Dinheiro traz felicidade?

Qual a relação entre a renda média brasileira, a felicidade, o nobel em economia e viver de renda.

Quando se fala sobre felicidade, podemos enumerar uma série de quesitos fundamentais: saúde física e mental, família, amigos, necessidades básicas sanadas, sentimento de propósito na vida, conhecermos nossos sonhos. Essa lista poderia continuar infinitamente e seria diferente para cada um de nós. Uma pergunta que sempre fica no ar é: o quão importante é o dinheiro quando estamos falando de felicidade? Podemos pensar em vários casos em que pessoas com situações financeiras muito difíceis podem ser consideradas absolutamente felizes e realizadas, ao mesmo tempo mesmo tempo que lembramos de casos de milionários infelizes. Porém, deixando um pouco de lado as evidências anedóticas, será que podemos estabelecer um padrão ou ao menos alguma métrica geral para nossa sociedade?

Angus Deaton, o ganhador do Nobel de economia de 2015, defende que a falta de dinheiro trás, sim, infelicidade e ansiedade.

É razoável pensarmos que exista um mínimo necessário de recursos financeiros que seja capaz de proporcionar alguns prazeres e confortos além do estritamente necessário para sobrevivermos. O quanto é esse mínimo passa certamente por um julgamento de valor, de natureza subjetiva e o qual só poderíamos estimar. Dentre outras coisas, em seu trabalho Angus destaca que, nos Estados Unidos, a partir de um salário de U$ 75 mil/ano, o dinheiro deixa de possuir uma relação direta com a satisfação das pessoas no dia a dia. Ele pesquisou mais de 450 mil pessoas entre 2008 e 2009, em parceria com outro ganhador do Nobel de economia - Daniel Kahneman - concluindo que, apesar daqueles que ganham mais de U$ 75 mil/ano reportarem maior satisfação geral em sua vida, esse aumento não se refletia no alívio da infelicidade ou do estresse cotidiano.

“Suspeitamos que isso quer dizer que, em parte, quando as pessoas possuem muito dinheiro, elas podem obter muitos prazeres, porém, existem indícios que, quando você tem muito dinheiro, aproveita menos de cada um desses prazeres," disse Kahneman que, para constar, ganha mais do que U$ 75000. "Talvez U$ 75000 seja um limite que, quando ultrapassado, os incrementos posteriores deixam de aumentar a capacidade individual em fazer o que mais importa para seu bem-estar, como passar o tempo com pessoas queridas, evitar a dor, a doença e aproveitar o ócio" (em tradução livre, artigo em inglês)
Angus Deaton, ganhador do Nobel de ecomonia em 2015

Esse estudo vem suscitando uma enorme discussão há 5 anos, com muitas opiniões fortes de cada lado. Um exemplo recente foi dado por Dan Price e sua companhia, a Gravity Payments. O empreendedor de 31 anos revelou, em um evento aberto e com cobertura da NBC News e do The New York Times, que a partir daquele momento todos os funcionários receberiam U$ 70000 e, para financiar esses valores, cortaria seu próprio salário de U$ 1.1 milhão para U$ 70000. Dan e sua companhia foram imediatamente catapultados para o centro das atenções, com uma mistura equilibrada de otimismo e ceticismo. Passados seis meses, após perder uns poucos clientes e dois funcionários, a empresa segue desafiando os céticos. Price afirma que a mudança realmente injetou novos ânimos nos funcionários. (Leia mais aqui)

Trazendo para realidade brasileira, chegaríamos a algo próximo dos R$ 200 mil/ano ou R$ 17 mil mensais, aproximadamente. Na prática, esse valor de renda anual representa apenas 1% da população brasileira.

Existem duas formas possíveis de alcançar essa renda.

  • Trabalho: seria a renda oriunda do próprio trabalho, profissão, salário, pró-labore. O indivíduo que tem esse valor de renda tem, em média, entre 45 anos e 55 anos, ou seja, já se aproxima da idade em que sua produtividade tende a cair. É o pico produtivo do brasileiro.
  • Investimentos: renda oriunda do não trabalho, ou trabalho acumulado, de seus ativos.

A primeira opção geralmente dá suporte para a segunda. É mais comum que os primeiros investimentos de nossa vida sejam em melhorar nossa produtividade, em educação e formação. Entre os 20 e 35 anos de idade, investimentos em conhecimento como faculdades, cursos profissionalizantes, pós-graduações são muito mais comuns do que investimentos em ativos financeiros.


Pensando no futuro e na aposentadoria, o que precisamos fazer para obtermos uma renda de R$ 17mil mensais?

Podemos fazer a conta de quanto precisaríamos ter para se aposentar aos 60 anos e consumir o dinheiro guardado pensando em uma expectativa de vida de 100 anos.

Em nosso texto sobre perfis de investidor, destacamos a importância do conhecimento e agora gostaríamos de propor um raciocínio: tendo em vista um perfil conservador, quanto precisaríamos ter investido para conseguir uma renda de R$ 200 mil ao ano.

Com o valor acima seria possível resgatar algo como R$ 17 mil/mês dos nossos investimentos eternamente. Mesmo descontando a inflação e os impostos, ainda teríamos uma renda suficiente para estar dentro da faixa dos 1% mais ricos do Brasil.

Uma carteira de investimentos apropriada para o perfil conservador e com esse rendimento seria composta por aplicações em títulos públicos, debentures e imóveis, criando um mix entre os três.


Fonte: Renda dos estratos — interpolação a partir dos dados da DIRPF 2006 a 2012; População — IBGE, projeções de população; Renda das famílias — estimada a partir das Contas Nacionais do IBGE.

No artigo “O topo da distribuição de renda no Brasil: primeiras estimativas com dados tributários e comparação com pesquisas domiciliares, 2006–2012," por Medeiros, Souza e Castro datando de 2014, é apresentado gráfico acima com dados provenientes da receita federal as faixas de renda dos 1% e 5% mais ricos do Brasil. O interessante é que ele evidencia que boa parte dos investidores estão no topo da pirâmide de renda.

A concentração de renda e a importância da acumulação de capital vem crescendo ano a ano. Com a desaceleração do crescimento demográfico e o desaquecimento das economias globais, a poupança tem um papel cada vez maior na formação de patrimônio. Estabelecer uma política inteligente de reinvestimento da sua renda mensal aliada a uma carteira estruturada e de acordo com o seu perfil são o caminho mais garantido para a tão sonhada independência financeira. E, segundo as pesquisas de Angus Deaton, para a felicidade no seu dia a dia.

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