem sabe o que é uma erva daninha?

As primeiras hortênsias de 2016

As pessoas que mudam de país costumam contar histórias sobre as dificuldades enfrentadas, que são muitas. Descrevem as agruras passadas na hora de resolver algum problema burocrático (principalmente quando não se domina o idioma local), os problemas para arranjar trabalho, a saudade dos amigos e das altas temperaturas, o vazio que às vezes se sente e a eterna questão: que raios estou fazendo aqui? Tudo isso acontece, já faz parte de uma lista não escrita de clichês sobre o assunto.

Comigo não foi diferente, mas, como estou prestes a completar 13 anos de travessia para o além-mar, gostaria de falar sobre o tema desde uma perspectiva mais poética. E isso não significa que seja irreal ou fantasiosa, mas apenas diferente. Mudar de país me fez, acima de tudo, ser uma pessoa melhor. Perdi 80% da minha arrogância — sacada a fórceps, é verdade — e aprendi a fazer tantas coisas novas… coisas pelas quais nunca tive o menor interesse, mas que foram surgindo na minha vida de forma ora obrigatória, ora aleatória.

Exemplo do dia-a-dia: tive que aprender a cozinhar e a limpar (até hoje sou viciada em revistas sobre “coisas de casa”). No início, era uma tortura. Lia as receitas, ligava pra minha mãe, lia de novo, olhava para a panela e rezava. Hoje, não sou uma craque no assunto, mas me safo e posso afirmar que cozinho todos os dias (com exceção de algum fim de semana de festejos).

Mas o mais bonito que a emigração me deu foi o amor pela natureza. Aprendi a diferenciar um carvalho de um castanheiro. Reconheço as folhas dessas árvores e sei quando o ouriço da castanha se está formando ou quando aparecem as primeiras landras (ou bolotas) da temporada. Para quem não sabe, esse é o fruto do carvalho que alimenta os porcos que dão origem ao melhor presunto do mundo, o famoso jamón de bellota.

Descobri quais hortaliças se planta em cada época do ano, qual o adubo mais eficiente (cocô de galinha, de cavalo ou de coelho?), qual a melhor época para podar as roseiras, em que mês do ano as hortênsias começam a florescer (foto), como “salvar” os gerânios de um ano para o outro… Mas o mais surpreendente de tudo mesmo foi aprender empiricamente o que é uma erva daninha. Apesar de que conhecia o seu significado semântico desde criança, nunca tinha visto uma em pessoa. Ou, pelo menos, nunca tinha prestado atenção nela.

Quando comecei a plantar “coisinhas” para aproveitar um pedaço de terreno, notei que, em pouco tempo, nasciam outras “coisinhas” entre os pés de tomate e de pimentão, por exemplo. Mas eram bonitinhas. Então, pensei que não tinha nada demais. Até que um mês depois tinham tomado conta de tudo e roubaram oxigênio das plantas que eu, sim, tinha semeado. Lição daquele ano: “ah, então, isso é que é uma erva daninha!”.

Você pode me dizer — com uma sensatez inegável — que não é preciso sair do seu país para aprender nada disso. No meu caso, foi imprescindível. Se não fosse pela mudança que remodelou a minha vida, jamais teria reparado no ciclo das plantas ou nas folhas das árvores. E, principalmente, não teria observado as pessoas que cruzaram o meu caminho nesses 13 anos, pessoas que compartilharam comigo trabalhos duros, momentos difíceis e que, mesmo sem ter a menor ideia de onde está Irajá, dividiram a mesa comigo, me contaram suas histórias, me ensinaram o idioma e riram do meu sotaque. Mas isso eu perdoo.

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